Crítica | Viver é Fácil Com os Olhos Fechados

Na fila do cinema, lia-se num cartaz: “Viver é Fácil com os Olhos Fechados”. Hm, esse título não soa estranho. “Living is easy with eyes closed”… Strawberry Fields Forever. Será que tem algo a ver com os Beatles? Na mosca.

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Dirigido e roteirizado por David Trueba (Soldados de Salamina, 2002), o road movie gira em torno de Antonio San Roman (Javier Cámara), professor de inglês em uma rígida escola em Albaceta, cidade do interior da Espanha, que usa músicas dos Beatles para ensinar a língua aos alunos.

Baseado em um fato real, o filme conta a história de um professor espanhol fanático pelo Fab Four, que aproveitou que John Lennon estava em Almería, cidade do sul da Espanha, filmando “How I Won the War”, de Richard Lester (também diretor de Help!), e embarca numa viagem com dois jovens, a fim de conhecer de perto o beatle.

Belén (Natalia de Molina), jovem grávida fugida de uma casa onde futuramente daria seu filho a adoção, e Juanjo (Francesc Colomer), também fugido de casa pra escapar do pai autoritário. Os três se conhecem melhor, além de conhecer melhor a Espanha durante a ditadura de Francisco Franco (1936-1975).

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“Sempre precisamos gritar Help!”, diz o professor Javier. Com um roteiro incrível, o diálogo tem uma fluência especial e as interpretações de Cámara, Molina e Colomer são impecáveis e de uma sensibilidade única. A fotografia do filme é viva e a química entre o experiente Javier e os jovens atores é inegável.

Daniel Vilar fez um trabalho esplêndido na direção de fotografia, onde o espectador perde o olhar nas paisagens de Almería. Outro ponto alto é a caracterização da época: os anos 60 estão muito bem representados no longa: o rádio, o cinema e a TV caminham de mãos dadas.

Sensível e ímpar, como o cinema europeu faz questão de se mostrar sem dificuldade alguma, Viver é Fácil com os Olhos Fechados levou sete prêmios Goya (o Oscar espanhol) em 2013, incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.

Cinema | Crítica Instantânea | Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (The Way He Looks)

(pra ouvir lendo o texto: THERE’S TOO MUCH LOVE, Belle and Sebastian) http://youtu.be/FXAbar6PzRA

PS.: Antes conseguia inserir os vídeos pelo Live Writer, mas agora o thumbnail não quer aparecer. Mas o link está aí, obrigado, de nada.

Sem delongas, porque eu tava há tempos querendo falar sobre esse filme que começou como um curta metragem. Dirigido por Daniel Ribeiro e protagonizado por Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme incrível. Repito, incrível. Tanto o curta como o longa. Se complementam. O curta soa como um trailer, ao meu ver. Há mudanças sutis no percorrer, mas a essência é a mesma. Trata um tema sério com leveza e doçura.

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Leonardo (Lobo), um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca do seu lugar, de sua independência. Saber lidar com suas limitações e a super proteção da mãe são coisas necessárias de seu cronograma. Sua inseparável melhor amiga, Giovana (Amorim) se decepciona ao saber da vontade dele de fazer um intercâmbio, com o intuito de se libertar desses fatores do seu cronograma chato. Pequenas brigas com os pais acontecem aqui e ali, mas no geral, a convivência é pacífica. O pai é bem mais compreensivo que a mãe, entende que ele é jovem, quer lidar com o mundo afora e ter novas experiências e tal. Mas quer que o filho saia de casa pelos motivos certos. Com a chegada de um novo aluno na classe, Gabriel (Audi), Léo é despertado por sentimentos até então desconhecidos e sua forma de “ver” o mundo é completamente modificada.

