Crítica | Viver é Fácil Com os Olhos Fechados

Na fila do cinema, lia-se num cartaz: “Viver é Fácil com os Olhos Fechados”. Hm, esse título não soa estranho. “Living is easy with eyes closed”… Strawberry Fields Forever. Será que tem algo a ver com os Beatles? Na mosca.

maxresdefault

Dirigido e roteirizado por David Trueba (Soldados de Salamina, 2002), o road movie gira em torno de Antonio San Roman (Javier Cámara), professor de inglês em uma rígida escola em Albaceta, cidade do interior da Espanha, que usa músicas dos Beatles para ensinar a língua aos alunos.

Baseado em um fato real, o filme conta a história de um professor espanhol fanático pelo Fab Four, que aproveitou que John Lennon estava em Almería, cidade do sul da Espanha, filmando “How I Won the War”, de Richard Lester (também diretor de Help!), e embarca numa viagem com dois jovens, a fim de conhecer de perto o beatle.

Belén (Natalia de Molina), jovem grávida fugida de uma casa onde futuramente daria seu filho a adoção, e Juanjo (Francesc Colomer), também fugido de casa pra escapar do pai autoritário. Os três se conhecem melhor, além de conhecer melhor a Espanha durante a ditadura de Francisco Franco (1936-1975).

viveréfacilcomosolhosfechados

“Sempre precisamos gritar Help!”, diz o professor Javier. Com um roteiro incrível, o diálogo tem uma fluência especial e as interpretações de Cámara, Molina e Colomer são impecáveis e de uma sensibilidade única. A fotografia do filme é viva e a química entre o experiente Javier e os jovens atores é inegável.

Daniel Vilar fez um trabalho esplêndido na direção de fotografia, onde o espectador perde o olhar nas paisagens de Almería. Outro ponto alto é a caracterização da época: os anos 60 estão muito bem representados no longa: o rádio, o cinema e a TV caminham de mãos dadas.

Sensível e ímpar, como o cinema europeu faz questão de se mostrar sem dificuldade alguma, Viver é Fácil com os Olhos Fechados levou sete prêmios Goya (o Oscar espanhol) em 2013, incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.

Crítica Literária | O Bebê de Rosemary

10743341_974410015918002_340593429_nAdaptação de livros pro cinema é coisa séria. Claro que é recomendável ler o livro antes de ver o filme, mas sabemos que nem sempre é possível.

Existe aquele tipo de adaptação com mudanças e inserção de detalhes não disponíveis nas páginas: que podem ou não funcionar. O importante é não perder a essência.

E também aquela adaptação rara, que nem devemos chamar exatamente de adaptação: é como ler o próprio roteiro do filme, de tão fiel que o roteiro é às páginas. A ordem dos acontecimentos, inclusive ler os diálogos com a voz dos atores. Esse é o caso do livro de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, fielmente adaptado por Roman Polanski (o segundo filme da Trilogia do Apartamento) em 1969.

10744955_974408585918145_1506769874_n

Antes  do começo, só um leve adendo sobre o final. Calma, nada de entregar o ouro assim tão fácil. O final do livro é mais detalhado que no filme, como é de se supor. O longa deixa a entender que será exatamente como no livro mas, pro cinema, essa tática de “deixar no ar”, funciona muito melhor. Aí reside a competência de uma boa adaptação. A fidelidade às páginas do livro dá um prazer a mais, ainda mais quando você assiste ao filme primeiro. É um post que é impossível separar o “livro” e o “filme”.

Agora sim, sobre a obra de Ira Levin. Publicado em 1967, o Bebê de Rosemary nos apresenta os recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse, que alugam um apartamento em um antigo prédio em Nova York, o Bramford, um edifício sombrio no estilo vitoriano com um extenso histórico de crimes e acontecimentos sobrenaturais, inclusive um número elevado de suicídios. Hutch, um senhor de idade amigo de Rosemary, tenta alertá-los sobre a reputação do edifício, mas a excitação de Rosemary não permite que ela enxergue com clareza e sim apenas como pessimismo por parte do amigo.

rosemary2

Guy é ator de teatro e faz alguns comerciais, que é onde o dinheiro está, de fato. Por ele ser protestante, Rosemary foi renegada por sua família (católica) ao se casar com Guy. A ironia disso tudo: Rosemary renegada pela família porque se casou com um protestante. E logo com ela foi acontecer isso. Familiares no churrasco dizendo: eu avisei, oh ok.

Na lavanderia, Rosemary conhece Terry Gionoffrio, uma mulher que vivia na sarjeta e foi acolhida pelos Castevets, Minnie e Roman, seus vizinhos. Ela fala de um amuleto da sorte, uma pequena bola de prata com raiz de tannis. O cheiro é acre e forte, “precisa de tempo pra se acostumar”, diz Terry. Muito agradecida aos Castevets, estava determinada a dar um rumo à sua vida. Mas digamos que a bússola quebrou no meio do caminho. Terry se jogou do sétimo andar, deixando todos perplexos, inclusive Rosemary. Por que ela se jogou? “Que amuleto furado é esse?”, pensou Ro.

Rosemarys-Baby

Com isso, o casal Woodhouse conhece mais a fundo Minnie e Roman, que ajuda o casal a organizar a nova vida. O amuleto de Terry passa a ser de Rosemary. Guy se torna muito próximo do simpático casal, mas aí coisas estranhas passam a acontecer depois dessa guinada na amizade entre eles. Enquanto isso, Rosemary queria engravidar, mas Guy não se mostrava ansioso, frustrando-a.

Cabisbaixo por ter perdido um papel importante de uma peça para Donald Baumgart, subitamente ele recebe uma ligação informando que este ator tinha ficado cego misteriosamente. Bah, mas que chato conseguir o papel desta forma, não é mesmo? O que estava indo mal, de repente entra nos eixos: sucesso profissional, propostas de emprego, incluindo um seriado com a Warner Bros, hmmm, nada mal. Rosemary nota uma mudança no comportamento de Guy: preocupação com a carreira, o egocentrismo tomando conta.

RosemarysBaby_078Pyxurz

RosemarysBaby_129Pyxurz

Depois de uma pequena crise, o casal Woodhouse se acerta e finalmente resolve engravidar. Eis que Guy se mostra a vontade com a idéia de ser pai, o que reanima Rosemary. Depois de uma suspeita sobremesa, Rosemary tem um pesadelo com um ritual de magia negra envolvendo os Castevets e Laura-Louise (a vizinha), todos nus, onde ela é a oferenda. Cópula com a besta. Ou uma representação dela. Tudo ao som dos excêntricos cânticos que ela costuma ouvir toda noite de Minnie e Roman. As incertezas ganham força. Em quem confiar? A famosa linha tênue entre a realidade e a fantasia e a circunstância de como engravidou. Guy supostamente abusou dela enquanto dormia, porque “não quis esperar” pra ser pai. De novo: desde quando brotou esse interesse dele em ser pai? Outra questão a ser analisada. Quando tem certeza de que está grávida, Rosemary fica radiante. E os Castevets passam a ter um cuidado especial com ela. Sucos e bolos especiais, além de um novo obstetra, Dr Sapirstein, amigo dos Castevets.

BebedeRosemary3

Rosemary-2

O obstetra diz a ela para não se comunicar com amigas e nem falar sobre gravidez com elas ou ler livros sobre o assunto, alegando que cada gravidez é diferente uma da outra. Rosemary tem desejos estranhos como carne crua e perde peso durante a gravidez (e o corte icônico de Vidal Sassoon só acentuou ainda mais isso), aumentando a preocupação de Hutch e das amigas. Gravidez onde a mulher perde ao invés de ganhar peso? Sem contar nas dores constantes e o medo de perder o bebê. Além de tudo isso, a paranóia.

Sim, a paranóia. Rosemary passa a desconfiar dessa amizade tão forte de Guy com os Castevets. Percebe que ele não olha mais pra ela como antigamente, como se tivesse uma repulsa por ela. Esconde algo no ombro, uma marca, com um band-aid cor da pele. A cegueira do ator que concorria a vaga com Guy. A morte de Hutch. Segredos sobre o passado do pai de Roman vão aparecendo também. Adrian Marcato, um bruxo, foi morto na porta do Bramford. Acontecimentos bizarros deixam Ro encasquetada. Desconfia que o marido tenha se envolvido em algum tipo de magia negra. Pacto com o diabo para obter sucesso? Uma criança. É esse o preço? E wow, informações demais. Rosemary precisa ser rápida pra sair desse complô maligno. A vida de seu bebê, Andy ou Jenny, depende disso. Seja ele de Guy ou de alguma outra entidade superior. O pesadelo de olhos abertos de Rosemary faz com que ela desconfie de todos a sua volta, menos de seu bebê. Todos nós esperamos que Rosemary se vingue dos vizinhos intrometidos, inclusive do marido. Mas será que seu instinto maternal permitirá isso?

ros023ah-kobal-paramount-mia-farrow-rosemary-948ed81fc0809c9f37b2a16c29864b3bbf63b7ffz3

Rosemary91f0TPMg6wL__SL1500_

Uma singela análise: Rosemary é submissa e confia muito em Guy.  Foi assim que Polanski trabalhou na posição da mulher como refém da sociedade machista. Uma mulher obediente ao marido esforçado e aspirante a fama. Uma família que exala perfeição pelos poros, o que não deixa de ser uma crítica à sociedade norte americana, a vida de aparências e o conservadorismo clichê. Quando um casal homossexual é citado no livro (são vizinhos de Rosemary e Guy) é possível perceber um tom na voz do narrador no seguinte parágrafo, quando se trata das pessoas do edifício:

“Nem sombra, contudo, das Irmãs Trench (comiam criancinhas, literalmente), nem de Adrian Marcato (o bruxo mor, um dos pioneiros da magia negra) e Keith Kennedy, Pearl Ames (seus seguidores), ou seus atuais equivalentes, Dubin e DeVore eram homossexuais, e todos os demais pareciam gente absolutamente comum”

É claramente perceptível que eles não são citados como gente comum e sim junto com as irmãs canibais e com o líder da magia negra. Atuais equivalentes. Gente diferenciada? A visão que os Castevets tem de religião também é digna de nota: indústria do entretenimento. Quando o Papa visita a cidade, eles dizem: “figurinos, rituais…é assim em qualquer religião, não só no catolicismo” e “o quanto que gastam em jóias, minha nossa”.

