Trevas, segredos e devaneios

Poucos de nós não terão despertado antes do raiar do sol, após uma dessas noites sem sonhos que nos fazem quase enamorados da morte, ou daquelas repletas de horror e falsa alegria, quando pelos salões da mente transitam fantasmas mais terríveis do que a própria realidade, transbordantes daquela vivacidade que se esconde sob todas as coisas grotescas e que confere à arte gótica seu vigor duradouro por ser a que nasce, é de crer, nas mentes perturbadas pelos distúrbios do devaneio.

Das sombras irreais da noite retorna a vida real que conhecíamos. Precisamos retomá-la onde a deixamos, sendo invadidos pela sensação terrível da necessidade de continuarmos a despender nossa energia, praticando uma cansativa série de hábitos estereotipados; ou pode nos assaltar o desejo insensato de que nossas pálpebras se abram certa manhã para um mundo que haja sido remodelado nas trevas para nos dar prazer, um mundo em que as coisas teriam novas formas e cores, e fosse diferente por ter outros segredos, um mundo em que o passado teria pouca ou nenhuma importância, ou que pelo menos sobreviveria sem qualquer forma de obrigação ou arrependimento, pois a lembrança mesmo de uma alegria tem seu amargor assim como existe dor nas memórias do prazer.

Trechos aleatórios d’O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde.

Crítica Literária | O Bebê de Rosemary

10743341_974410015918002_340593429_nAdaptação de livros pro cinema é coisa séria. Claro que é recomendável ler o livro antes de ver o filme, mas sabemos que nem sempre é possível.

Existe aquele tipo de adaptação com mudanças e inserção de detalhes não disponíveis nas páginas: que podem ou não funcionar. O importante é não perder a essência.

E também aquela adaptação rara, que nem devemos chamar exatamente de adaptação: é como ler o próprio roteiro do filme, de tão fiel que o roteiro é às páginas. A ordem dos acontecimentos, inclusive ler os diálogos com a voz dos atores. Esse é o caso do livro de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, fielmente adaptado por Roman Polanski (o segundo filme da Trilogia do Apartamento) em 1969.

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Antes  do começo, só um leve adendo sobre o final. Calma, nada de entregar o ouro assim tão fácil. O final do livro é mais detalhado que no filme, como é de se supor. O longa deixa a entender que será exatamente como no livro mas, pro cinema, essa tática de “deixar no ar”, funciona muito melhor. Aí reside a competência de uma boa adaptação. A fidelidade às páginas do livro dá um prazer a mais, ainda mais quando você assiste ao filme primeiro. É um post que é impossível separar o “livro” e o “filme”.

Agora sim, sobre a obra de Ira Levin. Publicado em 1967, o Bebê de Rosemary nos apresenta os recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse, que alugam um apartamento em um antigo prédio em Nova York, o Bramford, um edifício sombrio no estilo vitoriano com um extenso histórico de crimes e acontecimentos sobrenaturais, inclusive um número elevado de suicídios. Hutch, um senhor de idade amigo de Rosemary, tenta alertá-los sobre a reputação do edifício, mas a excitação de Rosemary não permite que ela enxergue com clareza e sim apenas como pessimismo por parte do amigo.

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Guy é ator de teatro e faz alguns comerciais, que é onde o dinheiro está, de fato. Por ele ser protestante, Rosemary foi renegada por sua família (católica) ao se casar com Guy. A ironia disso tudo: Rosemary renegada pela família porque se casou com um protestante. E logo com ela foi acontecer isso. Familiares no churrasco dizendo: eu avisei, oh ok.

Na lavanderia, Rosemary conhece Terry Gionoffrio, uma mulher que vivia na sarjeta e foi acolhida pelos Castevets, Minnie e Roman, seus vizinhos. Ela fala de um amuleto da sorte, uma pequena bola de prata com raiz de tannis. O cheiro é acre e forte, “precisa de tempo pra se acostumar”, diz Terry. Muito agradecida aos Castevets, estava determinada a dar um rumo à sua vida. Mas digamos que a bússola quebrou no meio do caminho. Terry se jogou do sétimo andar, deixando todos perplexos, inclusive Rosemary. Por que ela se jogou? “Que amuleto furado é esse?”, pensou Ro.

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Com isso, o casal Woodhouse conhece mais a fundo Minnie e Roman, que ajuda o casal a organizar a nova vida. O amuleto de Terry passa a ser de Rosemary. Guy se torna muito próximo do simpático casal, mas aí coisas estranhas passam a acontecer depois dessa guinada na amizade entre eles. Enquanto isso, Rosemary queria engravidar, mas Guy não se mostrava ansioso, frustrando-a.

Cabisbaixo por ter perdido um papel importante de uma peça para Donald Baumgart, subitamente ele recebe uma ligação informando que este ator tinha ficado cego misteriosamente. Bah, mas que chato conseguir o papel desta forma, não é mesmo? O que estava indo mal, de repente entra nos eixos: sucesso profissional, propostas de emprego, incluindo um seriado com a Warner Bros, hmmm, nada mal. Rosemary nota uma mudança no comportamento de Guy: preocupação com a carreira, o egocentrismo tomando conta.

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Depois de uma pequena crise, o casal Woodhouse se acerta e finalmente resolve engravidar. Eis que Guy se mostra a vontade com a idéia de ser pai, o que reanima Rosemary. Depois de uma suspeita sobremesa, Rosemary tem um pesadelo com um ritual de magia negra envolvendo os Castevets e Laura-Louise (a vizinha), todos nus, onde ela é a oferenda. Cópula com a besta. Ou uma representação dela. Tudo ao som dos excêntricos cânticos que ela costuma ouvir toda noite de Minnie e Roman. As incertezas ganham força. Em quem confiar? A famosa linha tênue entre a realidade e a fantasia e a circunstância de como engravidou. Guy supostamente abusou dela enquanto dormia, porque “não quis esperar” pra ser pai. De novo: desde quando brotou esse interesse dele em ser pai? Outra questão a ser analisada. Quando tem certeza de que está grávida, Rosemary fica radiante. E os Castevets passam a ter um cuidado especial com ela. Sucos e bolos especiais, além de um novo obstetra, Dr Sapirstein, amigo dos Castevets.

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O obstetra diz a ela para não se comunicar com amigas e nem falar sobre gravidez com elas ou ler livros sobre o assunto, alegando que cada gravidez é diferente uma da outra. Rosemary tem desejos estranhos como carne crua e perde peso durante a gravidez (e o corte icônico de Vidal Sassoon só acentuou ainda mais isso), aumentando a preocupação de Hutch e das amigas. Gravidez onde a mulher perde ao invés de ganhar peso? Sem contar nas dores constantes e o medo de perder o bebê. Além de tudo isso, a paranóia.