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Que trilha. Ai ai, que trilha sonora. Músicas como Spiegel im Spiegel (que tocou em bastante filme já, por sinal), Modern Love (Bowie, rei das trilhas, tendência), as peças clássicas de Schubert (já vista em Barry Lyndon), Tchaikovsky, Bach, entre outros só acentuam a sensibilidade do filme. Músicas que cresci ouvindo e, sem dúvida, me relacionei bastante. E, por último mas não menos importante, a música chave do filme: There’s too much Love, Belle and Sebastian, se encaixou como uma luva. Até o título em inglês foi muito bem sacado: The Way He Looks. Tanto que tive que dar destaque a ele no título da postagem.

O bullying mostrado no filme acontece sempre mesmo. Natural da idade certas idiotices. É realmente interessante que o preconceito dos colegas de classe era mais por Léo ser cego que homossexual, principalmente nos dias de hoje onde a homofobia e a ignorância não tem limites. Não estou dizendo que não teve piadinhas com esse cunho durante o filme, teve, mas o fato de ele ser cego ocasionou bem mais gracinhas. Outro ponto: não sexualizar demais o assunto, como outros filmes (não estou criticando, é só um ponto que faz HEQVS ser único e sensível).

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Os atores: Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim: a química dos três, a amizade deles. Dá gosto de ver a leveza das cenas, as risadas, as brigas e como logo de cara Gabriel se deu bem com os dois que, aparentemente, eram os menos populares da turma, ao invés de se juntar com os mais populares e irritantes. Ele tinha tudo pra se juntar aos populares: beleza, carisma e etc, só pra constar. A forma como o longa se desenrola, as sensações (por um lado convicta, pelo outro nem tanto), a convivência, o companheirismo de Gabriel e Léo, nada soa exagerado ou forçado. É tudo tão natural, saca?

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O final, bem, como era de se esperar mesmo. O que se falou sobre esse filme, o hype todo em cima dele: não foi a toa. Sensibilidade, doçura, REALIDADE. Não só do Léo, mas como de muita gente. E é uma pena que o preconceito impere. No filme, impera de modo mais moderado, mas não exclui o fato de na vida real ser ainda pior a aceitação. Um filme pra ser passado nas escolas, SIM. De respeito.

É capaz que ainda esteja em cartaz. Até semana passada tinha horários disponíveis, só pra constar. Deixo aqui com vocês o curta metragem, cujo título original é EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO, que é uma ótima introdução ao longa. Como eu disse logo no começo da crítica: se complementam. Assim como os carismáticos personagens. Bem, não consegui inserir o vídeo com thumbnail e tudo, mas pode clicar aqui http://youtu.be/1Wav5KjBHbI

Tranquilo, não é vírus. Aqui é um blog de família, obrigado, de nada.

Cinema | Crítica Instantânea : Her

Her, dirigido e roteirizado por Spike Jonze, é uma ótima pedida e grande merecedor das indicações ao Oscar 2014: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original (“The Moon Song”, de Karen O) e Melhor Design de Produção.

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Mas independente das premiações – que nem sempre são justas – nossa, que filme digno. Não só pela fotografia, que é linda (o jogo de cores no escritório do protagonista), as paisagens, os passeios e tudo o mais, mas pela beleza da Scarlett Johanson ser tão presente, mesmo não estando em corpo e carne no filme (oh ok).

Her trata-se de um filme cujo assunto é uma variante do universo digital e suas reflexões e como a tecnologia influi fortemente no ser humano. No caso de Theodore, personagem de Joaquin Phoenix, escritor, recém separado da mulher, instala um novo sistema operacional que possui inteligência artificial que entende sua personalidade e necessidades a cada resposta, assim traçando seu perfil. Nada de teclado, mouse. Voz e movimentos corporais.

O computador e o celular, sempre ligados ao fone de ouvido, interagem com ele sob uma voz sussurante e rouca de Samantha, voz de Scarlett Johanson. Claro que não demora muito até ele se apaixonar perdidamente por ela. Bem, e ela por ele. Ela o entende como ninguém. Seu passado, seu presente. Ela realmente consegue sentir o que ele sente. O pensamento de Samantha em relação ao mundo dos humanos muda completamente e ela fica fascinada e, como ela mesmo diz, ela evolui com toda e qualquer situação que ela venha a passar.

