Ausência de Movimento

Ainda escuro, ele saiu de uma festa/reunião. Entrou num prédio público aparentemente com o intuito de ir ao banheiro. A porta entreaberta, viu uma cena visceral, stripped down, que o fez recuar. Ao sair do misterioso prédio, num intervalo de tempo que não chegou nem a um minuto, constatou que o céu clareou.

Aquelas ruas cinzas e tristes indicavam uma segunda de manhã. Uma biblioteca abandonada sempre sintonizada no mesmo canal. Teriam os livros se recusado a entrar em extinção? Aqueles corredores não viam alma alguma há muito, a não ser a do velho senhor responsável.

Ao longo de uma década, a mesma pessoa era a responsável por um surrado carrinho de pipoca. Ausência de movimento. A temida rotina assustava aquele jovem há mais de dez anos.

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O Lado Bom da Vida: Mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá

O indivíduo se recusa a ir ao cinema, apenas porque está disposto a assistir ao “filme da própria vida”. Engraçado que a vida dele nem é lá tão interessante assim. Mas ainda assim, ele tenta ver o lado bom de tudo. Por mais que tenha que se esforçar pra isso.

Escrito por Matthew Quick, “O Lado Bom da Vida”, conta a história de Pat Peoples, professor  do ensino médio, acredita que sua vida é um filme e Deus é o produtor por trás. Depois de ter passado 4 anos numa instituição psiquiátrica (tempo o qual ele se refere como “apenas alguns meses”), se prepara física e emocionalmente para se reconciliar com sua esposa Nikki, depois do “tempo separados”: ele flagrou sua mulher com outro homem e se descontrolou.

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O título original é Silver Linings Playbook. A expressão Silver Lining se refere ao contorno ilumunado das nuvens quando encobrem o sol, dando a entender que mesmo numa situação ruim, algo pode soar positivo. Logo, a tradução livre do livro (e do filme, como verão a seguir) faz completo sentido e foi muito bem traduzida para o português. Não vou me ater muito à sinopse e já vou partir logo pros detalhes, porque eu não me aguento. Comentário pessoal: li o livro compulsivamente em um dia.

Voltando à história… Diagnosticado com um transtorno bipolar, Pat volta a morar com os pais e tenta recuperar sua sanidade e mudar completamente seu jeito de ser drasticamente – tudo pelo bem de sua tarefa e sua obsessão por enxergar seu “final feliz”. Ele se recusa a enxergar qualquer coisa além do seu final feliz.  Pat está completamente cego pela idéia de que Nikki vai voltar a amá-lo algum dia e passa a ler todos os  livros que ela passa na aula de Literatura para os alunos.

O pai de Pat o trata com completa indiferença e não sabe lidar com o fato de o filho ser um “doente mental” – é assim que ele se refere ao filho. Não abertamente, claro. Mas deixa subentendido. Os amigos o tratam diferente e a esposa se recusa a vê-lo e evita comentar o que realmente aconteceu. Pat quase matou o amante da mulher de pancadas e depois do diagnóstico dele foi criada uma ordem de restrição judicial, na qual ele teria que ficar a pelo menos 150 metros de distância da ex-mulher, com a qual ele ainda sonhava em se reatar.

A música Songbird do Kenny G atormenta Pat ao extremo, porque foi a música que tocou em seu casamento e foi a música que estava tocando enquanto sua mulher estava na banheira com outro. E ele não aguenta os “acordes sensuais do sintetizador” mesclado ao solo de saxofone. O medo quase infantil que ele tem do saxofonista soa um tanto engraçado. Aliás, depois do “incidente”, Pat se mostra cada vez mais infantil, o que o torna cativante: a inocência com a qual age.

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Como Pat lida com essa ilusão e com a indiferença do pai? Se tornando uma pessoa extremamente sensível e fazer coisas boas que, antes, ele não tinha o hábito de fazer. “Estou praticando ser gentil ao invés de ter razão”, diz ele.  Mas é bem como dizem: é preciso passar por experiências desagradáveis pra aprender a analisar melhor a vida. Como uma retrospectiva ambulante. A vida inteira passa por nossos olhos, como numa fita de vídeo. Como na morte, imagino. Oh ok, foco. Viciado em exercícios físicos (ele corre vestindo um saco preto de lixo que, segundo ele, serve pra ajudar a suar e, automaticamente, emagrecer), Pat está obcecado por seu final feliz. Entretanto, mal sabe ele que a vida tem um jeito engraçado de mudar completamente o ritmo sem alterar a felicidade no final.