Assim como o filme O Exorcista, o Bebê de Rosemary tem um background macabro de acontecimentos no histórico de produção do filme. Um ano depois do lançamento do “Bebê”, Sharon Tate, mulher de Polanski, foi assassinada pela seita de Charles Manson, que por sua vez culpou o Álbum Branco dos Beatles sobre cometer as atrocidades. Vale ressaltar também o fato de John Lennon ter sido assassinado em frente ao Edifício Dakota em Nova York, local onde morava.

rose3

O Bebê de Rosemary não utiliza artifícios como sangue e gore. É um terror psicológico de alto nível justamente pela sua natureza realista (pode acontecer com qualquer um, até comigo, que suco de couve é esse, mãe?), pela reflexão da existência de sociedades secretas. Há muito tempo que bruxas não são mais representadas com nariz pontudo e sem atrativos. São todos trabalhados na elegância e na inteligência, além de estarem ligados a pessoas importantes como grandes pensadores ou filósofos.

O longa foi um dos precursores de filmes como O Exorcista e A Profecia. Mia Farrow está estupenda como Rosemary. John Cassavettes faz Guy e Ruth Gordon está divina como Minnie Castevet, papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Assista abaixo ao trailer do filme:

RB_Double-color_web

Pra finalizar, a trilha de Krzysztof Komeda captura cada momento do longa brilhantemente. Seja os momentos felizes em família como os de tensão, os cânticos dos representantes da seita e, claro, a paranóia sem limite de Rosemary. Por exemplo, esta composição do filme soa como uma agradável música ambiente de um dentista sádico prestes a te estribuchar:

Livro e filme magistrais. Não tem como falar “o livro é melhor”, porque a adaptação é tão fiel que não é possível colocar um acima do outro. De verdade. Não vai se arrepender. Desconfie daquele seu vizinho prestativo e bonzinho. Dica de amigo.​

RosemaryLP

Teatro | Crítica Instantânea | RITA LEE MORA AO LADO: toque a campainha…

…e espere ela atender. Ela vai te atender.

Rita-Lee-Mora-ao-Lado

Devido ao sucesso de público, a adaptação teatral do livro “Rita Lee Mora ao Lado – Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock”, do escritor e músico Henrique Bartsch, a peça Rita Lee Mora ao Lado foi prorrogada até 23 de novembro. Pouco mais de um mês. Corre que dá tempo.

Dizer que a Mel Lisboa interpreta Rita Lee no palco do Teatro das Artes no Shopping Eldorado soa modesto. E como a personagem interpretada por ela, a ninfeta Anita da minissérie global, já dizia que “a modéstia é para os medíocres”, é mais cabível dizer aqui que ela DÁ VIDA a Rainha do Rock brasileiro de uma forma esplendorosa.

Mel disse em várias entrevistas que não é cantora. É uma atriz que canta. Ela sempre foi muito insegura com sua voz e ainda faz aulas de canto e fono. O treino constante claramente está fazendo muito bem. Não só mostra que é afinada como pegou cada trejeito vocal – cada respiração específica – da Rita. Voz é algo muito pessoal, é a identidade de cada pessoa, mas é possível, em uma faixa ou outra, dizer: “opa, a Rita Lee passou por aqui”.

Engraçado, porque Mel quase chegou a desistir do papel. Afinal, é uma responsabilidade imensa dar vida a um dos maiores ícones da música nacional. Ler, ouvir, estudar Rita oito dias por semana, 28 horas por dia: foi assim intensa a preparação de Mel para o papel. E o resultado ficou realmente digno. No final de agosto, a peça saiu de cartaz, desiludindo muitos fãs que perderam. Mas o sucesso foi tão estrondoso que a peça voltou aos palcos até 23 de novembro no Teatro das Artes no Shopping Eldorado em São Paulo.

ritalee2

Sobre a produção. A idéia surgiu há 4 anos, quando o diretor Marcio Macena leu o livro de Bartsch. Na peça, a trajetória de Rita é contada desde a infância até os dias de hoje por Barbara Farniente, interpretada por Carol Portes (pra quem não conhece, interpreta a Carol, amiga da Natália Klein na sitcom Adorável Psicose, transmitida pelo Multishow). Barbara foi vizinha de Rita e acompanhou de perto a vida da família da cantora. Detalhe: a mãe de Barbara era apaixonada pelo pai de Rita. Essa perspectiva sob a ótica da Barbara foi idéia da própria Rita. A peça não tem compromisso histórico ou cronológico, dando assim mais liberdade em relação aos fatos e a escolha das músicas. Por exemplo, aos 13 anos de idade, ao fazer xixi no sapato de um dos colegas na escola, Rita se faz de perplexa enquanto os amigos cantam “Erva Venenosa”. E as expressões faciais de Mel? Outro primor a parte. As caretas debochadas são o charme a parte.

dsc_0197-jpg

O repertório conta com 40 canções performadas ao vivo, incluindo Agora Só Falta Você (que abre o espetáculo lindamente), Lança Perfume, Baila Comigo, Mania de Você, Ovelha Negra, Esse Tal de Roque Enrow (essas duas últimas do disco Fruto Proibido, meu preferido dela) e também hits dos Mutantes como Hey Boy, Top Top e Panis et Circenses. Astros e estrelas da nossa música como Elis Regina, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, João Gilberto, Gal Costa, Tim Maia e Ney Matogrosso (interpretado pelo Fabiano Augusto, cuja presença de palco e performance vocal são óbvias) também fazem parte do espetáculo em diferentes épocas da vida de Rita, interpretados por atores extremamente competentes, em especial a atriz que faz a Hebe Camargo (Débora Reis) – que imitação bárbara. De chorar de rir.

Quando Barstch propôs a biografia à Rita, ela se negou dizendo que era somente pra “gente morta”. Daí ele a convenceu da proposta diferente das biografias convencionais e então ela deu sinal pra ele continuar. Lançada em 2006, a biografia foi um marco para os padrões biográficos. Infelizmente, Henrique faleceu em dezembro de 2011 em decorrência de uma parada cardíaca. Mas onde quer que ele esteja, ele com certeza está orgulhoso da recepção do público da adaptação do seu livro para os palcos.

Sem mais delongas, RITA LEE MORA AO LADO é uma peça válida tanto pra quem é fã veterano quanto pra quem quer conhecer mais o vasto repertório de Rita. Seja nos Mutantes, com Tutti Frutti, com Roberto de Carvalho ou sozinha, as canções icônicas marcaram gerações e vão fazer você cantar junto. Confira o trailer da peça no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=m9R5QfhkWjc

RITA LEE MORA AO LADO

Teatro das Artes – Shopping Eldorado

Av Rebouças, 3970 – Terceiro Piso.

Valores: De R$ 60 a R$ 100

Fotos do espetáculos tiradas por mim (ó, grande coisa)

IMG_20141011_212033268_HDR

IMG_20141011_215800209

IMG_20141011_221242385

IMG_20141011_223427717_HDR

IMG_20141011_213748870

IMG_20141011_213959592

IMG_20141011_231011509

E ah, surpresa mesmo foi ter conseguido parabenizar a Mel pessoalmente pela peça. Atenciosa, educada e simpática. Além de talentosa e linda, vamos combinar:

Mel

E com Fabiano Augusto (Ney Matogrosso): performance vocal e presença de palco IMPECÁVEIS.

Fabiano

Cinema | Crítica Instantânea : Her

Her, dirigido e roteirizado por Spike Jonze, é uma ótima pedida e grande merecedor das indicações ao Oscar 2014: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original (“The Moon Song”, de Karen O) e Melhor Design de Produção.

OR_Her_2013_movie_Wallpaper_52397369

Mas independente das premiações – que nem sempre são justas – nossa, que filme digno. Não só pela fotografia, que é linda (o jogo de cores no escritório do protagonista), as paisagens, os passeios e tudo o mais, mas pela beleza da Scarlett Johanson ser tão presente, mesmo não estando em corpo e carne no filme (oh ok).

Her trata-se de um filme cujo assunto é uma variante do universo digital e suas reflexões e como a tecnologia influi fortemente no ser humano. No caso de Theodore, personagem de Joaquin Phoenix, escritor, recém separado da mulher, instala um novo sistema operacional que possui inteligência artificial que entende sua personalidade e necessidades a cada resposta, assim traçando seu perfil. Nada de teclado, mouse. Voz e movimentos corporais.

O computador e o celular, sempre ligados ao fone de ouvido, interagem com ele sob uma voz sussurante e rouca de Samantha, voz de Scarlett Johanson. Claro que não demora muito até ele se apaixonar perdidamente por ela. Bem, e ela por ele. Ela o entende como ninguém. Seu passado, seu presente. Ela realmente consegue sentir o que ele sente. O pensamento de Samantha em relação ao mundo dos humanos muda completamente e ela fica fascinada e, como ela mesmo diz, ela evolui com toda e qualquer situação que ela venha a passar.