Mas…ela é um sistema operacional. Desde quando ela tem sentimentos? Engraçado que, no decorrer do filme, de tanto conviver com o Theodore, ela acaba adquirindo manias dele, como de suspirar, por exemplo. Mas desde quando ela precisa de oxigênio? Outra questão: ela é exclusivamente dele? A interação entre eles vão ficando cada vez mais forte e quando ele descobre que não é “exclusivo”, a coisa muda de figura. Como ela irá dizer isso tranquilamente ao amado humano? Vai ficando cada vez mais difícil suportar um relacionamento sem se tocarem, sem o mundo físico. Não, uma alternativa curiosa sugerida pelo inteligente Sistema Operacional não deu lá muito certo.

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Até onde chega a capacidade de “duas pessoas” (no caso, uma só apaixonada pelo computador) que se amam perceberem se seu relacionamento é real ou, no caso, apenas uma programação. Algo completamente utópico um sistema operacional inteligente captar com precisão as preferências de uma pessoa e, automaticamente, aceitar seus defeitos sem pestanejar. O até então feliz escritor colocou fé nesse romance justamente por ser fácil demais, por se encaixar perfeitamente nos gostos dele? É raro o sistema operacional discordar dele em algo, vamos combinar. O filme também critica (de forma poética, claro) o mundo virtual, que cada vez mais separa o ser humano um do outro, assim privando-o de sentimentos reais.

Scarlett exala beleza com sua voz rouca sexy e misteriosa e a atuação de Joaquin Phoenix está digna do Oscar, porém, não foi indicado nessa categoria, por ironia do destino. O que é, de fato, um relacionamento? A tendência é justamente extinguir a interação humana, o corpo a corpo? É possível programar o nosso par perfeito? Sem mais delongas, vão ver HER. Já. Obrigado, de nada.

Cinema | Crítica Instantânea: Medianeras

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Bárbaro. Verdadeiro estudo sobre o cotidiano e como a internet diminuiu o contato humano e a vontade de viver. Além de ser uma boa aula de arquitetura e o melhor disso: usando a mesma pra explicar a verdadeira essência da pessoa que vive essa “cultura do inquilino”, como o próprio filme denomina.

O próprio título já diz: Medianera, aquela parte lisa e sem serventia dos edifícios, geralmente usada como propaganda. Soa como uma prisão e, então, somos obrigados a quebrar parte dela (um buraco ilegal) pra conseguirmos enxergar o que há muito não enxergamos.

Temo dizer que me enxerguei nesse filme. A mim, o vizinho, você aí sentado que tá lendo isso que eu tô escrevendo. É inevitável essa solidão que assola a tudo e a todos. Aquela velha e batida história de que “a internet te põe cara a cara com o mundo, mas te afasta da própria vida”.

Direção: Gustavo Taretto. 2011

Cinema | Crítica Instantânea: O Anjo Malvado

O Anjo Malvado (The Good Son, 1993) é, realmente, incrível. Por ter atores mirins como protagonistas, todo mundo acha que se trata de um filme lindo e mágico. Mas, pra minha satisfação, é o contrário. Não é por nada, mas as crianças realmente atuaram nesse filme – ainda mais que o núcleo adulto. As expressões frágeis e macabras, de Elijah Wood e Macaulay Culkin respectivamente, não deixam a desejar.

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O filme já começa dramático até o talo. Mark (Wood) presencia sua mãe falecer e seu pai, pra cuidar dos negócios, resolve mandá-lo pra casa de um tio por 3 semanas. Lá ele conhece Henry (Culkin), que parece um menino normal como todos da sua idade. Mas no decorrer da trama, ele vai se mostrando um garoto com um senso de humor maléfico e sem um pingo de escrúpulos.