Um dos melhores momentos é o surto dele ao perceber que Nikki passa livros com finais deprimentes às crianças na escola em que leciona. Ele fica doente de raiva ao ler “Adeus às armas” de Hemingway. Mas o motivo pelo qual ele faz isso – se interessar pelo que Nikki gosta – é “derramar sabedoria” e jogar na cara das pessoas que o chamavam de “iletrado”, o estereotipando, já que ele sempre prezou por seu corpo e por ser forte. Outro surto ótimo é quando o vídeo do casamento dele com Nikki some e ele acorda a vizinhança inteira, aos berros, como se estivesse morrendo de dor no pâncreas. Oh wait. Estou falando do filme. Enfim, foco [2].

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Aliás, o livro demonstra bem sua força. Coloca a força física dele em evidência, devido a malhação e a academia particular. Torcedor fanático do Eagles – assim como seu pai e seu irmão Jake – tenta tornar esse fator em comum em algo positivo para se aproximar do pai. Em vão. No final, ele acaba falando com o filho quando dá vontade. Então ele aproveita isso. “Ser gentil é melhor que ter razão”, lembra? Pois é.

Quando achamos que a história não poderia ficar mais interessante, PLU: aparece Tiffany na vida de Pat. Tiff é irmã da mulher de seu amigo, Ronnie. Jovem depressiva que ficou viúva muito cedo e foi demitida do trabalho por transar com todo mundo do setor (“fiquei carente depois que Tommy morreu”), passa a seguir Pat em suas corridas diárias e estudá-lo detalhadamente, o que o assusta a princípio. Ele chega a dizer que seria melhor que ela se mantesse longe dele, mas não é o que acontece.

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A “loucura” de ambos é o que os tornam cada vez mais unidos, apesar de umas briguinhas aqui e ali. Não, não soa como comédia romântica. É bem mais do que isso. Sabem por quê? Porque não são enxergados como pombinhos e sim como um casal problemático julgado aos olhos de todos ao redor. Casal que se completa. Tiff promete ser a mensageira entre Pat e Nikki, já que a justiça proibiu eles de se encostarem. Só que Tiff, em troca desse favor, o convence a participar de um concurso de dança com ela. Até Pat descobrir que quem envia as cartas pra ele era… SPOILER DETECTED. Calar-me-ei.

A relação de Pat com seu irmão, Jake, é boa e amigável. Ele acaba descobrindo que seu irmão casou enquanto ele esteve no “lugar ruim” e sua mãe escondia vários detalhes de coisas que ocorreram que, aos poucos, ele foi descobrindo. Cliff Patel, psicólogo de Pat, vive testando sua índole, perguntando se ele transou com Tiffany, o que o irritava de verdade e ele sempre respondia: “sou casado” *mostra aliança* E o relacionamento dele com o terapeuta se torna ainda mais engraçado quando eles se descobrem torcedores fanáticos do Eagles. Aliás, tem partes no livro onde só se fala: “voem Eagles, vai Eagles”… é futebol que não acaba mais. Argh. Mas isso não torna o livro menos interessante, pelo contrário. A história de Pat Peoples é muito rica. Mas ok, sem mais detalhes. Vamos às pequenas diferenças entre o livro e o filme.

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O livro de Matthew Quick foi adaptado para as telonas sob a direção de David O Russell e chegou ao Brasil este ano. Com Bradley Cooper (Se Beber Não Case) como Pat, Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes) como Tiffany, Robert De Niro (Taxi Driver) como Patrizio, pai de Pat e Jackie Weaver como Dolores, mãe de Pat. Em sua essência, o livro não difere tanto do filme, mas alguns detalhes ricos, infelizmente, se perdem (como é de se esperar). No livro, Pat soa um pouco conformado apesar de tudo. Mal de lembra das coisas e  pergunta coisas sobre o passado e presente, as quais os pais tentam omitir dele sem sucesso. No filme ele é mais intenso, mais ativo nas atitudes, por assim dizer. Tiffany mal abre a boca no livro: é mais depressiva a la Funérea do que o previsto. No filme, ela o persegue o tempo todo e fala bastante. Afinal, ela percebe que não pode viver sem Pat. Danny, o amigo de Pat, aparece mais no filme do que no livro. Acho que é pra suprir a falta de enredo de Jack, que no livro aparece bem mais.