Sim, a paranóia. Rosemary passa a desconfiar dessa amizade tão forte de Guy com os Castevets. Percebe que ele não olha mais pra ela como antigamente, como se tivesse uma repulsa por ela. Esconde algo no ombro, uma marca, com um band-aid cor da pele. A cegueira do ator que concorria a vaga com Guy. A morte de Hutch. Segredos sobre o passado do pai de Roman vão aparecendo também. Adrian Marcato, um bruxo, foi morto na porta do Bramford. Acontecimentos bizarros deixam Ro encasquetada. Desconfia que o marido tenha se envolvido em algum tipo de magia negra. Pacto com o diabo para obter sucesso? Uma criança. É esse o preço? E wow, informações demais. Rosemary precisa ser rápida pra sair desse complô maligno. A vida de seu bebê, Andy ou Jenny, depende disso. Seja ele de Guy ou de alguma outra entidade superior. O pesadelo de olhos abertos de Rosemary faz com que ela desconfie de todos a sua volta, menos de seu bebê. Todos nós esperamos que Rosemary se vingue dos vizinhos intrometidos, inclusive do marido. Mas será que seu instinto maternal permitirá isso?

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Uma singela análise: Rosemary é submissa e confia muito em Guy.  Foi assim que Polanski trabalhou na posição da mulher como refém da sociedade machista. Uma mulher obediente ao marido esforçado e aspirante a fama. Uma família que exala perfeição pelos poros, o que não deixa de ser uma crítica à sociedade norte americana, a vida de aparências e o conservadorismo clichê. Quando um casal homossexual é citado no livro (são vizinhos de Rosemary e Guy) é possível perceber um tom na voz do narrador no seguinte parágrafo, quando se trata das pessoas do edifício:

“Nem sombra, contudo, das Irmãs Trench (comiam criancinhas, literalmente), nem de Adrian Marcato (o bruxo mor, um dos pioneiros da magia negra) e Keith Kennedy, Pearl Ames (seus seguidores), ou seus atuais equivalentes, Dubin e DeVore eram homossexuais, e todos os demais pareciam gente absolutamente comum”

É claramente perceptível que eles não são citados como gente comum e sim junto com as irmãs canibais e com o líder da magia negra. Atuais equivalentes. Gente diferenciada? A visão que os Castevets tem de religião também é digna de nota: indústria do entretenimento. Quando o Papa visita a cidade, eles dizem: “figurinos, rituais…é assim em qualquer religião, não só no catolicismo” e “o quanto que gastam em jóias, minha nossa”.

Assim como o filme O Exorcista, o Bebê de Rosemary tem um background macabro de acontecimentos no histórico de produção do filme. Um ano depois do lançamento do “Bebê”, Sharon Tate, mulher de Polanski, foi assassinada pela seita de Charles Manson, que por sua vez culpou o Álbum Branco dos Beatles sobre cometer as atrocidades. Vale ressaltar também o fato de John Lennon ter sido assassinado em frente ao Edifício Dakota em Nova York, local onde morava.

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O Bebê de Rosemary não utiliza artifícios como sangue e gore. É um terror psicológico de alto nível justamente pela sua natureza realista (pode acontecer com qualquer um, até comigo, que suco de couve é esse, mãe?), pela reflexão da existência de sociedades secretas. Há muito tempo que bruxas não são mais representadas com nariz pontudo e sem atrativos. São todos trabalhados na elegância e na inteligência, além de estarem ligados a pessoas importantes como grandes pensadores ou filósofos.

O longa foi um dos precursores de filmes como O Exorcista e A Profecia. Mia Farrow está estupenda como Rosemary. John Cassavettes faz Guy e Ruth Gordon está divina como Minnie Castevet, papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Assista abaixo ao trailer do filme:

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Pra finalizar, a trilha de Krzysztof Komeda captura cada momento do longa brilhantemente. Seja os momentos felizes em família como os de tensão, os cânticos dos representantes da seita e, claro, a paranóia sem limite de Rosemary. Por exemplo, esta composição do filme soa como uma agradável música ambiente de um dentista sádico prestes a te estribuchar:

Livro e filme magistrais. Não tem como falar “o livro é melhor”, porque a adaptação é tão fiel que não é possível colocar um acima do outro. De verdade. Não vai se arrepender. Desconfie daquele seu vizinho prestativo e bonzinho. Dica de amigo.​

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Crítica Literária | Misery: Louca Obsessão

Acho que desde Fahrenheit 451 de Ray Bradbury que não temos uma crítica literária aqui no Blog do Alves. E o livro a quebrar esse hiato será um do Stephen King, MISERY: LOUCA OBSESSÃO, publicado em 1987 e reeditado este ano pela Suma de Letras. Vamos lá, sem delongas, porque tô ansioso pra começar a falar.

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A história começa com um acidente de carro numa nevasca no inverno de 1987 envolvendo Paul Sheldon, o famoso escritor de livros de suspense. Mas calma: será suspense mesmo? Misery, a série de livros criada por ele, nos parece, a primeira vista, mais melosa e florida do que suspense. Suspense (e terror) é o que ele vai passar nas mãos de sua salvadora, Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que se intitula sua “Fã Número 1”. Até deu o nome da heroína à sua ~~porquinha~~ de estimação. Ela cuida dele com a maior dedicação possível, o alimenta por intravenosa, etc.

Sob a desculpa da forte neve que cai lá fora, ela diz que não pode levá-lo a um hospital, nem ligar pra sua agente (linhas de telefone com defeito, aham sei). Aparentemente, Annie se mostra tranquila cuidando dele, sem novidades. Até ela descobrir que sua querida e favorita personagem, Misery Chastain, morre no final do último livro publicado. Aí a gentileza acaba e o inferno começa.

Sheldon ganhou muito dinheiro com a série de livros da Misery, mas não ia muito com a cara dela. Quando ela morreu no parto nas páginas finais do último romance, O Filho de Misery, milhões choraram e ele também: de rir. “Finalmente, a vaca tonta bateu as botas”. Ele tinha escrito um novo romance contemporâneo sobre um ladrão de carros, com uma linguagem das ruas mesmo, enfim, um extremo do estilo que tinha colocado seu nome no topo da lista dos best sellers.