Mark percebe sua verdadeira face e tenta alertar a família. Em vão. Com esses surtos de alerta, a família acaba enxergando ele como um “garoto difícil que acabou de perder a mãe e está confuso”. E Henry, como um bom psicopata que é, se aproveita disso tudo pra continuar “reinando” por aí. Como se o que ele fizesse realmente se restringisse a isso. Ele se faz de inofensivo, sob o ar de “só queria ajudar, vamos compreender que Mark é só um garoto perturbado e que precisa de ajuda”.

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Mark acaba enxergando na tia (mãe de Henry) feições maternas e a partir daí Henry não esconde mais a sua verdadeira face. As cenas se desenrolam com uma naturalidade espantosa. Ele tenta matar a irmã Connie lançando-a no gelo fino da patinação. E ainda tem uma incógnita a ser desvendada. Sobre a morte do irmão pequeno, Richard. A verdade vai aparecendo e Henry se sente acuado pelas desconfianças. Aí que ele planeja matar a própria mãe (que, de acordo com ele agora, é a mãe de Mark – então, que diferença faz se ela morrer, não é mesmo?) Enfim, só mais quatro palavras: a cena do penhasco.

A crítica caiu em cima desse filme. Além de não engolir o Macaulay como uma criança malvada (com o excesso de bondade e comicidade com Esqueceram de Mim), acharam o filme “pesado” demais, se é que me entendem. O crítico Roger Ebert achou o filme inapropriado pra crianças.

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Mas porra, não tava na cara que o filme não era pra esse público? Só por causa de atores mirins nele. Mas também, quanto estereótipo… como se nunca tivesse tido filmes com essa temática “crianças do mal”. Ele teve a pachorra de descrever o filme como “horripilante, uma experiência desagradável”. Oras, é a verdade. Isso é real. Acontece. A arte imita a vida, qual o problema nisso tudo? Não sabe brincar não desce pro play, meu querido.

“Eis que a criança queridinha da América joga um boneco de uma ponte no meio de uma avenida, causando um acidente. Isso me assusta. Eu acho muita irresponsabilidade mostrar uma criança fazendo isso. Acho que se crianças virem esse filme, algumas delas vão imitar”

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Esse filme me aguça os sentidos de uma forma, mas de uma forma… E olha que mundo pequeno: o roteiro é de Ian McEwan, escritor britânico dos livros Jardim de Cimento, Sábado, Reparação, entre outros. E parando pra pensar, o universo das tramas dele realmente se batem. O estilo único de sua escrita. Nada é “lindo e mágico”. É real. Acho que por isso gosto tanto do trabalho dele.

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Cinema | Crítica Instantânea: Threesome: Três Formas de Amar

Como não ando mais escrevendo críticas detalhadas no blog, acabo fazendo críticas instantâneas no Facebook. Lidem com isso ou não. THREESOME passou certa vez no Intercine (aliás, nostalgia – era legal ver os filmes sendo votados e tal, mas dava uma raiva quando o que você torcia pra ganhar perdia) e dessa vez resolvi assistir de novo.

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Dirigido por Andrew Fleming, não acho que seja exatamente uma comédia romântica. Uma jovem de nome Alex (Lara Flynn Boyle) é encaminhada pr’um alojamento masculino da faculdade, por um erro de computador, e passa a dividir o quarto com Eddy (Josh Charles) e Stuart (Stephen Baldwin).

Eddy é o sensível/inteligente e Stuart é (no começo) repugnante, mas com o passar do tempo, você acaba se simpatizando por ele. A linda Alex é aspirante a atriz e logo se apaixona por Eddy que, por sua vez, não tem certeza de seus desejos (ou tem e está cego demais pra admitir). Um diferente triângulo amoroso onde nem tudo sai como o imaginado.

Vários filmes com o passar dos anos imitaram essa proposta “tripla” do Fleming, mas não lembro de nenhum tão intenso, engraçado e apaixonante quanto. A trilha também é demais: New Order, Duran Duran, Tears for Fears, blá blá blá..