Mas…ela é um sistema operacional. Desde quando ela tem sentimentos? Engraçado que, no decorrer do filme, de tanto conviver com o Theodore, ela acaba adquirindo manias dele, como de suspirar, por exemplo. Mas desde quando ela precisa de oxigênio? Outra questão: ela é exclusivamente dele? A interação entre eles vão ficando cada vez mais forte e quando ele descobre que não é “exclusivo”, a coisa muda de figura. Como ela irá dizer isso tranquilamente ao amado humano? Vai ficando cada vez mais difícil suportar um relacionamento sem se tocarem, sem o mundo físico. Não, uma alternativa curiosa sugerida pelo inteligente Sistema Operacional não deu lá muito certo.

HER

Até onde chega a capacidade de “duas pessoas” (no caso, uma só apaixonada pelo computador) que se amam perceberem se seu relacionamento é real ou, no caso, apenas uma programação. Algo completamente utópico um sistema operacional inteligente captar com precisão as preferências de uma pessoa e, automaticamente, aceitar seus defeitos sem pestanejar. O até então feliz escritor colocou fé nesse romance justamente por ser fácil demais, por se encaixar perfeitamente nos gostos dele? É raro o sistema operacional discordar dele em algo, vamos combinar. O filme também critica (de forma poética, claro) o mundo virtual, que cada vez mais separa o ser humano um do outro, assim privando-o de sentimentos reais.

Scarlett exala beleza com sua voz rouca sexy e misteriosa e a atuação de Joaquin Phoenix está digna do Oscar, porém, não foi indicado nessa categoria, por ironia do destino. O que é, de fato, um relacionamento? A tendência é justamente extinguir a interação humana, o corpo a corpo? É possível programar o nosso par perfeito? Sem mais delongas, vão ver HER. Já. Obrigado, de nada.

Lady GaGa | ARTPOP | Confira crítica do mais novo álbum de Stefani Joanne Germanotta + Breve Retrospectiva sobre Born This Way

Por que o nome verdadeiro dela no título? Simples. Porque em ARTPOP, ela está mais “despida”. “Postei-me em frente ao espelho, tirei a peruca e a maquiagem e o look (…) e disse: ‘Ok, agora você precisa mostrar a eles que você pode ser brilhante sem tudo isso”. É o que notamos nessa fase ARTPOP: ela parece mais Stefani do que Lady Gaga.

39974f43-0a9a-45c6-93c4-5392b271be3f_ladygaga

17

Depois da obsessão pela fama e a teatralidade de THE FAME, do tributo exagero (mas único) aos anos 80 e a sonoridade rock n’ roll apoteótica de Born This Way, Lady Gaga chega conceitual e ainda mais teatral com seu quarto disco de estúdio, ARTPOP, onde ela celebra sua fama variando de um estilo a outro, mostrando seu amadurecimento musical e vocais ainda mais imponentes.

Gaga sugeriu aos fãs que ouvissem ARTPOP pela primeira vez com fones de ouvido. Suponho que pra ouvir cada nuance, a força individual de cada canção. A própria sugeriu que o disco teria uma certa falta de responsabilidade e soaria mais The Fame do que Born This Way. Lembrando que em Born This Way, Gaga ousou muito na sonoridade. Ele foi projetado pra soar como o ARTPOP, mas de última hora ela e Fernando Garibay decidiram dar ao álbum um ar rock n’ roll oitentista. DJ White Shadow (Paul Blair), outro produtor de Gaga, disse que ela começou a planejar ARTPOP uma semana após o lançamento do Born This Way (LADY WORKAHOLIC). Ela mandou um SMS pra ele dizendo: “Próximo álbum se chamará ARTPOP, bjs – PS.: Pega minha roupa na lavanderia, migs”.

Google-Chrome-Lady-Gaga-– BBH- -Jen-Dean-at-the-Whitehouse-Post-in-New-York1

Essa mistura de estilos, vulgo samba do crioulo Gaga, assustou os fãs e boa parte da fanbase de Gaga foi perdida pra outras cantoras mais “comerciais”. Eis que Gaga resolveu voltar a ser comercial (pff, como se ela tivesse deixado de ser algum dia) com ARTPOP. O frisson sobre ARTPOP não é exagerado. Ela nos deu um álbum liricamente rico e com uma sonoridade variada, até. Apesar de algumas faixas soarem como uma extensão das outras. Assim como em Born This Way, a estrutura das músicas são bem similares, ela só “acessoriza” cada canção, dando um ar diferente a cada uma delas. Inclusive, as letras do álbum se completam: elementos e trechos se repetem umas nas outras (glory that I bear – hair – em edge of glory, think it’s right when it’s so wrong – yoü and i – em edge of glory).

Pra exemplificar um pouco, só um exemplo, Marry The Night soa como Bruce Springsteen + Whitney Houston, com aqueles sinos de igreja, como um culto, um prelúdio perfeito para um grande álbum. Uma faixa épica. No caso de Hair e Edge of Glory: não basta soar como Springsteen: tem que chamar Clarence Clemons pra tocar sax. Yoü And I tem sample de We Will Rock You e quem toca guitarra nele é ninguém menos que Brian May. E vocês estão fartos de me ouvir citar este fato.

Bem, voltemos a falar do novo. A espera pelo ARTPOP foi um tanto doentia. Eu lia críticas de diversos sites e tentava imaginar como o álbum seria, inclusive se ele seria uma mistura de The Fame com Born This Way, se realmente devíamos confiar nisso. E ainda bem que esse pressentimento se concretizou. Nada como trazer algo novo, imaginativo, com resquícios do passado. Alfred Hitchcock já dizia: “estilo é auto-plágio”. Ele não enxergava isso exatamente de uma maneira positiva, mas… não há mal algum nisso. Nada como martelar suas características mais marcantes no inconsciente humano e ser lembrado por elas. Andy Warhol aprova isso.

artpop

Comentários borbulhavam e eu tinha de compartilhar com todo mundo. Daí nascem minhas críticas, acho. Nascem dos comentários, das minhas conversas com amigos e amantes de música. Pois com eles eu posso ser enfático chato e acabo falando com a veemência desejada. Fato importante sobre ARTPOP: antes do lançamento do álbum, Gaga usava MUITO roupas brancas. Como se ela fosse a tela esperando pela tinta. Depois do lançamento do álbum, ela só vem usando roupa colorida. Depois da escuridão da era Born This Way, ela voltou à luz. Os pássaros cantam, as nuvens se dissiparam. É oficial: a era ARTPOP está apenas começando.

Gaga apresentou 8 faixas de ARTPOP no iTunes Festival em 1º de setembro. Aura, MANiCURE, ARTPOP, Jewels n’ Drugs, Sex Dreams, Swine, I Wanna Be With You (hoje, DOPE) e Applause. De acordo com ela, com arranjos diferentes das versões finais do álbum. Acontece que não são tão diferentes assim. O que mais mudou foram alguns versos inseridos em algumas estrofes, mas nada gritante no quesito instrumental.

Lady-Gaga-–-V-Magazine-Topless_02-Certified-BOOTLEG-86446

Realmente, ARTPOP uma hora soa The Fame, outra soa Born This Way. Apesar de preferir o Born This Way pela sonoridade rock oitentista, o ARTPOP cumpre bem sua proposta e não deixa nem um pouco a desejar. Pra falar a verdade, a primeira parte do disco é bem sexual. As quatro primeiras músicas. Aura, cuja demo intitulada Burqa (vazada em agosto, alguns dias antes do lançamento de Applause), é realmente teatral e tem um ritmo viciante. Tão viciante que seus passos se tornam freneticamente sincronizados com o ritmo. Boa introdução, convidando você a olhar Gaga através da burca, através de suas camadas. A olhá-la mais profundamente. Não mudou muita coisa da versão demo. Amém.

Venus, a primeira faixa produzida inteiramente por Gaga, é grandiosa e espacial (não especial: espAcial mesmo). Com sample de “Rocket Number Nine Take Off for the Planet Venus” de Sun Ra, parece ter vários refrões misturados. É como várias músicas em uma. E os vocais da Gaga, claro, fortíssimos e, por vezes, rasgados. Tem o mesmo poder e potência de Bad Romance.

Com uma introdução extremamente teatral, G.U.Y (Girl Under You) se trata do poder feminino. Aquela mulher que sabe ficar “por baixo” e fica sim, porque sabe que o poder dela é o mesmo. Ela ficar por baixo não vai mudar o fato de ela ser uma mulher independente e dona dos próprios desejos. Uma faixa forte que te joga na parede, sem sombra de dúvida. Logo em seguida, temos uma Gaga confessional. Sexxx Dreams soa como uma continuação de G.U.Y. Trata-se de Gaga sozinha num dueto. Uma voz aguda e depois uma voz grave, confessando seus “pecados” e descrevendo seus sonhos pecaminosos e abrindo o jogo. É como se ela realmente estivesse sussurando em nossos ouvidos. Fenomenal.

22

Jewels n’ Drugs, ao meu ver, só entrou na tracklist final de ARTPOP pra provar a competência da Gaga pra cantar em diferentes estilos e deixar, pelo menos um pouco, sua marca em cada um deles. Fato que ela já comprovou em Yoü And I e com Lady is A Tramp, dueto com Tony Bennett. A introdução é bem orquestral, músicos tossindo, violino singelo e logo depois vem o instrumental insano. A idéia de feats não me agrada tanto (Twista, Too Short e TI), mas a proposta da música é boa. E os vocais da Gaga estão legais. Julguei (MUITO) mal a faixa pelo iTunes Festival, mas passei a gostar com o tempo. Aliás, é uma das que mais escuto. Se fosse de outra cantora, duvido que ouviria. Gaga macumbeira.