No livro, na cena do “concurso” de dança (sim, entre aspas porque na verdade nem chega a ser um concurso, diferente do filme), há uma magia bem detalhada e a música tocada é Total Eclipse of the Heart. Os passos de dança são precisos – saltos, giros, equilíbrio (devido à habilidade de Tiffany com a dança moderna). Diferente do filme, que é outra música e os passos, apesar de bem feitos, não tem a precisão profissional que as páginas indicam.  No livro, o pai é intensamente distante de Pat e nem fala com ele. Só fala com ele ao ser chantageado pela mulher. Já no começo do filme, ele interage melhor com o filho e fala bem mais com ele. E quanto a ordem de restrição judicial de Nikki…? Balela. Afinal, o que ela fazia no concurso de dança? E o medo que ela sentia dele? Sumiu do nada? Apesar das diferenças e da rapidez com que certas coisas, caminham, o filme é digno de ser assistido muitas e muitas vezes.

Indicado a oito Oscars – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Edição e Roteiro Adaptado – O Lado Bom da Vida só levou uma estatueta pra casa: a de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence, que está perfeita no papel. Ela realmente convence no papel da jovem viúva problemática e temperamental. A emoção foi tanta que ela até caiu, hahahaha! Merecido.

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Obrigada, senhor, por este Oscar. Amém!

Com esta indicação de Melhor Ator, Bradley Cooper deixou pra trás o estereótipo de “ator das comédias românticas” e se mostrou excelente nesse papel, que é tão sério em sua carreira. Não foi dessa vez que ele levou, mas tenho certeza que ele vai interpretar mais papéis deste nível. E com o nível altíssimo das produções concorrentes este ano, era meio óbvio que ele não ia levar. Uma pena.

O filme não seguiu o livro a risca, o que é um pouco triste. Porém, não impediu que o filme fosse divertido e inteligente, apesar dos clichês hollywoodianos que tendem a aparecer no final de longas do estilo. Pode ser que uma nova vertente tenha sido criada com O Lado Bom da Vida: comédia romântica que não foca no amor e em risadas o tempo todo e sim nos problemas psicológicos dos protagonistas, onde eles podem se explorar melhor e, a partir daí, criar situações inusitadas e, o melhor, que cativem o público.

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Filme ótimo. Livro melhor ainda. E é justamente como o título original propõe: mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá.

Crítica instantânea | O Estrangeiro: Albert Camus

“Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio.”

(O Estrangeiro, Albert Camus)

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Ao terminar de ler este romance existencial francês, eu pensei: nem sempre frieza anda junto com maldade. Matou um homem? Matou. E daí? Camus tem por objetivo unicamente chocar as pessoas com atitudes repulsivas, mas, nem por isso, o personagem foi feito no molde da maldade.

Na verdade, os sentimentos do protagonista em questão são mais importantes do que o crime que ele cometeu. Só porque ele não chorou e nem demonstrou sentimento algum pela perda da mãe, ele pode ser tachado de assassino frio e calculista?

De acordo com ele, ninguém tem o direito de sofrer por outra pessoa. Ninguém tem o direito de chorar por alguém. A questão aqui é apenas “viver”. A falta de sentimento de Mersault é, no ponto de vista da maioria, sua carta de culpa.

Um excelente livro onde Camus expressa que somos nada mais do que animais irracionais e que a morte é algo natural. Deixando claro que o sentimento em diferentes situções não é obrigatório. E não é isso que vai denominar se uma pessoa é fria ou não.

Literatura | Crítica “Laranja Mecânica”

“A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus (ou Bog) no fim, afirmo a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta escada”

(Definição do termo “Laranja Mecânica”, página 24. Editora Aleph, 10ª reimpressão)

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Como começar a falar de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess? Quando um livro é especial e tão grandioso, chega ser difícil achar logo de cara as palavras introdutórias certas. É preciso segurança para falar de uma narrativa dessa linhagem (li-nha-gem, menino ignorante). Sim, porque pra falar de crítico (oh, que alcunha) para admirador não está me custando… Maldita tenuidade.