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Sweet Norma | No! I Tell You No!

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– No! I tell you no! I won’t have you bringing some young girl in for supper! By candlelight, I suppose, in the cheap, erotic fashion of young men with cheap, erotic minds!

– Mother, please…!

– And then what? After supper? Music? Whispers?

– Mother, she’s just a stranger. She’s hungry, and it’s raining out!

– “Mother, she’s just a stranger”! As if men don’t desire strangers! As if… ohh, I refuse to speak of disgusting things, because they disgust me! You understand, boy? Go on, go tell her she’ll not be appeasing her ugly appetite with MY food… or my son! Or do I have tell her because you don’t have the guts! Huh, boy? You have the guts, boy?

– Shut up! Shut up!

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It’s sad when a mother has to speak the words that condemn her own son. I couldn’t allow them to believe I would commit murder. They’ll put him away now as I should have years ago. He was always bad and in the end he intended to tell them I killed those girls and that man, as if I could do anything but just sit and stare like one of his stuffed birds. Oh, they know I can’t even move a finger and I won’t. I’ll just sit here and be quiet just in case they do…. suspect me. They’re probably watching me. Well, let them. Let them see what kind of a person I am. I’m not even going to swat that fly. I hope they are watching… they’ll see. They’ll see and they’ll know, and they’ll say, ‘Why, she wouldn’t even harm a fly.’

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Cinema | Crítica instantânea: Pedalando com Moliére

Hoje acabei indo ver um dos filmes do Festival Varilux de Cinema Francês na Paulista. Assisti “Pedalando com Moliére” (ALCESTE À BICYCLETTE, 2011), do diretor Philippe Le Guay.

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O filme (1 h 45 m) conta a história de um ator que desistiu dos palcos, Serge, interpretado por Fabrice Luchini, e que vive recluso em Ilê de Ré, uma ilha na costa oeste da França. Serge é convidado por Gaulthier (Lambert Wilson), um dos atores bem mais pagos da país por interpretar um médico a la Dr House numa série de TV, a atuar na peça “O Misantropo” de Moliére. Ele faz doce pra aceitar o papel no começo (nossa, que termo mais “mundano” pra se tratar do cinema europeu, que feio), mas acaba ensaiando as falas com o velho conhecido.

O filme tem mais diálogos da peça de Moliére do que uma história própria, digamos assim. Mas isso não tira o mérito do filme nem um pouco, pois tem dinamismo e os ensaios refletem bem a admiração que um sente pelo outro. Ainda assim, vira e mexe, vemos um arranca-rabo entre os dois. Serge irrita Gaulthier com seu ar de aprovação e por querer manter o texto arcaico demais, enquanto o “Dr House” quer deixar o texto mais “atual”, direcioná-lo a um novo público.

Em suma, são atores fazendo papel de atores. A preparação para os palcos é a graça do longa. Vale muito a pena. E bem, é meio óbvio de tanto que eu falo desse fator em relação ao cinema europeu: a trilha/score é maravilhosa.

O Lado Bom da Vida: Mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá

O indivíduo se recusa a ir ao cinema, apenas porque está disposto a assistir ao “filme da própria vida”. Engraçado que a vida dele nem é lá tão interessante assim. Mas ainda assim, ele tenta ver o lado bom de tudo. Por mais que tenha que se esforçar pra isso.

Escrito por Matthew Quick, “O Lado Bom da Vida”, conta a história de Pat Peoples, professor  do ensino médio, acredita que sua vida é um filme e Deus é o produtor por trás. Depois de ter passado 4 anos numa instituição psiquiátrica (tempo o qual ele se refere como “apenas alguns meses”), se prepara física e emocionalmente para se reconciliar com sua esposa Nikki, depois do “tempo separados”: ele flagrou sua mulher com outro homem e se descontrolou.