Aliás, um dos maiores frissons do ARTPOP é justamente esse: a variedade de estilos. Há quem diga “álbum de hits”, a começar pela demora da escolha definitiva da tracklist. Álbum de hits… Desespero? Não mesmo. Afinal, a função do artista é entreter com qualidade. Pena que nem todos seguem isso a risca. A própria disse que compõe para a música, não para os charts. Pena que essa declaração foi feita pouco antes de Do What U Want, dueto com R Kelly, até então single promocional, ficar em primeiro lugar em mais de 70 países no iTunes e virar single oficial do ARTPOP.

lady-gagas-spectacular-itunes-festival-2013-show-06

A viciante faixa glam-rock oitentista MANiCURE, cujo defeito é: ser curta demais. A introdução do iTunes é maior, sabemos, mas não dá pra reclamar com a produção de estúdio. Guitarras densas mescladas aos sintetizadores, o baixo é profundo. A nitidez do instrumental é de ficar boquiaberto. Com fone de ouvido é muito melhor. Definitivamente. Gaga sai da era Born This Way mas a era Born This Way não sai da Gaga. Pra glorificar de pé, igreja! A sequência é ainda melhor: Do What U Want é um recado para aqueles que odeiam Gaga: “ah, ela está acabada” ou “é uma drogada” ou “é uma flopada”. A psicologia reversa usada por ela nos vídeos promocionais de ARTPOP meses antes do lançamento do álbum realmente se encaixou como uma luva e tem um elo forte com a proposta da canção. R Kelly, por sua vez, também foi acusado de pedofilia uma época em sua carreira e sua participação na música não foi nada menos que oportuna. Os vocais rasgados da Gaga lembram muito os vocais da Christina Aguilera ou da Tina Turner. É de um poder vocal que olha… Não dá pra não se arrepiar. Incrível o fato de que a cada disco, Gaga tem uma melhora vocal absurda. Não é papo de fã. Até quem não é fã nota o vozeirão de diva. É uma das coisas que a difere das demais “cantoras” (bota aspas nisso) pop.

15

ARTPOP. Vejamos… O que falar da faixa título? Não dá pra isolar a faixa título do álbum. Vou tentar explicar o conceito do álbum, o que é algo impossível. É subjetivo. Há quem enxergue arte nisso tudo. Há quem não. Gaga realmente teve por intuito mesclar a arte e o pop, mostrar o poder que a performance tem, além de conectar a música com a arte, moda e tecnologia. Ela não quer simplesmente jogar a música e pronto. Ela quer fazer os fãs refletirem sobre aquilo que os alegra, que os fazem felizes. Ao contrário do Born This Way, que tem um ar oitentista, o ARTPOP é bem tecnológico. Como foi dito lá pra meados de agosto, ARTPOP seria uma expedição Warholiana ao reverso. Algo como: “não quero só 15 minutos de fama, quero martelar minha ideologia na cabeça de todos até o fim”.

Swine é a faixa mais eletrônica (com uma agressividade Metal) do disco e também a mais raivosa. É uma versão mais hardcore de Do What U Want, onde ela grita a todos pulmões o quão nojentas são as pessoas que a difamaram no decorrer da carreira. Há quem diga que ela dedicou a música ao blogueiro Perez Hilton, que era amigo dela no começo da carreira, mas que passou a persegui-la e agir com falsidade. Mesmo ela negando que tenha dedicado a ele, certeza que ele foi UMA das inspirações pra essa música. Donatella é o momento divertido do álbum! A faixa abre com o som realista de um champagne sendo estourado e enchendo uma taça. “Sou fabulosa, loira, magra e um pouco vadia”, versos que falam sobre uma vida cheia de glamour. Uma homenagem a estilista Donatella Versace, que já desenhou looks para Gaga na Born This Way Ball, aliás. Um hino verdadeiramente pop. Vocais impecáveis e uma puta produção do Zedd, produtor já da “casa”.

228747/3782112_84937PCN_Gaga

Fashion! é uma faixa disco MARAVILHOSA. Parece produzida por Nile Rodgers da banda CHIC (ohhhhhh freak out!), mas não: é produzida, pasme, pelo Will.i.Am e pelo David Guetta. Bem, não só por eles e também pelo DJ White Shadow (produtor já da “casa”). Mas o medo deste que vos fala ao saber que Will.Eu.Sou e o David do Guetto estariam envolvidos foi certeiro. Ainda bem que o resultado foi satisfatório. Não soa como as farofas que eles costumam produzir: soa como Holiday da Madonna, a linha de baixo é fantástica e o riff de guitarra é bem Chic. Gaga, não só nessa faixa como em várias, apresenta um vocal grave espetacular, imponente, forte. “Step into the room like it’s a catwalk”. Sério, desses versos emanam uma segurança fora de sério. Lindo. Espetáculo de faixa.

“When I ignite the flames and put you in my mouth, the grass heats up my insides and my brunette starts to sprout”. Sim, tem uma música no ARTPOP dedicada a maconha. Esses versos lá pro final da música são bem teatrais e tem a força vocal de uma jovem Liza Minnelli. Produzida pelo jovem francês Madeon, Mary Jane Holland é o pseudônimo dela encarnando a marijuana. A faixa abre e fecha com o som de um fósforo sendo acendido e da erva sendo queimada. Só com esse barulho já é possível se perder nas órbitas. Gaga canta essa música realmente como se estivesse dopada, mas ao mesmo tempo, os vocais estão bem trabalhados e os backings são charmosos. Bloody Mary meets Heavy Metal Lover. É a faixa mais Born-This-Wayzada do disco. Junto com Gypsy, claro. Gypsy é a irmã distante de The Edge of Glory. A letra fala do amor pela vida cigana, sobre se jogar na estrada. Lembra muito a vibe da música Cruz da Christina Aguilera, do disco Stripped. Já imagino os “lerous” gritando TONIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIGHT nos shows! É uma faixa extremamente emocional, prevejo gritos e choros. Tem que ser single.

Dope é, de longe, a faixa mais crua do disco. A mais crua, a mais poética. Os versos “I feel so low for living high” e “I need you more than dope” exemplificam bem isso. Depois de perder seu único amigo, ela canta melancolicamente (e com seu vocal bem mais grave que de costume) a falta que seu amigo faz. É a Yoü And I do ARTPOP. Aplausos!

lady-gaga-applause-video-screensaver

Se pararmos pra pensar, Applause meio que explica o conceito do disco todo. Mas vamos falar do primeiro single do disco em si. Como a própria Gaga explicou no twitter, Applause aborda o que muitos pensam de celebridades e o que elas fazem pra chamar a atenção. Ela afirma que suas criações parecem inanimadas e sem sentido algum se não tem um público para se lembrar delas. Entretenimento torna as pessoas felizes e ela vive, sim, para o aplauso. Não, não é “querer se aparecer a preço de nada”, como as subcelebridades que se envolvem em confusões só pra garantir seu espaço num tablóide sensacionalista. O aplauso é o resultado de um trabalho  bem feito, consistente. Se aplaudiram é porque ficaram felizes e que aquilo tocou os fãs (ou não fãs) de alguma forma. “Sei que foi bom”, finaliza ela. Por isso que, atualmente, Gaga é a mais comprometida com sua arte, com o que prega.

Gaga se superou na forma de promover ARTPOP. Ela teve uma idéia muito boa pra promover o álbum. O artista contemporâneo Robert Wilson a convidou para fazer releituras de quadros famosos no Museu do Louvre em Paris, onde estão expostas obras como “Monalisa” de Da Vinci e “O Grito” de Edvard  Munch. Andando pelo museu, você vê obras como “Mademoiselle Rivière” de Jean Auguste Dominique Ingres (1805) e “Cabeça de São João Batista” de Andrea Solario (1507) e logo em seguida, numa sala ao lado, Gaga incorporando essas obras e muitas outras no museu. Um dos conceitos de ARTPOP que, de acordo com ela, “pode significar qualquer coisa”.

Imagem1

lady-gaga-louvre

Lady Gaga conseguiu sim mesclar a arte com o pop. Não no disco inteiro, mas conseguiu. Subjetividade: soube fazer refletir e, ao mesmo tempo, divertir. Diferente do álbum anterior, ela aplicou um conceito, só que de uma maneira mais divertida. A arte se representa na performance e não há razão para performar se não for para ser aplaudida e reverenciada de pé. É como o pierrot que ela encarna na capa do single de Applause: a tristeza dele se reflete na falta do aplauso. É o motivo de sua existência. Olha, explicar o conceito de ARTPOP não é tarefa fácil. Mas eu tentei. Agora cabe a você, fã ou não, tentar explicar o próprio conceito que tem do disco. Isso é tudo.

Resumindo: ARTPOP é a celebração da fama de Gaga. O orgulho de ela de ter arriscado (Born This Way se encaixa aqui de novo, desculpa, que posso fazer) e nunca ter deixado a qualidade de suas obras de lado. Por não ter se deixado mudar por imposições de gravadora. É uma mescla de estilos: synthpop, trap music, rock, techno, disco e R&B. É um trabalho coeso e conceitual (em partes).

001

Sgt Pepper da Lady Gaga, por que não? Refrões fortes, cativantes. Uma música tem tantas texturas, tantas nuances, que parecem ter várias músicas em uma só (isso não só acontece em Venus e G.U.Y, como também em diversos outros momentos do álbum). Uma verdadeira peça do pop contemporâneo. Pode fechar o ano A-G-O-R-A. Pode trazer a conta, garçom.