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Sobre o inferno: ele acaba de começar. E Paul Sheldon sabia que não sairia dele por tão cedo. Ele duvidava muito que Annie não ligou pra sua agente por causa da nevasca. Óbvio que isso seria a última coisa que ela faria. Se livrar da companhia de seu adorado Paul Sheldon, seu escritor favorito no mundo inteiro? Já no começo da trama, ela obriga seu hóspede a tomar o Novril (analgésico) com água suja. E não, não tem a opção de tomar a seco, como das primeiras vezes. Algo como “castigo da mamãe”: dói mais em mim do que em você, querido. Quando fica depressiva, Annie se mutila sem dó. E resta torcer pra que não desconte o mau humor no pobre do escritor inválido. Mas claro que isso não vai acontecer, não é mesmo?

Annie se dizia movida por Deus, alegando que colocaria Paul Sheldon nos eixos e daria uma segunda chance a ele. Uma chance de consertar o terrível erro de matar sua heróina. Uma churrasqueira, fluído acendedor e um fósforo. “Vamos, queime esse lixo. É pro seu bem, Paul. Sabemos que essa é sua única cópia, porque você não se leva a sério”. Assim: curta e grossa (grossa mesmo, oh ok, sem referências ao tamanho da nossa Anniezinha). Adeus “Carros Velozes”, o universo do ladrão de carros Tony Bonasaro. E olá, Misery. Sim, ela o obriga a ressuscitar Misery Chastain. “O Retorno de Misery” será escrito. Por bem ou por mal.

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Quando Annie descobre que Paul andou saindo do quarto (uma vez pra pegar remédios e alguns alimentos na despensa e a outra pra bisbilhotar suas Doces Lembranças, o que verão a seguir), usou a história dos caçadores de diamantes como exemplo. Matar não era viável: tinham que garantir que eles não fugiriam. Daí o pé decepado. No filme, apenas quebrar as duas pernas funcionou melhor. (Sim, há diferenças do livro pro filme, também a seguir).

Sobre as Doces Lembranças: Annie mantém um caderno com recortes de jornal com obituários e êxitos em sua carreira de enfermeira. Mas não é só isso. Paul descobre todas as mortes em que ela se envolveu, incluindo crianças recém nascidas, além de mortes mais antigas, como uma colega de faculdade: o gato da colega comeu veneno, subiu até a escada, onde sua dona, provavelmente bêbada, tropeça nele. Annie, religiosa fanática, não aceitava o temperamento da colega. Aliás, esse comportamento religioso se mostra no decorrer do livro e do filme. Não aceitar palavrões, por exemplo, chega a ser irritante. É a partir dos palavrões que o lado psicótico dela começa a tomar forma. Ainda antes de ela descobrir a morte de sua heroína. Religião: um elemento que nos lembra Carrie, não é mesmo? Hoho.

A trama de Misery é eletrizante, mesmo com dois personagens, o livro fica praticamente colado nas mãos. Adaptado pro cinema em 1990 pelo diretor Rob Reiner, contou com a brilhante atuação de Kathy Bates no papel da nossa querida Annie Wilkes. Eis a reação da Annie das telas ao saber que a Annie das páginas de King é bem mais barra pesada do que ela:

10406891_969453159747021_2031378018868768431_nExistem algumas diferenças do livro pro filme que devem ser levadas em conta. Mais personagens foram adicionados, para dar mais liga na telona. Xerife local, Buster, e sua sarcástica esposa, Virgínia. No livro, aparecem policiais em Silver Creek para investigar, mas que não vivem o suficiente pra contar a história. Annie não dorme em serviço. “Faça algum barulho, Paul, e eu mato você. E depois me mato”. Bem, outros policiais locais vão aparecendo e…enfim, só lendo mesmo. Se eu falar mais, estraga a brincadeira.

Sobre a escrita do Stephen King: um lance que já havia reparado em Carrie, por exemplo, é o uso dos parênteses que indicam o pensamento do oprimido. A paranóia é uma personagem principal dos livros de King. Parênteses esses que funcionam como um flashback. A metalinguagem é primorosa também: escrever um livro dentro do outro, refletindo até na diagramação (os Ns escritos a mão, já que a máquina de escrever Royal comprada por Annie tinha a letra N faltando – bem, a letra E e a letra T amb m cairão no d corr r da trama e oh ok parei.

King é um sacana: criou uma personagem mala adorada por gordinhas carentes comedoras de pasta de amendoim e odiada pelo seu criador. Aplausos pra ele. Nem Sheldon aguentava mais Misery. A série de livros é por demais melosa. Somos obrigados a ler o processo de criação do “Retorno de Misery” e bem, confesso que não é o melhor momento do livro. A não ser que o leitor goste de histórias melosas. Sinto que pedras virão ao meu encontro depois dessa declaração, mas é o que é: a maldade de Annie para com Paul que rege as 326 páginas de Misery: Louca Obsessão. A brilhante ironia de tudo isso reside no fato da série Misery ser odiada por Sheldon. Mas foi com Misery Chastain que ele chegou onde chegou, financeiramente falando.

É, Paul. Você foi salvo da morte. Para entrar no inferno. Se você vai sair dele, bem…só lendo pra saber. Um thriller psicológico pra ninguém botar defeito.

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PS.: Sobre o uso do remédio fictício, Novril, King teria afirmado ser uma metáfora sobre a sua própria dependência das drogas e ao modo como, na época, a família dele o teria ajudado a resolver o problema.

Ausência de Movimento

Ainda escuro, ele saiu de uma festa/reunião. Entrou num prédio público aparentemente com o intuito de ir ao banheiro. A porta entreaberta, viu uma cena visceral, stripped down, que o fez recuar. Ao sair do misterioso prédio, num intervalo de tempo que não chegou nem a um minuto, constatou que o céu clareou.

Aquelas ruas cinzas e tristes indicavam uma segunda de manhã. Uma biblioteca abandonada sempre sintonizada no mesmo canal. Teriam os livros se recusado a entrar em extinção? Aqueles corredores não viam alma alguma há muito, a não ser a do velho senhor responsável.

Ao longo de uma década, a mesma pessoa era a responsável por um surrado carrinho de pipoca. Ausência de movimento. A temida rotina assustava aquele jovem há mais de dez anos.

FAHRENHEIT 451 | Análise Literária e Cinematográfica

(Não se incomodem com o uso do discurso indireto-livre neste post. É natural o blogueiro entrar na pele da personagem. Isso acontece quando ele menos espera. Sejam pacientes. Ou simplesmente caiam fora antes de começar a ler.)

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Queimar era um prazer. Excitante. Ninguém podia com o fogo. O crepitar das chamas era equivalente a um grande teatro, onde cada nota ecoava como uma grande orquestra sinfônica. Todos paravam pra ver o fogo: quem por ali passava e, claro, o responsável por ele. A água podia apagá-lo, mas não podia apagar sua essência, seu brilho da memória dos mortais. Assim como os livros. É justamente aí que reside a analogia dessa história que será contada. Hoje em dia, certas pessoas pessoas dizem que “livro” seria um bom elogio. “Oh, você está tão ‘livro’ hoje”. Bem, justamente nas páginas deste romance em questão, existiram, de fato, as “Pessoas-Livro”. Bem, essa parte ainda será contada. Tudo ao seu tempo.