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O título original é Silver Linings Playbook. A expressão Silver Lining se refere ao contorno ilumunado das nuvens quando encobrem o sol, dando a entender que mesmo numa situação ruim, algo pode soar positivo. Logo, a tradução livre do livro (e do filme, como verão a seguir) faz completo sentido e foi muito bem traduzida para o português. Não vou me ater muito à sinopse e já vou partir logo pros detalhes, porque eu não me aguento. Comentário pessoal: li o livro compulsivamente em um dia.

Voltando à história… Diagnosticado com um transtorno bipolar, Pat volta a morar com os pais e tenta recuperar sua sanidade e mudar completamente seu jeito de ser drasticamente – tudo pelo bem de sua tarefa e sua obsessão por enxergar seu “final feliz”. Ele se recusa a enxergar qualquer coisa além do seu final feliz.  Pat está completamente cego pela idéia de que Nikki vai voltar a amá-lo algum dia e passa a ler todos os  livros que ela passa na aula de Literatura para os alunos.

O pai de Pat o trata com completa indiferença e não sabe lidar com o fato de o filho ser um “doente mental” – é assim que ele se refere ao filho. Não abertamente, claro. Mas deixa subentendido. Os amigos o tratam diferente e a esposa se recusa a vê-lo e evita comentar o que realmente aconteceu. Pat quase matou o amante da mulher de pancadas e depois do diagnóstico dele foi criada uma ordem de restrição judicial, na qual ele teria que ficar a pelo menos 150 metros de distância da ex-mulher, com a qual ele ainda sonhava em se reatar.

A música Songbird do Kenny G atormenta Pat ao extremo, porque foi a música que tocou em seu casamento e foi a música que estava tocando enquanto sua mulher estava na banheira com outro. E ele não aguenta os “acordes sensuais do sintetizador” mesclado ao solo de saxofone. O medo quase infantil que ele tem do saxofonista soa um tanto engraçado. Aliás, depois do “incidente”, Pat se mostra cada vez mais infantil, o que o torna cativante: a inocência com a qual age.

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Como Pat lida com essa ilusão e com a indiferença do pai? Se tornando uma pessoa extremamente sensível e fazer coisas boas que, antes, ele não tinha o hábito de fazer. “Estou praticando ser gentil ao invés de ter razão”, diz ele.  Mas é bem como dizem: é preciso passar por experiências desagradáveis pra aprender a analisar melhor a vida. Como uma retrospectiva ambulante. A vida inteira passa por nossos olhos, como numa fita de vídeo. Como na morte, imagino. Oh ok, foco. Viciado em exercícios físicos (ele corre vestindo um saco preto de lixo que, segundo ele, serve pra ajudar a suar e, automaticamente, emagrecer), Pat está obcecado por seu final feliz. Entretanto, mal sabe ele que a vida tem um jeito engraçado de mudar completamente o ritmo sem alterar a felicidade no final.

Um dos melhores momentos é o surto dele ao perceber que Nikki passa livros com finais deprimentes às crianças na escola em que leciona. Ele fica doente de raiva ao ler “Adeus às armas” de Hemingway. Mas o motivo pelo qual ele faz isso – se interessar pelo que Nikki gosta – é “derramar sabedoria” e jogar na cara das pessoas que o chamavam de “iletrado”, o estereotipando, já que ele sempre prezou por seu corpo e por ser forte. Outro surto ótimo é quando o vídeo do casamento dele com Nikki some e ele acorda a vizinhança inteira, aos berros, como se estivesse morrendo de dor no pâncreas. Oh wait. Estou falando do filme. Enfim, foco [2].

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Aliás, o livro demonstra bem sua força. Coloca a força física dele em evidência, devido a malhação e a academia particular. Torcedor fanático do Eagles – assim como seu pai e seu irmão Jake – tenta tornar esse fator em comum em algo positivo para se aproximar do pai. Em vão. No final, ele acaba falando com o filho quando dá vontade. Então ele aproveita isso. “Ser gentil é melhor que ter razão”, lembra? Pois é.