Nem vai dar tempo pro ARTPOP esfriar, porque dia primeiro de janeiro de 2014, Gaga e Tony Bennett vão lançar um disco de jazz em parceria, intitulado Cheek to Cheek. Ô mulher que não pára. Lady Indormível.

Free my mind, ARTPOP: you make my heart stop.

MDNA Tour: Uma jornada das trevas à luz

12-07-06-madonna-mdna-tour-copenhagen-0001

madonna-mdna-tour-hyde-park-7-3000x1937

Existem shows que nos emocionam. Que só do astro ou estrela aparecer no palco correm aquela (s) lágrima (s). Mas também tem aqueles shows que te deixam estarrecido, apenas. Você não chega a chorar, mas não quer dizer que você não está emocionado ou indiferente. Pelo contrário. São justamente esses que te deixam boquiaberto de admiração. É de um dinamismo tamanho que você não vê o tempo passar. E você (meio que) não liga pro atraso da estrela em questão, ainda por cima.

Caríssimos: a Madonna provocativa, sexy e inteligente dos anos 90 está de volta. É possível perceber elementos da Blonde Ambition e da Girlie Show. Ponto de exclamação. A tão esperada (e recém chegada ao Brasil) MDNA Tour cumpre com maestria o que promete: (quase) duas horas da energia da rainha do pop performando os sucesso de seu último disco de estúdio – MDNA – além dos clássicos mais queridos das três décadas de sua polêmica carreira.

O show, primeiro da MDNA Tour em São Paulo, no estádio do Morumbi, marcado pras 20 horas, teve 2 horas e 20 minutos de atraso. No Rio de Janeiro teve 3 horas. Até que não foi tão mal assim. Quando as luzes se apagaram às 20:20, aquela coisa bateu em todo mundo. Não passou de alarme falso. Entrava o DJ Gui Boratto. Suas batidas hipnóticas não comoveram a galera, que o vaiou em diversos momentos. Enquanto ele fazia o trabalho dele, poderiam aproveitar e arrumar o palco e etc. Mas NÃO. Depois que ele saiu, uma hora depois, ainda ficaram uma hora e tralalá organizando e limpando tudo.

22 horas e 20 minutos. Finalmente as luzes se apagaram. Act of Contrition/Girl Gone Wild abre o bloco “Transgression”. A entrada é impactante: de longe, uma de suas melhores. Além do cenário ser fenomenal. A igreja, os sinos, aquele vibe confessional… É bem dark, bem como o conceito inicial da turnê. A abertura lembra muito o filme “De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick, naquela cena da seita pagã. Muito artístico.

12-07-06-madonna-mdna-tour-copenhagen-0012

madonna-performs-during-mdna-tour-23

madonna-mdna-tour-hyde-park-4

O primeiro bloco do show é só torcer e sair sangue. É realmente violento. A performance de Revolver arrancou suspiros, mas a de Gang Bang é um show a parte. De longe, a mais teatral do show. Madonna num quarto de hotel, bebendo whisky e atirando contra tudo e contra todos, toda aquele ar “Tarantino” de ser. Aliás, Tarantino ficou de dirigir o clipe – isso é, se virar single, que é o que todo mundo espera. E eis que a introdução com as cordas épicas de Papa Don’t Preach começa a tocar. Delírio define. Aliás, algo interessante nessa turnê a ser ressaltado: grandes clássicos mantiveram seus arranjos originais. Claro, com novos elementos, mas era possível sentir a essência da canção lá, sabe? E ah, teve Madonna na corda bamba (slackline) ao som de Hung Up.

Bloco Prophecy. Depois da interlude de Heartbeat com Best Friend, Madonna aparece com sua roupa de paquita da Xuxa e com sua fanfarra cantando Express Yourself – com o arranjo original. Como é que não vai se empolgar? Sem falar na alfinetada bem humorada a Lady Gaga, onde ela faz um mash-up com Born This Way (devido a semelhança nos arranjos de ambas as canções) e logo depois emenda versos de She’s Not Me, pra fechar com chave de ouro. Epic troll. E as projeções no telão? Mais pop arte impossível. Um dos pontos altos do show, sem sombra de dúvida.

309115_543072292387289_1157895929_n

Give Me All Your Luvin’ teve uma aparição rápida, com soldados de verdade suspensos por uma corda tocando tambor. Para Turn Up The Radio, nada mais oportuno que um rápido mash up de seus sucessos com clipes no telão. O novo arranjo para Open Your Heart soou charmoso. Na versão de estúdio é revoltada e obriga o amante a se declarar. Já nesta versão nova, a voz está mais suave, como se implorasse pra ser amada. Mais uma forma de se reinventar.

E então Madonna resolve conversar um pouco com o público. Ela faz aquele discurso sobre preconceito, as diferenças no mundo, como a diversidade sexual e etc, além de gritar em alto e bom som: “somos uma só alma”. A platéia estava eufórica e realmente esperava que ela cantasse Holiday. Ela lançou um gélido e irônico olhar e disse: NÃO! E logo começou a cantar Masterpiece, a balada que faz parte da trilha do filme dirigido por ela “W.E: Romance do Século”. Na versão do show, o grupo Kalakan faz uma participação especial, assim como no decorrer do show.

O bloco seguinte, Masculine/Feminine, abre com o vídeo interlude classudo a la cabaret de Justify My Love, com cenas provocantes de Madonna em preto e branco. E logo depois, em seu arranjo original, Vogue dá o ar da graça. Uma dos mais belos tributos ao mundo mágico do cinema. A coreografia nova é interessante e lembra, vagamente, a usada na performance do Superbowl. Só que sem as roupas dos gladiadores. Ainda provocante, ela começa a cantar Candy Shop com samples de Ashamed of Myself, de Kelley Polar e, Erotica. E na sequência, dizendo que não se arrepende de nada, Human Nature. Ponto de exclamação de novo.

1455060521

E justamente nesse bloco que Madonna exibiu suas habilidades com o português, dizendo palavras como “gostosa” e “caralho”, essa última palavra repetida inúmeras vezes. Só aprender que não tira mais da boca. Esse bloco inteiro soa como um tributo a Girlie Show, sua turnê de 1993 que veio ao Brasil para divulgar o disco Erotica. Não só a esta turnê em questão como em diversos momentos gloriosos do passado. Essa idéia de “retrospectiva” da carreira é bem utilizada nesta era “MDNA”. Não só o disco mas também a turnê bate nesta tecla.

De acordo com a setlist da MDNA Tour ao redor do mundo, esperava-se que Madonna cantasse Like A Virgin e Love Spent. Mas, para a surpresa do público, isso não aconteceu. Havia quem estava esperando a surpresa pro final do show. Mera ilusão. Por favor, reclamando. E com razão. Dizem as más línguas que o motivo do corte das canções foi o atraso do show. Vai saber. Logo em seguida, aparece no telão o maravilhoso vídeo interlude protesto com Nobody Knows Me (mais uma vez, esse lance dos “vídeos protestos”, assim como na Confessions Tour e na Sticky & Sweet Tour). Inicia-se então o bloco derradeiro do show: Redemption, que segue com I’m Addicted e I’m A Sinner, a irmã mais nova de Beautiful Stranger. Neste bloco ela faz uma clara referência ao bullying.

telaviv48

A música que deveria finalizar o show aparece como “penúltima”: Like A Prayer. Clássica. Plenitude artística. Aquele coral mágico, Madonna se jogando no chão ao som daquele coral mágico. Sem mais. Qualquer palavra a mais anula a magia. E pra finalizar o show, Celebration, com elementos de Give It 2 Me. Sticky & Sweet Tour feelings, é isso, produção? Eis que no meio de tanta coisa boa, outro ponto negativo aparece. Tanta música pra finalizar de verdade e logo Celebration é escolhida? É uma boa faixa? É. Se encaixa no conceito “trevas-luz”? Com certeza. Bem, acho que está perdoada, então.

Apesar de algumas músicas terem o efeito “vocoder” no microfone (como Hung Up, Girl Gone Wild, etc), ela provou que pode sim cantar ao vivo. Não foi uma performance vocal a la Céline Dion, claro. O foco da Madonna não é só o canto e sim a performance de maneira geral. Madonna se arrisca na guitarra, como em outras turnês. Não é uma exímia musicista, como vocês puderam perceber. Questão puramente estética.

madonna-mdna-tour-philadelphia-4

Madonna compartilha conosco, em quase duas horas, sua jornada das trevas à luz. A cada música performada, a iluminação é diferente. O show começa escuro, bem escuro e vai se iluminando gradativamente até que um flash estoura em nossos rostos… Fim. Nada de “bis”. Ela sai correndo em direção ao carro, pro hotel. Com Madonna é assim que funciona.

Veredicto do show: cada centavo muito bem empregado, por favor. A propósito: depois de ver a MDNA Tour, percebo que não perdi nada em 2008 com a vinda da Sticky & Sweet Tour ao Brasil. Não é recalque: é que o conceito desta turnê não é tão grandioso quanto o desta turnê. MDNA: uma jornada das trevas à luz. Como a própria Madonna disse: “É impossível chegar a um lugar sem passar por outro lugar”. Sábias palavras de quem está na ativa há 3 décadas. There’s only one queen and that’s Madonna. Bitch!

mdna tour (3)

Literatura | Crítica “Laranja Mecânica”

“A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus (ou Bog) no fim, afirmo a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta escada”

(Definição do termo “Laranja Mecânica”, página 24. Editora Aleph, 10ª reimpressão)

31-laranjamecanicas

Como começar a falar de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess? Quando um livro é especial e tão grandioso, chega ser difícil achar logo de cara as palavras introdutórias certas. É preciso segurança para falar de uma narrativa dessa linhagem (li-nha-gem, menino ignorante). Sim, porque pra falar de crítico (oh, que alcunha) para admirador não está me custando… Maldita tenuidade.