Como pôdem ter visto no título da postagem, trata-se do romance visionário (você vai entender o porquê de ele ser visionário mais pra frente) de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, publicado em 1953. “Por que o número 451, o que ele significa?”, perguntou Clarisse McClellan. É a temperatura que as folhas dos livros atingem ao serem queimadas. Este romance de ficção científica trata-se de uma distopia: termo que pode ser usado como um fingimento pra falar do futuro quando, na verdade, nada mais é que uma crítica ferrenha ao passado e o presente.

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Imaginem um lugar onde os livros ameaçam totalmente um sistema. Um sistema totalitário onde a leitura é terminantemente proibida. Um lugar onde balanços e bancos de praça deveriam ser destruídos, porque só de pensar em pessoas sentadas conversando, devaneando, era inadmissível. As pessoas paravam de ler por conta própria, por medo de sofrerem repressão do governo: “vamos, leia o livro:  não tem nada de interessante nele, mas sabemos que a curiosidade pra saber o que contém nele te corrói”. Literalmente. O querosene e as chamas que o digam. Aquela “falsa liberdade”. Liberdade que o homem jamais poderia suportar.

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Guy Montag, o protagonista, é um bombeiro que passa por uma séria crise existencial e percebe que vive uma vida de mentira ao lado da esposa Mildred, que passa o dia na frente da TV com seus “parentes” televisivos ou com fones de ouvido, isolada do mundo real. Todos nessa época em questão chamavam uns aos outros de “primos”, claro, pra forjar certa cortesia e interesse pelos demais. Clarice McClellan, uma jovem “pensante”, diferente de todos os outros (exceto os próprios tios), reflete sobre o mundo e o que tem nele, diferente de todos, ela olha as pessoas nos olhos e gosta quando os outros demonstram o mesmo interesse que ela.

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Depois que Guy a conhece, ele fica ainda mais fascinado pelos livros, livros que ele mantinham escondidos por anos até da esposa. Ironicamente, durante e depois da reflexão toda, o bombeiro recebe uma proposta de promoção no emprego do Capitão Beatty, chefe da equipe, inquisidor-mor. Abomina os livros mas, por outro lado, sabe cada citação de cor. Sabe muito bem o que deseja destruir. Faber, um ex-professor que trabalhava numa editora antes da proibição dos livros, se torna uma espécie de esperança ao bombeiro e o ajuda na missão de se rebelar contra a ditadura em que é obrigado a viver, lutando pela preservação da memória, pelos pensamentos. Numa das missões, Montag e Beatty passaram na casa de uma mulher que se recusou a sair de dentro de sua imensa biblioteca particular. Depois de terem espalhado todo o querosene, a própria acendeu um fósforo e se perdeu dentre as chamas. Ela conhecia a lei. Só se recusou a seguí-la a risca.

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Antigamente, os bombeiros apagavam incêndios. Hoje, eles começam um. Porque é viável pra eles. É viável pro sistema. Sistema que prega a igualdade, igualdade essa ameaçada pelos livros. Mas o que tem de tão ameaçador neles? A resposta já está presente na própria pergunta. Vejamos, “Ética”, de Aristóteles. Qualquer um que tenha lido, vai se achar um passo a frente do outro. E bem, não é isso que o governo quer. A única forma de atingir a felicidade é: todos devem ser iguais.

Essa era a desculpa de Beatty para a exterminação dos livros: trazer felicidade ao mundo, superar o preconceito. O intuito era se livrar de tudo aquilo que incomodava, que os forçava a pensar. Mas até onde isso seria positivo? A mulher de Montag não se lembrava de como conheceu o marido ou o que fazia em tal dia…Detalhes importantes sobre a vida eram esquecidos graças a vida vazia, onde a conversa e as lembranças não tinham poder algum. “Comprei um presente pra você pra comemorar…bem, esqueci o que exatamente, mas espero que goste”. Reflitam. Veja bem, ele não queria exterminar a comunicação em si: só queria evitar que aquilo se tornasse profundo demais. Profundo. Saber demais se tratava do ego inflado, da prepotência.

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Exemplos. Um livro sobre câncer de pulmão…”Os fumantes estão preocupados, para tranquiliza-los, nós queimamos o livro”. Na escola, sempre tinham raiva daquele que sabia de tudo, daquele que sabia de todas as respostas das perguntas. Era sempre o tirado pra Cristo pelos demais alunos. Saber mais era, automaticamente, o inferno que o indivíduo teria que suportar pelo resto da vida, de acordo com Beatty. Os escritores eram sempre cheios de si com suas teorias e filosofias baratas que, no final de tudo, eram sempre as mesmas. Um livro é uma arma carregada na casa do vizinho. A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas. Não deixe a melancolia infestar nosso mundo de felicidade.

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Beatty estranha o comportamento de Montag e desconfia que ele esteja escondendo alguns livros que rouba durante as missões. Eis que, logo depois de Guy pedir demissão do corpo de bombeiros, o capitão pede que ele se junte a todos pela última vez. Guy fica sem palavras quando percebe que o carro para em frente a sua própria casa. A máscara caiu. Assim como seus livros de cada esconderijo. No livro, uma denúncia anônima. No filme, adaptado com louvor por François Truffaut em 1966, sua mulher Linda (no livro ela se chama Mildred), o denuncia, pois não suportava mais a casa, o ambiente.

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Linda representava o povo: o medo daquilo que ela desconhecia, daquilo contido nos livros. Quando ela tocava um livro sem querer, ela se assustava, como se estivesse tocando num rato morto. Sempre se teme aquilo que não é familiar. Sobre o final de Beatty: fascinante. E pode-se dizer que ele provocou o próprio desfecho. E por vontade própria. Curioso. Tanto no livro, como no filme, é o mesmo final. Sem mais detalhes.

Sobre as “Pessoas-Livro”. Os rebeldes que conseguiam fugir se refugiavam em florestas próximas a linhas de trem e memorizavam o conteúdo dos livros pra quando o regime passasse. Daí o nome “Pessoas-Livro”. A frase “você está tão ‘livro’ hoje” nunca fez tanto sentido. Logo depois de acabar de ler um livro, queimavam-no. Claro, logo depois de memorizá-lo. Você até pode destruir o livro físico, mas não pode apagá-lo de vez da memória de cada um deles.