Junto com 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, este livro teve grande influência na literatura de ficção científica do século XX. E por ser ficção científica seria necessário algo a mais. Algo que fizesse que as pessoas acreditassem mais facilmente no enredo da história. Então, Burgess criou uma linguagem própria para os personagens, para as gangues: o nadsat. O nadsat é uma mistura do idioma russo com o inglês popular, que faz uso de uma gíria rimada e o falar dos ciganos. No começo, os termos causam estranhamento. Depois de alguns capítulos, o leitor se familiariza com a linguagem e a leitura, viciante e hipnótica, flui.

O título vem de uma expressão anglo-saxã: “as queer as a clockwork orange” (“tão bizarro quanto uma laranja mecânica”). Mas o que é exatamente uma Laranja Mecânica? É uma laranja de ferro? Não. Os caroços dela não passam de parafusos? Tampouco. O termo “clockwork” faz alusão a alguma coisa mecânica e manipulada, algo programável. Já “orange” tem semelhança com a palavra “orangutan” (um macaco alaranjado), logo, um animal. A intenção do título é se referir ao Alex, protagonista, narrador e amante da violência, sobre o fato dele deixar de ser um “animal” e tornar-se “mecanicamente” bondoso por uma técnica suspeita do governo (que vocês verão no decorrer do texto), a fim de exterminar o crime, tornando o jovem apto para viver em sociedade e programado apenas para fazer o bem.

Publicado em 1962, Laranja Mecânica não é apenas um livro transgressor e muito a frente do seu tempo, como também tem seu enredo muito próximo da realidade. Provavelmente seja esse o fator que o difere dos demais livros e que o coloque no pedestal que ele merece. Agora, por que ele é próximo da realidade? Quer algo mais real e tão presente na vida do ser humano do que a violência? Duvido muito que o termo violência se encaixe na descrição deste romance. Os atos narrados pelo protagonista ultrapassam o significado da palavra violência. Ultraviolência se encaixa melhor. Aquela que causa prazer, excitação, arrepio. E o mais interessante disso é que não é sangue barato, violência tapa buraco. Não basta ser violento. Tem que ser elegante. Burgess ambienta Laranja Mecânica numa Inglaterra futurista inexistente, onde a violência juvenil se tornou insuportável e a única forma de erradicá-la foi a intervenção do governo com técnicas de condicionamento de conduta, de comportamento. O drugui (amigo) Alex, protagonista e narrador, tem três prazeres dos quais não abre mão (ainda). São eles: a ultraviolência, o sexo e a música clássica.

Sarcástico, malvado e inescrupuloso, Alex DeLarge mora com seus pais e inventa desculpas para não ir pra escola. Já se meteu em encrencas e foi “resgatado” por P.R. Deltoid, seu conselheiro pós-correcional. É um boêmio. Está sempre em companhia de seus três druguis: George, Pete e Tosko (Dim, no idioma original). Autoritário, quer manter seu posto de líder do grupo, o que causa irritação nos demais. O point deles é Lactobar Korova, um lugar onde são servidos copos de moloko (leite) com velocet e sintemesc (ambos traduzidos como “droga alucinógena”) e etc. A vida dele se resume em perturbar a paz dos cidadãos trabalhadores, além das belas devotchkas (garotas). Durante um ataque, depois de um desentendimento, Alex é traído por seus druguis e não consegue fugir do local do crime. É sentenciado a 14 anos de cadeia. Então ele tem a oportunidade de participar de uma experiência desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Essa experiência é tão dolorosa quanto a ultraviolência praticada por ele: o tratamento Ludovico.