Junto com 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, este livro teve grande influência na literatura de ficção científica do século XX. E por ser ficção científica seria necessário algo a mais. Algo que fizesse que as pessoas acreditassem mais facilmente no enredo da história. Então, Burgess criou uma linguagem própria para os personagens, para as gangues: o nadsat. O nadsat é uma mistura do idioma russo com o inglês popular, que faz uso de uma gíria rimada e o falar dos ciganos. No começo, os termos causam estranhamento. Depois de alguns capítulos, o leitor se familiariza com a linguagem e a leitura, viciante e hipnótica, flui.

O título vem de uma expressão anglo-saxã: “as queer as a clockwork orange” (“tão bizarro quanto uma laranja mecânica”). Mas o que é exatamente uma Laranja Mecânica? É uma laranja de ferro? Não. Os caroços dela não passam de parafusos? Tampouco. O termo “clockwork” faz alusão a alguma coisa mecânica e manipulada, algo programável. Já “orange” tem semelhança com a palavra “orangutan” (um macaco alaranjado), logo, um animal. A intenção do título é se referir ao Alex, protagonista, narrador e amante da violência, sobre o fato dele deixar de ser um “animal” e tornar-se “mecanicamente” bondoso por uma técnica suspeita do governo (que vocês verão no decorrer do texto), a fim de exterminar o crime, tornando o jovem apto para viver em sociedade e programado apenas para fazer o bem.

Publicado em 1962, Laranja Mecânica não é apenas um livro transgressor e muito a frente do seu tempo, como também tem seu enredo muito próximo da realidade. Provavelmente seja esse o fator que o difere dos demais livros e que o coloque no pedestal que ele merece. Agora, por que ele é próximo da realidade? Quer algo mais real e tão presente na vida do ser humano do que a violência? Duvido muito que o termo violência se encaixe na descrição deste romance. Os atos narrados pelo protagonista ultrapassam o significado da palavra violência. Ultraviolência se encaixa melhor. Aquela que causa prazer, excitação, arrepio. E o mais interessante disso é que não é sangue barato, violência tapa buraco. Não basta ser violento. Tem que ser elegante. Burgess ambienta Laranja Mecânica numa Inglaterra futurista inexistente, onde a violência juvenil se tornou insuportável e a única forma de erradicá-la foi a intervenção do governo com técnicas de condicionamento de conduta, de comportamento. O drugui (amigo) Alex, protagonista e narrador, tem três prazeres dos quais não abre mão (ainda). São eles: a ultraviolência, o sexo e a música clássica.

Sarcástico, malvado e inescrupuloso, Alex DeLarge mora com seus pais e inventa desculpas para não ir pra escola. Já se meteu em encrencas e foi “resgatado” por P.R. Deltoid, seu conselheiro pós-correcional. É um boêmio. Está sempre em companhia de seus três druguis: George, Pete e Tosko (Dim, no idioma original). Autoritário, quer manter seu posto de líder do grupo, o que causa irritação nos demais. O point deles é Lactobar Korova, um lugar onde são servidos copos de moloko (leite) com velocet e sintemesc (ambos traduzidos como “droga alucinógena”) e etc. A vida dele se resume em perturbar a paz dos cidadãos trabalhadores, além das belas devotchkas (garotas). Durante um ataque, depois de um desentendimento, Alex é traído por seus druguis e não consegue fugir do local do crime. É sentenciado a 14 anos de cadeia. Então ele tem a oportunidade de participar de uma experiência desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Essa experiência é tão dolorosa quanto a ultraviolência praticada por ele: o tratamento Ludovico.

laranja-mecanica31

dyn002_original_1200_720_jpeg__95aca8c4cd8ec4381a209f1b4de5b780

O Tratamento Ludovico consiste numa sessão de cinema com filmes grotescos e nojentos (cenas de estupro, mutilações corporais, etc). E ele não podia fechar os olhos, sendo molhados com colírio. Não tinha como virar o olho pro outro lado e etc. No começo era até agradável para o nosso herói. Tanto que era engraçado como as cores da vida real só pareciam bem mais reais quando reproduzidas numa tela. Sabe aquele papo da imagem e sua representação? Quando algo é captado por uma câmera, quando entra na “mira” de uma câmera, tudo o que está ao redor não tem mais importância. É como se aquela imagem tivesse sido propositalmente moldada para estar ali. Tudo culpa da representação. Representar é uma palavra que soa, naturalmente, falsa. E isso não é um defeito, muito pelo contrário. Para o Alex, fazer aquelas coisas horrorshow (emocionantes) era uma coisa. Era prazeroso estar naquele ambiente, ver o sangue jorrar. Agora videá-las no lugar de espectador era outra. Não só se sentia culpado, mas era doloroso e enjoativo assistir, devido às vitaminas do tratamento. Para piorar as coisas, colocaram Ludwig van Beethoven como trilha sonora. Por favor, me matem. Qualquer coisa menos utilizar Ludwig van nestes vídeos repugnantes. Ele só fazia música. Ele não tem culpa de nada. Música clássica, no caso usá-la daquela maneira negativa, era o elemento de punição para que o efeito final fosse certeiro.

Essa tática drástica impele, naturalmente, a sua cobaia para o bem. Assim, ela jamais será capaz de fazer algo maldoso novamente contra qualquer ser vivo. A questão de “condicionamento de marginais” é bem mais complicada do que parece. Essa técnica faz com que a vítima não tenha mais poder de decisão. É como transformasse a pessoa numa máquina de fazer o bem, e só. Presa aos atos socialmente aceitáveis, ao ser maltratada, não consegue se defender. No caso de Alex, coisas que antes proporcionavam prazer: a música clássica, a literatura, o ato sexual, a arte de maneira geral, agora são consideradas como fontes primais de dor. Covardia (pra não dizer heresia) sentir dor de cabeça e vontade de se suicidar ao ouvir Ludwig van, Mozart ou Handel. No final das contas, o pobre, humilde e agora inocente narrador era um homem livre. Que tipo de liberdade é essa, condicionada? Os questionamentos que ficam no ar: o que será da vida do novo (e restaurado) Alex? Como ele será recebido pelos velhos conhecidos dele? Será que realmente valeu a pena ter saído 12 anos antes da prisão?

vlcsnap2010061418h50m26

71

Laranja Mecânica foi magnanimamente adaptado para o cinema em 1971 pelo diretor Stanley Kubrick. Malcolm McDowell deu vida (e muito bem dada, pfvr mito) a Alex DeLarge. Apesar do livro ter sido brilhantemente escrito, o último capítulo do livro é um tanto otimista e acabaria por destoar por demais do restante da narrativa. Para quem assistiu o filme, perceberá que o longa terminou justamente onde deveria terminar. O livro tem uma estrutura de 3 partes com 7 capítulos cada uma. Burgess escolheu a divisão em 21 capítulos porque na cultura anglo americana, a idade adulta é atingida aos 21 anos. Para o protagonista Alex, a idade adulta chega 2 anos antes: aos 19. E essa mat… é melhor eu me calar. Spoiler alert!!!!

Apesar das diferenças entre o livro e o filme, Kubrick se manteve extremamente fiel ao livro. E acrescentou alguns detalhes não citados no livro. Ele conseguiu (e com êxito) manter a essência da narrativa e os poucos detalhes que ele acrescentou deram “o tom”, diga-se de passagem. No livro não é citado que Alex tem uma cobra de estimação (Basil). Kubrick apresentou a Basil no filme unicamente por causa do medo de cobras do Malcolm. No livro, P.R. Deltoid aparece apenas para demonstrar seu papel autoritário devido a sua profissão de conselheiro pós-correcional. No filme, ele é levemente sádico e parece ter interesse sexual no jovem Alex, o que fica claro durante a conversa que os dois tem no quarto dos pais de Alex quando ele apalpa os países baixos do garoto. Outro caso do livro: o escritor F. Alexander (não vou detalhar pra não estragar a surpresa, só vou contar o “causo” por cima) estava trabalhando num texto cujo título era “Laranja Mecânica”. No filme, o título do manuscrito não é visualizado, não aludindo ao título do filme.

That’s it. Laranja Mecânica. Leiam um dos maiores romances com uma pitada (NOT, com muito humor negro) do século XX e assistam ao filme. Comparem as demais diferenças. É fantástico. É satírico. É brilhante. O filme complementa bem o livro. Tão transgressor, tão a frente do seu tempo. Por mais violentos que os filmes atuais sejam, eles não são classudos e elegantes como este. A genialidade em torno dele excita. Assim como a trilha sonora: Beethoven, Purcell, Rossini, etc. Um marco. Obrigatório. Quem não ler, vai levar um toltchok e, de brinde, um chute nos yarbles. Sem mais.

0-00-38%3B18

tumblr_kus26tUc641qzdvhio1_50081

clock

A_Clockwork_Orange_4clockwork_orangeclockw

487282_10151047625817488_1965839584_nA_Clockwork_Orange_3tumblr_kolhkxHWAP1qziyd9o1_500

clockwork orange

Kramer vs Kramer

Não se pode usar muitas palavras pra descrever um filme como este. A magia se quebra. Juro que tentarei ser o mais breve possível. uykne2LCkVuD5NEBzicCmCHFqBa

Kramer vs Kramer é o vencedor de 5 Oscars baseado no livro homônimo de Avery Corman, lançado em 1979. Estrelado por Dustin Hoffman e Meryl Streep, ambos vencedores do Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante, tem a direção e o roteiro de Robert Benton (cujas categorias também foram premiadas com Oscar: Melhor Direção e Melhor Roteiro Adaptado) e, lógico, Melhor Filme.