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No prefácio do livro da 2ª edição do Fahrenheit 451 publicada em 2012, Freud, ao saber que seus livros estavam sendo queimados em praça pública pelos nazistas em 1933, disse: “Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, se contentam em queimar meus livros”. Assim como os discos dos Beatles queimados por religiosos fanáticos depois da polêmica (e mal interpretada) frase de John Lennon: Os Beatles são mais populares que Cristo. Ringo Starr disse: “Ah, não tem problema: eles vão comprar tudo de novo mesmo”. O título da obra de Salvador Dali, Persistência da Memória, se encaixa perfeitamente aqui: essa era a única forma de salvar os  livros: armazenando-os num lugar onde ninguém poderia tirar.

Atualmente, claro, a leitura não é proibida. E muito menos valorizada. A população atual, por que não?, adoraria viver neste lugar, onde o superficial e a imagem eram mais importantes que qualquer coisa. Como viver com alguém repreendendo pensamentos ou tentando bloqueá-los? O sistema quer cada vez mais pessoas desinteressadas (lê-se burras) para que possa dominá-las apenas com diversão. “Mantenham-nas se divertindo, mantenham-nas sempre em movimento”. Se pararmos pra pensar, isso não é diferente da nossa realidade. Daí o motivo de Fahrenheit 451 ser considerado um romance visionário. Ele se passa numa época não muito distante da nossa. E o pior de tudo: os livros não precisam virar cinza pra provar isso tudo. Pra provar o atraso mental.

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O filme dirigido por Truffaut é bem fiel ao livro, apesar de sutis mudanças no decorrer de algumas cenas em relação às páginas. De mudanças sérias, as únicas são a ausência do Sabujo – o cão de caça mecânico farejador – e do velho sábio Faber, ex-professor. Não vou dar mais detalhes, pois é importante que você leia e assista pra comparar. Como eu sempre digo, nada de estragar surpresas. E ah, por último, mas não menos importante: a trilha sonora é de ninguém menos do que BERNARD HERRMANN. Sim, os violinos freneticamente friccionados dele também se encaixaram como uma luva no longa.

Outro questionamento interessante: de onde vem o sangue? Vejam bem, quando Linda (Mildred) é encontrada desacordada por Montag em seu apartamento por ter tomado comprimidos supostamente pra insônia, ao invés de chegar um médico, vem dois enfermeiros e substituem o sangue dela e ela fica nova em folha. A pele fica alvíssima e Linda fica radiante e no outro dia ela nem lembra que desmaiou. De onde vem o sangue? Será um simples banco de sangue? Ou será sangue daquele que desobedeceu a lei? É tão fácil assim substituir todo o sangue do corpo de uma pessoa? Uma pessoa tem cerca de 5 ou 6 litros de sangue, só pra constar.

Apesar de algumas linhas desses parágrafos parecerem spoilers, acreditem, elas não são completas. Pra buscar as respostas com exatidão, leia Fahrenheit 451.

PS.: A cena dos livros sendo folheados pelo vento e queimados em seguida é dolorosa, mas não deixa de ser poética. Truffaut acertou em cheio. Poesia visual. Além de diversas obras conhecidas serem citadas. Uma verdadeira (e singela) aula de literatura.

Confira a ficha técnica do filme no Filmow http://filmow.com/fahrenheit-451-t4999/

Obrigado, de nada.

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Psicose | Romance de Robert Bloch será relançado no Brasil (!)

Não consigo falar. Alguém me traga meu saco de pão pra respirar.  Vai o que saiu na imprensa:

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50 anos indisponível, sabem o que isso significa? A Editora Dark Side, que é muito atenta, vai relançar o clássico livro que inspirou o clássico filme do Hitchcock. A obra estará disponível em 2 versões, a brochura normal (com a capa do ralo):

 Psycho (ed simples)

E a edição limitada-que-não-é-exatamente-limitada HARDCOVER (já encomendada, beajs) com fotos do filme (detalhe na tipografia oficial do filme):

Psycho (ed limitada)

Além de todo o suspense em torno do filme – não permitindo a entrada de pessoas nas sessões após os créditos iniciais do filme – Hitchcock adquiriu os direitos do Romance de Bloch e depois comprou todas as cópias do livro disponíveis no mercado. Logo, ninguém leria o final, para que ele conseguisse manter o desfecho da obra.

Isso é que é notícia boa, gente. Eu li a edição importada no começo do ano, pois ainda não tinha lido (uma vergonha).  Aposto que o lançamento tem a ver com o filme “Hitchcock”, com Anthony Hopkins (baseado no livro do Stephen Rebello, dos bastidores do filme) e, claro, com a transmissão da primeira temporada de BATES MOTEL (todos os episódios assistidos por sinal, mal posso esperar pela segunda temporada) no Universal Channel.

Agora é só esperar chegar e ler de novo. E de novo. E de novo. E oh ok, saí.

Ahhh, o blog QUINZE PRIMAVERAS ESCRITAS recebeu o press kit da Dark Side. Olha só, que irado:

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Isso é que é divulgação em grande estilo. A Dark Side, cuja temática é direcionada a livros de terror/suspense, tem várias coisas legais no catálogo, vale a pena conhecer mais a editora: http://www.darksidebooks.com.br/

Alves da Dislexia

Realmente, Antoine [ do “Como Me Tornei Estúpido] personificou minha dislexia no McDonalds, quando a atendente perguntou:

– Bebida?
– Sim, certamente. Perfeito.
– Que bebida o senhor quer? – perguntou a moça, excedendo-se um pouco.

Um pouco, claro. Todavia, esses surtos disléxicos SEMPRE me lembram do clássico, do único, do mítico:

– Crédito ou débito?
– SIM.

Risadas eternas (e malévolas, por não?) ecoando pelo universo.

O Lado Bom da Vida: Mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá

O indivíduo se recusa a ir ao cinema, apenas porque está disposto a assistir ao “filme da própria vida”. Engraçado que a vida dele nem é lá tão interessante assim. Mas ainda assim, ele tenta ver o lado bom de tudo. Por mais que tenha que se esforçar pra isso.

Escrito por Matthew Quick, “O Lado Bom da Vida”, conta a história de Pat Peoples, professor  do ensino médio, acredita que sua vida é um filme e Deus é o produtor por trás. Depois de ter passado 4 anos numa instituição psiquiátrica (tempo o qual ele se refere como “apenas alguns meses”), se prepara física e emocionalmente para se reconciliar com sua esposa Nikki, depois do “tempo separados”: ele flagrou sua mulher com outro homem e se descontrolou.