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O Tratamento Ludovico consiste numa sessão de cinema com filmes grotescos e nojentos (cenas de estupro, mutilações corporais, etc). E ele não podia fechar os olhos, sendo molhados com colírio. Não tinha como virar o olho pro outro lado e etc. No começo era até agradável para o nosso herói. Tanto que era engraçado como as cores da vida real só pareciam bem mais reais quando reproduzidas numa tela. Sabe aquele papo da imagem e sua representação? Quando algo é captado por uma câmera, quando entra na “mira” de uma câmera, tudo o que está ao redor não tem mais importância. É como se aquela imagem tivesse sido propositalmente moldada para estar ali. Tudo culpa da representação. Representar é uma palavra que soa, naturalmente, falsa. E isso não é um defeito, muito pelo contrário. Para o Alex, fazer aquelas coisas horrorshow (emocionantes) era uma coisa. Era prazeroso estar naquele ambiente, ver o sangue jorrar. Agora videá-las no lugar de espectador era outra. Não só se sentia culpado, mas era doloroso e enjoativo assistir, devido às vitaminas do tratamento. Para piorar as coisas, colocaram Ludwig van Beethoven como trilha sonora. Por favor, me matem. Qualquer coisa menos utilizar Ludwig van nestes vídeos repugnantes. Ele só fazia música. Ele não tem culpa de nada. Música clássica, no caso usá-la daquela maneira negativa, era o elemento de punição para que o efeito final fosse certeiro.

Essa tática drástica impele, naturalmente, a sua cobaia para o bem. Assim, ela jamais será capaz de fazer algo maldoso novamente contra qualquer ser vivo. A questão de “condicionamento de marginais” é bem mais complicada do que parece. Essa técnica faz com que a vítima não tenha mais poder de decisão. É como transformasse a pessoa numa máquina de fazer o bem, e só. Presa aos atos socialmente aceitáveis, ao ser maltratada, não consegue se defender. No caso de Alex, coisas que antes proporcionavam prazer: a música clássica, a literatura, o ato sexual, a arte de maneira geral, agora são consideradas como fontes primais de dor. Covardia (pra não dizer heresia) sentir dor de cabeça e vontade de se suicidar ao ouvir Ludwig van, Mozart ou Handel. No final das contas, o pobre, humilde e agora inocente narrador era um homem livre. Que tipo de liberdade é essa, condicionada? Os questionamentos que ficam no ar: o que será da vida do novo (e restaurado) Alex? Como ele será recebido pelos velhos conhecidos dele? Será que realmente valeu a pena ter saído 12 anos antes da prisão?

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Laranja Mecânica foi magnanimamente adaptado para o cinema em 1971 pelo diretor Stanley Kubrick. Malcolm McDowell deu vida (e muito bem dada, pfvr mito) a Alex DeLarge. Apesar do livro ter sido brilhantemente escrito, o último capítulo do livro é um tanto otimista e acabaria por destoar por demais do restante da narrativa. Para quem assistiu o filme, perceberá que o longa terminou justamente onde deveria terminar. O livro tem uma estrutura de 3 partes com 7 capítulos cada uma. Burgess escolheu a divisão em 21 capítulos porque na cultura anglo americana, a idade adulta é atingida aos 21 anos. Para o protagonista Alex, a idade adulta chega 2 anos antes: aos 19. E essa mat… é melhor eu me calar. Spoiler alert!!!!

Apesar das diferenças entre o livro e o filme, Kubrick se manteve extremamente fiel ao livro. E acrescentou alguns detalhes não citados no livro. Ele conseguiu (e com êxito) manter a essência da narrativa e os poucos detalhes que ele acrescentou deram “o tom”, diga-se de passagem. No livro não é citado que Alex tem uma cobra de estimação (Basil). Kubrick apresentou a Basil no filme unicamente por causa do medo de cobras do Malcolm. No livro, P.R. Deltoid aparece apenas para demonstrar seu papel autoritário devido a sua profissão de conselheiro pós-correcional. No filme, ele é levemente sádico e parece ter interesse sexual no jovem Alex, o que fica claro durante a conversa que os dois tem no quarto dos pais de Alex quando ele apalpa os países baixos do garoto. Outro caso do livro: o escritor F. Alexander (não vou detalhar pra não estragar a surpresa, só vou contar o “causo” por cima) estava trabalhando num texto cujo título era “Laranja Mecânica”. No filme, o título do manuscrito não é visualizado, não aludindo ao título do filme.

That’s it. Laranja Mecânica. Leiam um dos maiores romances com uma pitada (NOT, com muito humor negro) do século XX e assistam ao filme. Comparem as demais diferenças. É fantástico. É satírico. É brilhante. O filme complementa bem o livro. Tão transgressor, tão a frente do seu tempo. Por mais violentos que os filmes atuais sejam, eles não são classudos e elegantes como este. A genialidade em torno dele excita. Assim como a trilha sonora: Beethoven, Purcell, Rossini, etc. Um marco. Obrigatório. Quem não ler, vai levar um toltchok e, de brinde, um chute nos yarbles. Sem mais.