Quando achamos que a história não poderia ficar mais interessante, PLU: aparece Tiffany na vida de Pat. Tiff é irmã da mulher de seu amigo, Ronnie. Jovem depressiva que ficou viúva muito cedo e foi demitida do trabalho por transar com todo mundo do setor (“fiquei carente depois que Tommy morreu”), passa a seguir Pat em suas corridas diárias e estudá-lo detalhadamente, o que o assusta a princípio. Ele chega a dizer que seria melhor que ela se mantesse longe dele, mas não é o que acontece.

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A “loucura” de ambos é o que os tornam cada vez mais unidos, apesar de umas briguinhas aqui e ali. Não, não soa como comédia romântica. É bem mais do que isso. Sabem por quê? Porque não são enxergados como pombinhos e sim como um casal problemático julgado aos olhos de todos ao redor. Casal que se completa. Tiff promete ser a mensageira entre Pat e Nikki, já que a justiça proibiu eles de se encostarem. Só que Tiff, em troca desse favor, o convence a participar de um concurso de dança com ela. Até Pat descobrir que quem envia as cartas pra ele era… SPOILER DETECTED. Calar-me-ei.

A relação de Pat com seu irmão, Jake, é boa e amigável. Ele acaba descobrindo que seu irmão casou enquanto ele esteve no “lugar ruim” e sua mãe escondia vários detalhes de coisas que ocorreram que, aos poucos, ele foi descobrindo. Cliff Patel, psicólogo de Pat, vive testando sua índole, perguntando se ele transou com Tiffany, o que o irritava de verdade e ele sempre respondia: “sou casado” *mostra aliança* E o relacionamento dele com o terapeuta se torna ainda mais engraçado quando eles se descobrem torcedores fanáticos do Eagles. Aliás, tem partes no livro onde só se fala: “voem Eagles, vai Eagles”… é futebol que não acaba mais. Argh. Mas isso não torna o livro menos interessante, pelo contrário. A história de Pat Peoples é muito rica. Mas ok, sem mais detalhes. Vamos às pequenas diferenças entre o livro e o filme.

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O livro de Matthew Quick foi adaptado para as telonas sob a direção de David O Russell e chegou ao Brasil este ano. Com Bradley Cooper (Se Beber Não Case) como Pat, Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes) como Tiffany, Robert De Niro (Taxi Driver) como Patrizio, pai de Pat e Jackie Weaver como Dolores, mãe de Pat. Em sua essência, o livro não difere tanto do filme, mas alguns detalhes ricos, infelizmente, se perdem (como é de se esperar). No livro, Pat soa um pouco conformado apesar de tudo. Mal de lembra das coisas e  pergunta coisas sobre o passado e presente, as quais os pais tentam omitir dele sem sucesso. No filme ele é mais intenso, mais ativo nas atitudes, por assim dizer. Tiffany mal abre a boca no livro: é mais depressiva a la Funérea do que o previsto. No filme, ela o persegue o tempo todo e fala bastante. Afinal, ela percebe que não pode viver sem Pat. Danny, o amigo de Pat, aparece mais no filme do que no livro. Acho que é pra suprir a falta de enredo de Jack, que no livro aparece bem mais.

No livro, na cena do “concurso” de dança (sim, entre aspas porque na verdade nem chega a ser um concurso, diferente do filme), há uma magia bem detalhada e a música tocada é Total Eclipse of the Heart. Os passos de dança são precisos – saltos, giros, equilíbrio (devido à habilidade de Tiffany com a dança moderna). Diferente do filme, que é outra música e os passos, apesar de bem feitos, não tem a precisão profissional que as páginas indicam.  No livro, o pai é intensamente distante de Pat e nem fala com ele. Só fala com ele ao ser chantageado pela mulher. Já no começo do filme, ele interage melhor com o filho e fala bem mais com ele. E quanto a ordem de restrição judicial de Nikki…? Balela. Afinal, o que ela fazia no concurso de dança? E o medo que ela sentia dele? Sumiu do nada? Apesar das diferenças e da rapidez com que certas coisas, caminham, o filme é digno de ser assistido muitas e muitas vezes.