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O título original é Silver Linings Playbook. A expressão Silver Lining se refere ao contorno ilumunado das nuvens quando encobrem o sol, dando a entender que mesmo numa situação ruim, algo pode soar positivo. Logo, a tradução livre do livro (e do filme, como verão a seguir) faz completo sentido e foi muito bem traduzida para o português. Não vou me ater muito à sinopse e já vou partir logo pros detalhes, porque eu não me aguento. Comentário pessoal: li o livro compulsivamente em um dia.

Voltando à história… Diagnosticado com um transtorno bipolar, Pat volta a morar com os pais e tenta recuperar sua sanidade e mudar completamente seu jeito de ser drasticamente – tudo pelo bem de sua tarefa e sua obsessão por enxergar seu “final feliz”. Ele se recusa a enxergar qualquer coisa além do seu final feliz.  Pat está completamente cego pela idéia de que Nikki vai voltar a amá-lo algum dia e passa a ler todos os  livros que ela passa na aula de Literatura para os alunos.

O pai de Pat o trata com completa indiferença e não sabe lidar com o fato de o filho ser um “doente mental” – é assim que ele se refere ao filho. Não abertamente, claro. Mas deixa subentendido. Os amigos o tratam diferente e a esposa se recusa a vê-lo e evita comentar o que realmente aconteceu. Pat quase matou o amante da mulher de pancadas e depois do diagnóstico dele foi criada uma ordem de restrição judicial, na qual ele teria que ficar a pelo menos 150 metros de distância da ex-mulher, com a qual ele ainda sonhava em se reatar.

A música Songbird do Kenny G atormenta Pat ao extremo, porque foi a música que tocou em seu casamento e foi a música que estava tocando enquanto sua mulher estava na banheira com outro. E ele não aguenta os “acordes sensuais do sintetizador” mesclado ao solo de saxofone. O medo quase infantil que ele tem do saxofonista soa um tanto engraçado. Aliás, depois do “incidente”, Pat se mostra cada vez mais infantil, o que o torna cativante: a inocência com a qual age.

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Como Pat lida com essa ilusão e com a indiferença do pai? Se tornando uma pessoa extremamente sensível e fazer coisas boas que, antes, ele não tinha o hábito de fazer. “Estou praticando ser gentil ao invés de ter razão”, diz ele.  Mas é bem como dizem: é preciso passar por experiências desagradáveis pra aprender a analisar melhor a vida. Como uma retrospectiva ambulante. A vida inteira passa por nossos olhos, como numa fita de vídeo. Como na morte, imagino. Oh ok, foco. Viciado em exercícios físicos (ele corre vestindo um saco preto de lixo que, segundo ele, serve pra ajudar a suar e, automaticamente, emagrecer), Pat está obcecado por seu final feliz. Entretanto, mal sabe ele que a vida tem um jeito engraçado de mudar completamente o ritmo sem alterar a felicidade no final.

Um dos melhores momentos é o surto dele ao perceber que Nikki passa livros com finais deprimentes às crianças na escola em que leciona. Ele fica doente de raiva ao ler “Adeus às armas” de Hemingway. Mas o motivo pelo qual ele faz isso – se interessar pelo que Nikki gosta – é “derramar sabedoria” e jogar na cara das pessoas que o chamavam de “iletrado”, o estereotipando, já que ele sempre prezou por seu corpo e por ser forte. Outro surto ótimo é quando o vídeo do casamento dele com Nikki some e ele acorda a vizinhança inteira, aos berros, como se estivesse morrendo de dor no pâncreas. Oh wait. Estou falando do filme. Enfim, foco [2].

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Aliás, o livro demonstra bem sua força. Coloca a força física dele em evidência, devido a malhação e a academia particular. Torcedor fanático do Eagles – assim como seu pai e seu irmão Jake – tenta tornar esse fator em comum em algo positivo para se aproximar do pai. Em vão. No final, ele acaba falando com o filho quando dá vontade. Então ele aproveita isso. “Ser gentil é melhor que ter razão”, lembra? Pois é.

Quando achamos que a história não poderia ficar mais interessante, PLU: aparece Tiffany na vida de Pat. Tiff é irmã da mulher de seu amigo, Ronnie. Jovem depressiva que ficou viúva muito cedo e foi demitida do trabalho por transar com todo mundo do setor (“fiquei carente depois que Tommy morreu”), passa a seguir Pat em suas corridas diárias e estudá-lo detalhadamente, o que o assusta a princípio. Ele chega a dizer que seria melhor que ela se mantesse longe dele, mas não é o que acontece.

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A “loucura” de ambos é o que os tornam cada vez mais unidos, apesar de umas briguinhas aqui e ali. Não, não soa como comédia romântica. É bem mais do que isso. Sabem por quê? Porque não são enxergados como pombinhos e sim como um casal problemático julgado aos olhos de todos ao redor. Casal que se completa. Tiff promete ser a mensageira entre Pat e Nikki, já que a justiça proibiu eles de se encostarem. Só que Tiff, em troca desse favor, o convence a participar de um concurso de dança com ela. Até Pat descobrir que quem envia as cartas pra ele era… SPOILER DETECTED. Calar-me-ei.

A relação de Pat com seu irmão, Jake, é boa e amigável. Ele acaba descobrindo que seu irmão casou enquanto ele esteve no “lugar ruim” e sua mãe escondia vários detalhes de coisas que ocorreram que, aos poucos, ele foi descobrindo. Cliff Patel, psicólogo de Pat, vive testando sua índole, perguntando se ele transou com Tiffany, o que o irritava de verdade e ele sempre respondia: “sou casado” *mostra aliança* E o relacionamento dele com o terapeuta se torna ainda mais engraçado quando eles se descobrem torcedores fanáticos do Eagles. Aliás, tem partes no livro onde só se fala: “voem Eagles, vai Eagles”… é futebol que não acaba mais. Argh. Mas isso não torna o livro menos interessante, pelo contrário. A história de Pat Peoples é muito rica. Mas ok, sem mais detalhes. Vamos às pequenas diferenças entre o livro e o filme.

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O livro de Matthew Quick foi adaptado para as telonas sob a direção de David O Russell e chegou ao Brasil este ano. Com Bradley Cooper (Se Beber Não Case) como Pat, Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes) como Tiffany, Robert De Niro (Taxi Driver) como Patrizio, pai de Pat e Jackie Weaver como Dolores, mãe de Pat. Em sua essência, o livro não difere tanto do filme, mas alguns detalhes ricos, infelizmente, se perdem (como é de se esperar). No livro, Pat soa um pouco conformado apesar de tudo. Mal de lembra das coisas e  pergunta coisas sobre o passado e presente, as quais os pais tentam omitir dele sem sucesso. No filme ele é mais intenso, mais ativo nas atitudes, por assim dizer. Tiffany mal abre a boca no livro: é mais depressiva a la Funérea do que o previsto. No filme, ela o persegue o tempo todo e fala bastante. Afinal, ela percebe que não pode viver sem Pat. Danny, o amigo de Pat, aparece mais no filme do que no livro. Acho que é pra suprir a falta de enredo de Jack, que no livro aparece bem mais.