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Em alguma casa à beira da praia…

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Um garoto simples conhece uma garota e logo se apaixona por ela. O motivo do amor à primeira vista? Não tem, senão não teria amor à primeira vista. Eles ficam de bobeira no quarto, apenas conversando. Com suas roupas de praia. Ele não pára de passar as mãos no cabelo dela. Alisa, alisa, alisa e ficam naquela posição por mais ou menos uns 20 minutos. O momento é quebrado pelo telefone que toca bruscamente. O homem está tão absorvido pela beleza da mulher (detalhe que no começo do texto eles são apenas “garoto/garota”, indicando que o amor “amadurece” a pessoa da noite pro dia) que nem presta atenção no que ela fala ao telefone.

Quando ela termina a ligação, ele ouve passos na calçada. É família dela. Oh não. O pânico. Como eles são distintos e finos. Será que não me acharão bom o suficiente para ela? (a insegurança clichê e o uso abusivo do discurso indireto livre: característica visível do autor) Mas ele precisava encarar aquilo. Sem a companhia da namorada, ele desce as longas escadas e caminha em direção à sala. Chegando lá, dá de cara com os pais e o irmão da garota. O irmão da garota, surfista e boa pinta, todo receptivo, já foi logo falando:

– E aí, bro. Seja bem vindo à família.

O garoto, sem entender paçocas da gentileza, nem conseguiu responder, pois o surfista correu pra praia, sem mal entrar na casa. Ele não entendia porque o “cunhado” o tratou tão bem como se já conhecesse há eras. Ambiente: só os pais da menina e o menino na sala. Se sentiu como numa entrevista de emprego, mas ao mesmo tempo seguro de si. Responderia o que fosse perguntado e é isso aí. Continuando, ele se apresentou aos culpados de sua felicidade. O senhor da casa pergunta ironicamente:

– Ei, e ai? O que aconteceu aqui, afinal?

Assustado e nervoso, porém tentando mostrar um resquício de segurança, disse:

– Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. (repetição devido ao nervosismo). O que pode ter acontecido, oras?

– Te assustei, huh? Brincadeira, meu rapaz. Que bom vê-lo aqui.

Primeiro o irmão da namorada, agora o pai dela também agia como se o conhecesse há anos e ainda o cumprimentou educadamente. Diferente dos outros namorados da filha que nem sempre eram dignos de tamanha gentileza. Enquanto a menina não descia, o pai aproveitou pra conversar mais com o garoto:

– Quais são suas intenções com a minha filha? Vê lá, hein… ela é muito especial e não quero que ela sofra.

– Olha, se depender de mim, ela será a mulher mais feliz do mundo. – respondeu ele.

– O que você faz da vida? – perguntou o pai.

– Eu acabo de me formar em Relações Públicas e trabalho pr’uma agência de publicidade.

– Interessante, interessante.

Durante a conversa, a filha querida e adorada desceu do quarto, toda maquiada. Pelo visto, pronta pra se casar com a noite e explorar tudo o que tinha direito. O pai, conhecendo o histórico do juízo da filha e acostumado com o fato da filha se divertir e não querer nada com nada da vida, disse ao garoto:

– Olha, pra início de conversa eu olhei pra você e não botei fé. Mas depois de ver você e suas conquistas, eu cheguei a uma conclusão: minha filha não é o suficientemente boa pra você!

– PAI!!! – gritou, indignada, a menina.

Ele finalizou:

– Esta garota tem o olho junto e vai te levar à ruína. Você não quer acabar que nem aqueles dois ali, certo? – ele apontou para o jardim, onde estavam duas covas, uma do lado da outra – Fuja, meu caro. É uma cilada!

Moral da história: Se fosse um zé das couves qualquer, cabeça de vento como a filha, o pai da garota certamente não teria alertado aquele garoto do futuro promissor. Agora sim ele podia deitar a cabeça sobre o travesseiro tranquilamente. Por ter salvado mais uma vida da desgraça e da ruína.

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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