Apesar de focar mais no drama e no cotidiano de uma família devastada pela separação de um casal, o filme mostra de uma maneira sutil a mulher que anseia pela indepedência financeira e pela vontade de desempenhar um papel tão importante quanto o do marido.

Ted (Hoffman) ama muito sua família, a mulher Joanna (Streep) e o filho Billy (Justin Henry). Ele passa grande parte do tempo em seu trabalho e faz o papel de marido e pai dedicado; ela se sente sufocada, pressionada e acha que o mundo tem mais a oferecer do que ficar sentada no chão do apartamento o dia todo brincando com o filho.

90c7203e-7fa7-4b45-abb7-3b78af9ddbc6

kramervskramer1Numa noite ao chegar em casa, Ted, com o intuito de dar as boas novas sobre o trabalho à mulher, é abalado pela súbita notícia de que ela vai abandoná-lo. Tenta impedi-la, mas em vão. Assim, sem respostas, ele é incumbido à tarefa de criar o filho sozinho, com todas as dificuldades naturais de um pai de primeira viagem.

15 meses depois do divórcio, Joanna volta à tona, dizendo que quer o filho de volta e se mostra disposta a recorrer a justiça para ter a custódia. Nota-se claramente a insegurança da personagem que Meryl interpreta divinamente: ela se mostra serena e humana (apesar de querer a custódia do filho do fucking nada, sem levar em conta a dificuldade do marido de criá-lo sozinho).  Depois de ter se adaptado ao papel de pai, não é nada fácil ceder.

kramer4

kramer-by-hundlanddotorg

Como se não bastasse, tudo se torna ainda mais difícil para Ted quando a vida pessoal se mistura com a profissional, acarretando numa demissão repentina. Como vencer uma custódia sem emprego fixo? Como se mostrar apto para criar um filho, desempregado? No final de ano, natal, Ted se mostra determinado em arrumar um emprego em 24 horas. E consegue depois de muita insistência, mesmo ganhando bem menos que no trabalho anterior.

O clímax se dá mesmo na cena da audiência pela custódia de Billy. Enquanto ambos os advogados se alfinetavam em prol dos clientes, o casal se lançava olhares solidários. Ted ainda defendeu Joanna. Diz ao advogado dele que não precisava ter pegado tão pesado com ela. Joanna retribui com gentileza. Ainda que insegura e incapaz de criar o filho, Joanna toma uma decisão sensata que, ninguém que não leu o livro, não espera.

k vs kkramer-vs-kramer-7

Destaque para a performance do advogado de Ted, Shaunessy (Howard Duff), que não mede as palavras com Joanna, visivelmente abalada com a situação. Ao dizer que pretendia ficar em Nova York permanentemente, o advogado fez várias perguntas inserindo no final de cada uma delas o termo permanentemente: quantos namorados/amantes você teve… permanentemente?, mais de três, menos de trinta e três… permanentemente?, etc. “Engraçado você usar o termo “permanentemente” quando não consegue manter um relacionamento, não é?”

Pra terminar, Kramer vs Kramer é intenso e inteligente. O filme foi filmado no final dos anos 70, numa época de transformação da sociedade americana no que dizia respeito a alteração de papéis na família: o desejo da mulher de ser tão independente quanto o marido. Hoje seria considerado um filme a la Sessão da Tarde. Mas é muito mais do que isso. Muito mais. 27050_kramer-protiv-kramera_or_kramer-vs-kramer_1600x1200_(www.GdeFon

kramer_vs_kramer

kramervskramer5

kramervskramer4

MV5BMTk0NDQxMjYyN15BMl5BanBnXkFtZTcwMzI3MDI0Nw@@._V1

11295778_gal

MDNA: Realmente viciante como o nome sugere?

17

MDNA¹, duodécimo disco de Madonna, é extremamente pessoal. Madonna é sempre pessoal, mas um álbum nunca foi tão aberto quanto este. Um disco pós divórcio (do segundo casamento, com o diretor de cinema escocês Guy Ritchie), comercial (detalhe, afinal ela precisa concorrer com as mesmas artimanhas de ~cantoras~ da atualidade) e, acima de tudo, cheio de autoreferências. Sim, autoreferências. A própria Madonna se revisita, como uma retrospectiva das três décadas de sua carreira.

O álbum consegue soar, ao mesmo tempo de forma original, como o Erotica (Gang Bang lembra a temática de Thief of Hearts), Ray of Light (I’m A Sinner tem uma parte no instrumental que lembra muito a música Ray of Light) e Confessions on a Dance Floor (essa vibe electro/house do disco nos remete a um Confessions mais moderno – quando digo mais moderno, digo que foge da Disco Music 70’s a la Donna Summer).

O MDNA apela pra dramaticidade, coisa que muitas gurias que esfregam suas vulvas nos videoclipes não tem. Uma mistura de revolta, de alegria, de “foda-se”, de diversão. Mesmo que não seja o álbum da década ou o melhor de sua carreira (até porque ele não tem essa pretensão), fica claro que rainha só tem uma. E não me refiro a da Inglaterra.

Madonna não gosta de se repetir, ela mesma já disse isso várias vezes. Porém, pelo bem dos velhos tempos, ela resolveu recrutar o velho amigo de guerra William Orbit. O produtor do Ray of Light acaba trazendo elementos do aclamado disco de 1998 e o resultado é extremamente satisfatório: as guitarras especiais, os sintetizadores, os “bleeps” e etc são marca registrada dele e que só enriquecem a obra. Claro que Madonna gosta do novo, da sonoridade fresca e moderna. Aí que ela chamou o DJ francês Martin Solveig (pra quem não conhece ele, ouça REJECTION e HELLO: vale muito a pena!)

Algumas faixas utilizam o recurso do autotune. Geralmente seria de se reclamar, mas como sabemos como é a voz da Madonna sem esse recurso (vide Evita), esse detalhe passa desapercebido (hello, disco comercial, 2012, abraços). E pode ser facilmente perdoado com a qualidade vocal das faixas Love Spent e Falling Free (melhor performance vocálica do álbum EVER). Soa como Mer Girl, de Ray of Light.

Quanto às faixas detalhadas, vamos analisá-las brevemente. Girl Gone Wild, segundo single, como eu já havia dito, é bem genérica. A primeira ouvida, você pensa: “é boa, mas pro nível Madonna…”. Mas depois de sair o clipe, a temática do álbum, você acaba percebendo que a escolha foi sábia. Inclusive pela introdução com “Act of Contrition”, de uma garota arrependida e que não consegue se livrar do pecado. Confessional. Alguém aqui lembrou da vibe Like A Prayer? *arrepios* Gang Bang *pausa pra respirar* Só uma coisa: INSANNA. Uma das músicas mais originais do disco. Dubstep com vocais graves e revoltados. Um duelo entre o bem e o mal. Madonna compôs essa música com Kill Bill na cabeça, certeza. Tanto que ela declarou na entrevista no programa do Jimmy Fallon que quer que Quentin Tarantino dirija esse vídeo. A vibe do diretor é perfeitamente notável na canção. Única. Sem mais. I’m Addicted soa como Daft Punk, a linha de baixo é maravilhosa. A música é como um vulcão prestes a explodir. Turn Up The Radio é bem comercial e tem tudo pra ser um hit. Mais uma vez Solveig acerta a mão. A introdução é a cara dele, detalhe: é grudenta como chiclete. Give Me All Your Luvin’ nem tem o que falar, né? Cansados de saber. Primeiro single, retrô, 80’s feelings, Martin captou a essência cheerleader de uma forma que… sem comentários. Some Girls é bem europop e o autotune come solto. É uma boa faixa, mas nada de tão especial. Superstar é a faixa mais doce do disco. Quando eu digo “doce”, digo doce num nível Cherish, Love Profusion e até Miles Away. Os backing vocals são de Lola Leon (filha da M). A introdução lembra muito “Hello” do Solveig. A letra faz uma singela homenagem aos astros do cinema como Marlon Brandon, Bruce Lee, John Travolta e James Dean. Agora pára tudo! I Dont Give A é muito particular. Madonna conta seu cotidiano em forma de rap (não víamos um desde American Life em 2003, hein!). Seu casamento, a correria diária, o quanto se esforçou pra manter tudo nos trinques e pra quem reclama, ela não dá a mínima. “Tentei ser uma boa garota, uma boa esposa, me diminuí, tentei me tornar tudo o que você esperava de mim e, se falhei, não dou a mínima”. Nicki Minaj tem uma participação até agradável, mas o melhor está por vir: o final da música conta com um coral crescente a la Tim Burton. Lindo, clássico. De chorar. I’m Sinner tem a produção do Orbit, tem um arranjo bacana com guitarras elétricas e é uma mistura da faixa Ray of Light com Amazing, do álbum “Music”, de 2000. Love Spent abre com banjo (banjo numa faixa dance é bem incomum, huh?) e segue com um instrumental que lembra videogames: é como se você estivesse numa fase do Mario Bros. Curiosidade pros ouvidos espertos: no começo e no meio da música, podemos ouvir elementos subliminaríssimos de Hung Up. Só os fortes entenderão. Sim, amigos: o final do álbum está chegando. Masterpiece faz parte da trilha do filme dirigido por M, “W.E: Romance do Século” e levou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original, para a ira de Sir Elton John (risos histéricos). Trata-se de uma comparação da pessoa amada com uma obra de arte exposta num museu. Profundo. Vocais crus e a produção impecável de Mr Orbit. Ah, como ansiava por uma balada da Madonna. Suave, introspectiva. As finalizações de discos da Madonna são sempre reflexivas. Depois de uma rave, vem a reflexão. Sempre. Falling Free encerra, melancolicamente, o disco com os “bleeps” de Orbit, um arranjo lindo de cordas, solo de piano e o vocal mais trabalhado do disco. Madonna sabe cantar. Sinceras saudações para os haters que jogam a desculpa do autotune no ventilador.