No livro, na cena do “concurso” de dança (sim, entre aspas porque na verdade nem chega a ser um concurso, diferente do filme), há uma magia bem detalhada e a música tocada é Total Eclipse of the Heart. Os passos de dança são precisos – saltos, giros, equilíbrio (devido à habilidade de Tiffany com a dança moderna). Diferente do filme, que é outra música e os passos, apesar de bem feitos, não tem a precisão profissional que as páginas indicam.  No livro, o pai é intensamente distante de Pat e nem fala com ele. Só fala com ele ao ser chantageado pela mulher. Já no começo do filme, ele interage melhor com o filho e fala bem mais com ele. E quanto a ordem de restrição judicial de Nikki…? Balela. Afinal, o que ela fazia no concurso de dança? E o medo que ela sentia dele? Sumiu do nada? Apesar das diferenças e da rapidez com que certas coisas, caminham, o filme é digno de ser assistido muitas e muitas vezes.

Indicado a oito Oscars – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Edição e Roteiro Adaptado – O Lado Bom da Vida só levou uma estatueta pra casa: a de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence, que está perfeita no papel. Ela realmente convence no papel da jovem viúva problemática e temperamental. A emoção foi tanta que ela até caiu, hahahaha! Merecido.

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Obrigada, senhor, por este Oscar. Amém!

Com esta indicação de Melhor Ator, Bradley Cooper deixou pra trás o estereótipo de “ator das comédias românticas” e se mostrou excelente nesse papel, que é tão sério em sua carreira. Não foi dessa vez que ele levou, mas tenho certeza que ele vai interpretar mais papéis deste nível. E com o nível altíssimo das produções concorrentes este ano, era meio óbvio que ele não ia levar. Uma pena.

O filme não seguiu o livro a risca, o que é um pouco triste. Porém, não impediu que o filme fosse divertido e inteligente, apesar dos clichês hollywoodianos que tendem a aparecer no final de longas do estilo. Pode ser que uma nova vertente tenha sido criada com O Lado Bom da Vida: comédia romântica que não foca no amor e em risadas o tempo todo e sim nos problemas psicológicos dos protagonistas, onde eles podem se explorar melhor e, a partir daí, criar situações inusitadas e, o melhor, que cativem o público.

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Filme ótimo. Livro melhor ainda. E é justamente como o título original propõe: mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá.

Crítica instantânea | O Estrangeiro: Albert Camus

“Como se essa grande cólera tivesse lavado de mim o mal, esvaziado de esperança, diante dessa noite carregada de signos e estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Ao percebê-la tão parecida a mim mesmo, tão fraternal, enfim, eu senti que havia sido feliz e que eu era feliz mais uma vez. Para que tudo fosse consumado, para que eu me sentisse menos só, restava-me apenas desejar que houvesse muitos espectadores no dia de minha execução e que eles me recebessem com gritos de ódio.”

(O Estrangeiro, Albert Camus)

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Ao terminar de ler este romance existencial francês, eu pensei: nem sempre frieza anda junto com maldade. Matou um homem? Matou. E daí? Camus tem por objetivo unicamente chocar as pessoas com atitudes repulsivas, mas, nem por isso, o personagem foi feito no molde da maldade.

Na verdade, os sentimentos do protagonista em questão são mais importantes do que o crime que ele cometeu. Só porque ele não chorou e nem demonstrou sentimento algum pela perda da mãe, ele pode ser tachado de assassino frio e calculista?

De acordo com ele, ninguém tem o direito de sofrer por outra pessoa. Ninguém tem o direito de chorar por alguém. A questão aqui é apenas “viver”. A falta de sentimento de Mersault é, no ponto de vista da maioria, sua carta de culpa.

Um excelente livro onde Camus expressa que somos nada mais do que animais irracionais e que a morte é algo natural. Deixando claro que o sentimento em diferentes situções não é obrigatório. E não é isso que vai denominar se uma pessoa é fria ou não.

Literatura | Crítica “Laranja Mecânica”

“A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus (ou Bog) no fim, afirmo a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta escada”

(Definição do termo “Laranja Mecânica”, página 24. Editora Aleph, 10ª reimpressão)

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Como começar a falar de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess? Quando um livro é especial e tão grandioso, chega ser difícil achar logo de cara as palavras introdutórias certas. É preciso segurança para falar de uma narrativa dessa linhagem (li-nha-gem, menino ignorante). Sim, porque pra falar de crítico (oh, que alcunha) para admirador não está me custando… Maldita tenuidade.

Junto com 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, este livro teve grande influência na literatura de ficção científica do século XX. E por ser ficção científica seria necessário algo a mais. Algo que fizesse que as pessoas acreditassem mais facilmente no enredo da história. Então, Burgess criou uma linguagem própria para os personagens, para as gangues: o nadsat. O nadsat é uma mistura do idioma russo com o inglês popular, que faz uso de uma gíria rimada e o falar dos ciganos. No começo, os termos causam estranhamento. Depois de alguns capítulos, o leitor se familiariza com a linguagem e a leitura, viciante e hipnótica, flui.

O título vem de uma expressão anglo-saxã: “as queer as a clockwork orange” (“tão bizarro quanto uma laranja mecânica”). Mas o que é exatamente uma Laranja Mecânica? É uma laranja de ferro? Não. Os caroços dela não passam de parafusos? Tampouco. O termo “clockwork” faz alusão a alguma coisa mecânica e manipulada, algo programável. Já “orange” tem semelhança com a palavra “orangutan” (um macaco alaranjado), logo, um animal. A intenção do título é se referir ao Alex, protagonista, narrador e amante da violência, sobre o fato dele deixar de ser um “animal” e tornar-se “mecanicamente” bondoso por uma técnica suspeita do governo (que vocês verão no decorrer do texto), a fim de exterminar o crime, tornando o jovem apto para viver em sociedade e programado apenas para fazer o bem.

Publicado em 1962, Laranja Mecânica não é apenas um livro transgressor e muito a frente do seu tempo, como também tem seu enredo muito próximo da realidade. Provavelmente seja esse o fator que o difere dos demais livros e que o coloque no pedestal que ele merece. Agora, por que ele é próximo da realidade? Quer algo mais real e tão presente na vida do ser humano do que a violência? Duvido muito que o termo violência se encaixe na descrição deste romance. Os atos narrados pelo protagonista ultrapassam o significado da palavra violência. Ultraviolência se encaixa melhor. Aquela que causa prazer, excitação, arrepio. E o mais interessante disso é que não é sangue barato, violência tapa buraco. Não basta ser violento. Tem que ser elegante. Burgess ambienta Laranja Mecânica numa Inglaterra futurista inexistente, onde a violência juvenil se tornou insuportável e a única forma de erradicá-la foi a intervenção do governo com técnicas de condicionamento de conduta, de comportamento. O drugui (amigo) Alex, protagonista e narrador, tem três prazeres dos quais não abre mão (ainda). São eles: a ultraviolência, o sexo e a música clássica.