Indicado a oito Oscars – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Edição e Roteiro Adaptado – O Lado Bom da Vida só levou uma estatueta pra casa: a de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence, que está perfeita no papel. Ela realmente convence no papel da jovem viúva problemática e temperamental. A emoção foi tanta que ela até caiu, hahahaha! Merecido.

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Obrigada, senhor, por este Oscar. Amém!

Com esta indicação de Melhor Ator, Bradley Cooper deixou pra trás o estereótipo de “ator das comédias românticas” e se mostrou excelente nesse papel, que é tão sério em sua carreira. Não foi dessa vez que ele levou, mas tenho certeza que ele vai interpretar mais papéis deste nível. E com o nível altíssimo das produções concorrentes este ano, era meio óbvio que ele não ia levar. Uma pena.

O filme não seguiu o livro a risca, o que é um pouco triste. Porém, não impediu que o filme fosse divertido e inteligente, apesar dos clichês hollywoodianos que tendem a aparecer no final de longas do estilo. Pode ser que uma nova vertente tenha sido criada com O Lado Bom da Vida: comédia romântica que não foca no amor e em risadas o tempo todo e sim nos problemas psicológicos dos protagonistas, onde eles podem se explorar melhor e, a partir daí, criar situações inusitadas e, o melhor, que cativem o público.

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Filme ótimo. Livro melhor ainda. E é justamente como o título original propõe: mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá.

Les Misérables: uma breve crítica

Um aviso: O filme, é óbvio, é todo cantado. Quando digo todo, é todo mesmo. Todas as falas. Quem não gosta de musicais, provavelmente vai dormir e não vai querer tomar um chá de cadeira de quase 3 horas pra ouvir choros e melismas. Então, considerem-se avisados.

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Com 8 indicações ao Oscar, entre elas para Melhor Ator para Hugh Jackman, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway e Mixagem de Som. O longa também venceu Globo de Ouro de Melhor Filme – Musical ou Comédia, Melhor Ator para Jackman e Melhor Atriz Coadjuvante. Espero que esses prêmios se estendam ao Oscar, não é mesmo?! Dia 24 de fevereiro, saberemos.

MUST SEE! Diferente de outras adaptações de musicais pro cinema, os vocais foram gravados AO VIVO no set de filmagem – só a orquestra e alguns instrumentos no estúdio. Este é um acontecimento inédito. Nem precisa falar do trabalho árduo que o editor de som teve que fazer.

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Geralmente os vocais são gravados, mixados e ajustados no estúdio, pra soar o mais CRISTALINO possível. Na adaptação de Os Miseráveis, não. MUITO PELO CONTRÁRIO! Tom Hooper (diretor de O DISCURSO DO REI) nem se preocupou em deixar os atores com a voz magnânima. Esse é a característica crucial do filme, sabe? Manter tudo o mais natural possível. E como os atores gravavam as canções? Eles, com um ponto no ouvido, ouviam a canção tocada no piano.

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Sempre soube que Anne Hathaway podia cantar num musical deste nível. Hugh Jackman, apenas quatro palavras: desgraçado da voz boa. Russell Crowe, bons vocais, mas não soa como o tipo de papel que ele está acostumado a fazer. Amanda Seyfried, linda demais, já tem experiência em musicais, por assim dizer. Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen dão o toque de humor necessário.

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Ainda vou ver de novo antes de sair de vez de cartaz. E ah, Suddenly tem que ganhar o Oscar de Melhor Canção Original.

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Mas o mais importante é o Oscar de Mixagem de Som. O trabalho do cão pra mixar todas aquelas vozes, bla bla bla, sem contar o fato de cada número ter sido gravado em torno de 10/11 vezes e não ganhar… SACANAGEM!

Enfim, é isso. Assistam. É.

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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