O Mágico de Oz | Impressões (Pessimistas) da Obra de L. Frank Baum

Sobre este calor infernal que anda fazendo, antes de começar minhas reflexões “Ozzianas” para dizer que minha triste sina é, definitivamente, morrer derretido assim como a Bruxa Má do Oeste. Antes derretido do que me cair a casa de uma menina boboca em cima. Aliás, o calor me deixa lesado, mas ao mesmo tempo me faz pensar. Definitivamente, depois de muitos anos de reflexão e dramas na vida, chego a conclusão de que já tenho infortúnios suficientes para estrelar um futuro filme do Lars Von Trier.

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Estava a refletir sobre o Mágico de Oz. Quando Dorothy, o Lenhador de Lata, o Espantalho e o Leão Covarde chegam na esplendorosa Cidade das Esmeraldas, eles precisam colocar óculos pra não se cegar com o brilho da cidade, toda cravejada com cristais Swarovski.

Se isso não é ostentação, então eu não sei o que é. Aliás, a pessoa não consegue tirar os óculos quando querem, porque estão trancados aos olhos de quem está na cidade swaroveska. Ou seja, nem liberdade fashion a pessoa tem.

Se devemos culpar alguém por toda essa ostentação desenfreada, esse alguém é Oz. Pra que esse brilho todo? A gente já sabe das suas posses, dotes e riquezas.

Além de ostentador, Oz era um tremendo de um picareta. Se vangloriava dizendo que era grande e poderoso, mas não passava de um ventríloquo falido demitido pelo circo do bairro. Tava mais pra Mestre dos Magos mesmo. Os óculos 4D verdes eram só pra dar a impressão de que tudo era swarovski, mas na verdade não passava de concreto cinzento e morto.

Prometeu o mundo pr’aqueles pobres diabos na condição de eles derrotarem a Bruxa Má do Oeste. Eles derrotaram a velha carcomida e ainda ganharam presentes imaginários (a esperança, a inteligência e a coragem sempre estiveram dentro de você: tudo que precisamos já está dentro de nós mesmos), pff, me poupe, meu querido. A quem o senhor quer enganar? Aqueles pobres demônios, sim, mas não a mim, com licença.

Desmascarado publicamente, prometeu levar a boboca da Dorothy de balão (pelamor, nem ar quente tinha) pro Kansas, mas teriam que atravessar o deserto e se o ar do balão esfriasse, ela ia cair no deserto e morrer congelada, já que à noite as temperaturas caem drasticamente. Mas até nisso a desgraçada foi ludibriada.

Oz acabou fugindo de balão de seu reino sozinho e deixando o Espantalho como responsável pela Cidade das Esmeraldas, consequentemente cheio de dívidas pra pagar. Pelo menos agora ele tem um “cérebro” e pode cuidar das finanças. sdds Kansas, sdds esperança na vida.

Quando o Leão vai cobrar a coragem que Oz prometeu, o fajutão dá uma “bebida” verde pra ele. “Beba”, disse Oz para o Leão, e continuou: “Bem, se estivesse dentro de você, seria a sua coragem. Você sabe, é claro, que a coragem está sempre dentro das pessoas, e então isto só pode ser chamado de coragem depois que você engolir. E por isso deve beber tudo o quanto antes”.

Depois, longe do Mágico, o Leão viu o frasco e leu: Sagatiba. Álcool e coragem: seria um pleonasmo?

Pra finalizar, uma pergunta que cabe a você, leitor, responder. Algo no ar. O Leão, o Espantalho e o Homem de lata “conseguiram” o que queriam. Menos Dorothy (hipoteticamente). Digamos que neste final alternativo ela não tenha conseguido voltar pra casa: o que teria acontecido com ela?

A) Manicômio? B) Sabotado o governo do Espantalho pra roubar seu lugar? C) Descobrir que seus tios não sobreviveram ao ciclope e logo em seguida teria sucumbido ao suicídio?

“Não há lugar como o nosso lar”. Que lar, Dorothy? Que lar?

 

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Em alguma casa à beira da praia…

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Um garoto simples conhece uma garota e logo se apaixona por ela. O motivo do amor à primeira vista? Não tem, senão não teria amor à primeira vista. Eles ficam de bobeira no quarto, apenas conversando. Com suas roupas de praia. Ele não pára de passar as mãos no cabelo dela. Alisa, alisa, alisa e ficam naquela posição por mais ou menos uns 20 minutos. O momento é quebrado pelo telefone que toca bruscamente. O homem está tão absorvido pela beleza da mulher (detalhe que no começo do texto eles são apenas “garoto/garota”, indicando que o amor “amadurece” a pessoa da noite pro dia) que nem presta atenção no que ela fala ao telefone.

Quando ela termina a ligação, ele ouve passos na calçada. É família dela. Oh não. O pânico. Como eles são distintos e finos. Será que não me acharão bom o suficiente para ela? (a insegurança clichê e o uso abusivo do discurso indireto livre: característica visível do autor) Mas ele precisava encarar aquilo. Sem a companhia da namorada, ele desce as longas escadas e caminha em direção à sala. Chegando lá, dá de cara com os pais e o irmão da garota. O irmão da garota, surfista e boa pinta, todo receptivo, já foi logo falando:

– E aí, bro. Seja bem vindo à família.