Sarcástico, malvado e inescrupuloso, Alex DeLarge mora com seus pais e inventa desculpas para não ir pra escola. Já se meteu em encrencas e foi “resgatado” por P.R. Deltoid, seu conselheiro pós-correcional. É um boêmio. Está sempre em companhia de seus três druguis: George, Pete e Tosko (Dim, no idioma original). Autoritário, quer manter seu posto de líder do grupo, o que causa irritação nos demais. O point deles é Lactobar Korova, um lugar onde são servidos copos de moloko (leite) com velocet e sintemesc (ambos traduzidos como “droga alucinógena”) e etc. A vida dele se resume em perturbar a paz dos cidadãos trabalhadores, além das belas devotchkas (garotas). Durante um ataque, depois de um desentendimento, Alex é traído por seus druguis e não consegue fugir do local do crime. É sentenciado a 14 anos de cadeia. Então ele tem a oportunidade de participar de uma experiência desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Essa experiência é tão dolorosa quanto a ultraviolência praticada por ele: o tratamento Ludovico.

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O Tratamento Ludovico consiste numa sessão de cinema com filmes grotescos e nojentos (cenas de estupro, mutilações corporais, etc). E ele não podia fechar os olhos, sendo molhados com colírio. Não tinha como virar o olho pro outro lado e etc. No começo era até agradável para o nosso herói. Tanto que era engraçado como as cores da vida real só pareciam bem mais reais quando reproduzidas numa tela. Sabe aquele papo da imagem e sua representação? Quando algo é captado por uma câmera, quando entra na “mira” de uma câmera, tudo o que está ao redor não tem mais importância. É como se aquela imagem tivesse sido propositalmente moldada para estar ali. Tudo culpa da representação. Representar é uma palavra que soa, naturalmente, falsa. E isso não é um defeito, muito pelo contrário. Para o Alex, fazer aquelas coisas horrorshow (emocionantes) era uma coisa. Era prazeroso estar naquele ambiente, ver o sangue jorrar. Agora videá-las no lugar de espectador era outra. Não só se sentia culpado, mas era doloroso e enjoativo assistir, devido às vitaminas do tratamento. Para piorar as coisas, colocaram Ludwig van Beethoven como trilha sonora. Por favor, me matem. Qualquer coisa menos utilizar Ludwig van nestes vídeos repugnantes. Ele só fazia música. Ele não tem culpa de nada. Música clássica, no caso usá-la daquela maneira negativa, era o elemento de punição para que o efeito final fosse certeiro.

Essa tática drástica impele, naturalmente, a sua cobaia para o bem. Assim, ela jamais será capaz de fazer algo maldoso novamente contra qualquer ser vivo. A questão de “condicionamento de marginais” é bem mais complicada do que parece. Essa técnica faz com que a vítima não tenha mais poder de decisão. É como transformasse a pessoa numa máquina de fazer o bem, e só. Presa aos atos socialmente aceitáveis, ao ser maltratada, não consegue se defender. No caso de Alex, coisas que antes proporcionavam prazer: a música clássica, a literatura, o ato sexual, a arte de maneira geral, agora são consideradas como fontes primais de dor. Covardia (pra não dizer heresia) sentir dor de cabeça e vontade de se suicidar ao ouvir Ludwig van, Mozart ou Handel. No final das contas, o pobre, humilde e agora inocente narrador era um homem livre. Que tipo de liberdade é essa, condicionada? Os questionamentos que ficam no ar: o que será da vida do novo (e restaurado) Alex? Como ele será recebido pelos velhos conhecidos dele? Será que realmente valeu a pena ter saído 12 anos antes da prisão?

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Laranja Mecânica foi magnanimamente adaptado para o cinema em 1971 pelo diretor Stanley Kubrick. Malcolm McDowell deu vida (e muito bem dada, pfvr mito) a Alex DeLarge. Apesar do livro ter sido brilhantemente escrito, o último capítulo do livro é um tanto otimista e acabaria por destoar por demais do restante da narrativa. Para quem assistiu o filme, perceberá que o longa terminou justamente onde deveria terminar. O livro tem uma estrutura de 3 partes com 7 capítulos cada uma. Burgess escolheu a divisão em 21 capítulos porque na cultura anglo americana, a idade adulta é atingida aos 21 anos. Para o protagonista Alex, a idade adulta chega 2 anos antes: aos 19. E essa mat… é melhor eu me calar. Spoiler alert!!!!

Apesar das diferenças entre o livro e o filme, Kubrick se manteve extremamente fiel ao livro. E acrescentou alguns detalhes não citados no livro. Ele conseguiu (e com êxito) manter a essência da narrativa e os poucos detalhes que ele acrescentou deram “o tom”, diga-se de passagem. No livro não é citado que Alex tem uma cobra de estimação (Basil). Kubrick apresentou a Basil no filme unicamente por causa do medo de cobras do Malcolm. No livro, P.R. Deltoid aparece apenas para demonstrar seu papel autoritário devido a sua profissão de conselheiro pós-correcional. No filme, ele é levemente sádico e parece ter interesse sexual no jovem Alex, o que fica claro durante a conversa que os dois tem no quarto dos pais de Alex quando ele apalpa os países baixos do garoto. Outro caso do livro: o escritor F. Alexander (não vou detalhar pra não estragar a surpresa, só vou contar o “causo” por cima) estava trabalhando num texto cujo título era “Laranja Mecânica”. No filme, o título do manuscrito não é visualizado, não aludindo ao título do filme.

That’s it. Laranja Mecânica. Leiam um dos maiores romances com uma pitada (NOT, com muito humor negro) do século XX e assistam ao filme. Comparem as demais diferenças. É fantástico. É satírico. É brilhante. O filme complementa bem o livro. Tão transgressor, tão a frente do seu tempo. Por mais violentos que os filmes atuais sejam, eles não são classudos e elegantes como este. A genialidade em torno dele excita. Assim como a trilha sonora: Beethoven, Purcell, Rossini, etc. Um marco. Obrigatório. Quem não ler, vai levar um toltchok e, de brinde, um chute nos yarbles. Sem mais.

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Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

What we´re gonna do right here is go back

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