MDNA é rápido como um raio de luz (tu rum dum tss). Assim, tem seus momentos house/electropop na primeira parte. Give Me All Your Luvin’, com seu viciante instrumental retrô 80’s, destoa completamente do restante do disco, visto que as primeiras músicas tem um ar electro/house fortíssimo. Mesmo destoando, ela encontra seu lugar ao sol dentre as outras. Se destaca e é uma faixa especial. Isso é um fato.

A primeira ouvida, você faz uma ~poker face~ pro álbum, por ter faixas bem distintas umas das outras. Você pisca e quando vê, já tá na faixa 10/11. E daí, VAPPO: volta pra primeira faixa de novo. Respondendo à pergunta do título: é realmente viciante? Cara, pergunta retórica. Vá ouvir o disco e diga por você mesmo. E quando eu digo isso só pode soar positivo. Acredite.

10

Faixas bônus

Pra quem comprou a edição deluxe com um CD extra, tem cinco faixas extras: Beautiful Killer tem uma vibe anos 80 com uma sonoridade moderna. É interessante. Há quem diga que preferia esta no lugar de Masterpiece na versão standard. NÃO! Deixem Masterpiece onde está, putos. I Fucked Up, diferente das demais faixas onde ela culpa o ex-marido pelos problemas, ela assume ter a culpa em alguns momentos. Os vocais estão bem nus, sem autotune por aqui, amiguinhos. Falando em ausência de autotune, a música a seguir não é nem um pouco polida. E encarem isso como um elogio. B-Day Song parece um flashback dos anos 60 e é basicamente uma música comemorativa de aniversário. A letra é boba (claro, é música de aniversário), mas o instrumental é viciante: ótima bateria e o baixo é bem bacana. A faixa é tão crua que parece que nem foi mixada. É muito boa, sério. Os backing vocals da MIA dão o charme. NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA GONNA SING MY SONG TONIGHT. Tirar do repeat, como faz? A gente escuta essa música esperando os NA-NA-NA-NAS ansiosamente e eles só aparecem detalhados no final da canção (no teaser de lançamento do álbum, do making of, tem muito mais NA-NA-NA-NAS – o que não é o caso da música finalizada). Best Friend é mais uma música baseada no relacionamento com o ex-marido. O instrumental da música lembra MUITO o de “Pluto” da Björk. E por último, um remix de Give Me All Your Luvin’ feito pela dupla farofeira LMFAO. É, realmente acaba em Best Friend, amigos.

 

¹ MDNA faz alusão a droga MDMA, também conhecida como Ecstasy1

SHAME: Onde o vício é o verdadeiro protagonista

Por Felippe Alves

deMei1lhhggi8FsAMIYXF2RzWJaAquele momento onde não se consegue dar cabo aos desejos e eles se tornam cada vez mais impertinentes. Afinal, qual a pessoa que dá o braço a torcer sobre um desejo fora do controle? Shame, segundo filme do artista plástico convertido a diretor Steve McQueen, não tem um protagonista humano e sim abstrato: o sexo. Pelo menos é o que fica claro na composição do personagem.

Vergonha, como aponta o nome em inglês, é coerente com o personagem. Sexo e vergonha na mesma frase soa familiar. Na antiguidade, o desejo sexual era visto com certa naturalidade. Atualmente, em alguns casos, a pessoa já nasce com o sentimento de culpa quando se trata do próprio desejo. É impróprio, é sujo. E quando a vontade ultrapassa as barreiras da razão?

shame 2michael-fassbender-as-brandon-in-shame-2011 (2)O filme começa com um homem envolvido num lençol e com um semblante satisfeito. A lente do diretor britânico mostra, sem pudor (nu frontal é bastante explorado no decorrer da trama), a rotina diária do personagem, onde ele não é mais do que um coadjuvante de sua própria existência. Ele ouve as mensagens constantes na secretária eletrônica e se faz de surdo para todas elas. A vida dele é só uma, completamente fechada às próprias vontades e nada mais.

Brandon Sullivan, interpretado por Michael Fassbender (vencedor da Copa Volpi de Melhor Interpretação Masculina no Festival de Veneza de 2011), é um homem rico, bem sucedido e determinado. Exceto por uma coisa: o vício em sexo. Sua libido se mostra desenfreada em qualquer hora do dia. Marca encontros diários com prostitutas, se relaciona com qualquer mulher bonita que vê na rua, etc. Mas satisfazer seu desejo na vida real não é o suficiente: o computador, repleto de vídeos pornográficos, reflete ainda mais o poder que sua libido tem sobre seu corpo. Incontrolável até em seu local de trabalho. Ele canta as colegas ao seu redor e suas idas ao banheiro são regadas a masturbação.

michael-fassbendershame-sex-nc-17A compulsão sexual de Brandon é representada pela falta de opiniões e preferências pessoais. Apesar de transmitir a imagem de um homem independente e seguro de suas vontades, o personagem acaba sendo retratado como uma marionete. Seu corpo é apenas um instrumento utilizado pelo vício,  o que o torna um escravo de compulsão. Cansado de sua doença, ele não consegue se livrar dela. Ele só começa a cair na real sobre o seu problema com a chegada da “responsável pelas mensagens eletrônicas”, sua irmã aspirante a estrela, Sissy (Carey Mulligan).

Em uma das cenas, Brandon fica irritado quando a irmã entra no banheiro sem bater e o flagra se masturbando. Irritada, ela sai de casa. Mais do que nunca, ela percebe o quão sério é o problema dele. Ao contrário do irmão, ela não sente vergonha em relação ao próprio corpo e demonstra uma certa ternura, que também pode ser interpretada como carência. Ainda que seja frágil, ela decide ajudar o irmão a se curar de seu problema.

shame-movie-image-michael-fassbender-carey-mulligan-02

McQueen utiliza um interessante recurso em Shame:  a decadência disfarçada de satisfação. Ele aplicou brilhantemente seus conhecimentos artísticos no tratamento das imagens do filme. Ele dá cor e vivacidade à decadência do corpo humano. Quem assiste tem a obrigação, pelo que parece, de olhar mais pro corpo do que pro rosto. Isso é proposital, pois ele não é importante e sim a representação do corpo dele. A competente direção de fotografia de Sean Bobbitt, também responsável por seu primeiro filme Hunger, soube mostrar o que há de mais bonito na cidade de Nova York, como por exemplo, as luzes da cidade na cena em que Brandon corre pelas ruas, na (falha) tentativa de esquecer seu desejo pelo sexo. Um dos melhores travellings do cinema. E ao som de Bach, ainda por cima. Elegância define.

shame 1

michael-fassbender-as-brandon-in-shame-2011 (1)

Outra cena interessante é a dificuldade que o “protagonista” tem de conversar sobre o amor, algo que ele desconhece completamente, já que não se apega a nenhuma mulher com quem se relaciona. Ao ir pra cama com sua colega de trabalho, algo o travou: o fato da mulher estar se entregando a ele porque realmente o achou interessante. Foi como se batesse o remorso de não conseguir corresponder àquele amor verdadeiro. E, logo em seguida, foi pra cama com uma desconhecida com uma facilidade única.

Shame tem a proeza de ser perturbador e, ao mesmo tempo, elegante. Vencedor do prêmio de Melhor Filme pelo Festival de Veneza de 2011, o filme também conta com uma trilha sonora excepcional, que merece ser comentada. A música chave do filme e que abre o mesmo (na cena do trem), “Brandon”, composta por Harry Escott, é ritmada e transmite muito bem o cotidiano do protagonista: extremamente dramática com seus violinos oscilantes, assim como o perfil do personagem. O renomado pianista canadense Glenn Gould tem quatro peças presentes na trilha, incluindo Prelude & Fugue No. 10 In E Minor, BWV 855: Prelude (Cravo Bem Temperado, de Bach, no piano, na cena onde ele corre pelas ruas de Nova York) e Goldberg Variations; BWV 988: Aria (Variações Goldberg, de Bach). Não só composta de momentos clássicos, também estão presentes na trilha “Genius of Love” de Tom Tom Club, “Rapture”, do grupo Blondie e o clássico da Disco Music “I Want Your Love”, da banda americana Chic.

shame fass

Michael-Fassbender-in-Shame4

Shame, de Steve McQueen, entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira, 16 de março. Com as brilhantes atuacões de Michael Fassbender e Carey Mulligan, confira abaixo o trailer legendado:

 

PS.: Apesar de ser premiado internacionalmente (Melhor Ator e Melhor Filme), Shame não chegou ao Oscar porque os americanos tem medo de sexo. De novo, o conservadorismo americano patético mostra a cara. Eles tem vergonha de admitir que é algo natural da vida (o sexo, não o vício, claro) e sempre corta filmes perturbadores assim da lista.

Também publicado no Jornal BLEH!

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

What we´re gonna do right here is go back

março 2017
S T Q Q S S D
« dez    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Latest Tweets

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.