O garoto, sem entender paçocas da gentileza, nem conseguiu responder, pois o surfista correu pra praia, sem mal entrar na casa. Ele não entendia porque o “cunhado” o tratou tão bem como se já conhecesse há eras. Ambiente: só os pais da menina e o menino na sala. Se sentiu como numa entrevista de emprego, mas ao mesmo tempo seguro de si. Responderia o que fosse perguntado e é isso aí. Continuando, ele se apresentou aos culpados de sua felicidade. O senhor da casa pergunta ironicamente:

– Ei, e ai? O que aconteceu aqui, afinal?

Assustado e nervoso, porém tentando mostrar um resquício de segurança, disse:

– Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. (repetição devido ao nervosismo). O que pode ter acontecido, oras?

– Te assustei, huh? Brincadeira, meu rapaz. Que bom vê-lo aqui.

Primeiro o irmão da namorada, agora o pai dela também agia como se o conhecesse há anos e ainda o cumprimentou educadamente. Diferente dos outros namorados da filha que nem sempre eram dignos de tamanha gentileza. Enquanto a menina não descia, o pai aproveitou pra conversar mais com o garoto:

– Quais são suas intenções com a minha filha? Vê lá, hein… ela é muito especial e não quero que ela sofra.

– Olha, se depender de mim, ela será a mulher mais feliz do mundo. – respondeu ele.

– O que você faz da vida? – perguntou o pai.

– Eu acabo de me formar em Relações Públicas e trabalho pr’uma agência de publicidade.

– Interessante, interessante.

Durante a conversa, a filha querida e adorada desceu do quarto, toda maquiada. Pelo visto, pronta pra se casar com a noite e explorar tudo o que tinha direito. O pai, conhecendo o histórico do juízo da filha e acostumado com o fato da filha se divertir e não querer nada com nada da vida, disse ao garoto:

– Olha, pra início de conversa eu olhei pra você e não botei fé. Mas depois de ver você e suas conquistas, eu cheguei a uma conclusão: minha filha não é o suficientemente boa pra você!

– PAI!!! – gritou, indignada, a menina.

Ele finalizou:

– Esta garota tem o olho junto e vai te levar à ruína. Você não quer acabar que nem aqueles dois ali, certo? – ele apontou para o jardim, onde estavam duas covas, uma do lado da outra – Fuja, meu caro. É uma cilada!

Moral da história: Se fosse um zé das couves qualquer, cabeça de vento como a filha, o pai da garota certamente não teria alertado aquele garoto do futuro promissor. Agora sim ele podia deitar a cabeça sobre o travesseiro tranquilamente. Por ter salvado mais uma vida da desgraça e da ruína.

Enquanto isso, no corredor de uma famosa gravadora…

… Lüc, que finalmente tinha conseguido seu tão sonhado emprego numa influente gravadora, estava com seu órgão vital popularmente conhecido como fone de ouvido (objeto este responsável pelo ensurdecimento precoce dele 25 anos depois) cantando Suspicious Minds do Elvis Presley, distraído e preso num mundo o qual ele não sabia se faria parte ou não algum dia.

Naquele mesmo corredor, um empresário saía infeliz da porta do big boss da gravadora, simplesmente porque não conseguia vender seu peixe. Conseguir um contrato para um promissor cantor que assessorava era mais difícil do que a possibilidade da Kesha não usar o autotune. Pobre Brian. A indústria fonográfica já estava saturada daquele som e, por isso, nunca era passado adiante. Eletrônico, Dance e R&B “mais do mesmo” que infestava as rádios eram alguns dos estilos. Qualidade e consistência pra quê? Queremos o topo dos charts e vendas everestianas.

Brian, já sem esperanças, preparava o “sombrero” e o protetor solar para vender água de côco na praia, quando ouviu Lüc cantar. Seus olhos brilharam ao ouvir aquela voz tão única. Ok, nem tão única assim. Trata-se de uma voz completamente diferente, que tiraria a indústria fonográfica daquele marasmo fútil e superficial de discos produzidos a curto prazo, sem aquele toque genial, retrô e ao mesmo tempo futurista, por exemplo.

Como um talento daqueles trabalha num escritório atendendo telefone ou carregando pacotes de papel A4, desperdiçando seu tempo sendo que ele poderia estar trabalhando em algo inovador? É como dizem, “tempo é dinheiro” e, por mais que os pensamentos dele fizessem completo sentido, ele teve de interrompê-los para correr atrás do “jovem garoto com fone de ouvido”, como era conhecido no setor. Ele tocou o ombro do rapaz e disse:

– Esses seus graves e nuances vocálicos são incríveis.
– Oi?
– Eu preciso de você?
– O que? – perguntou Lüc, assustado.
– Preciso de você na gravadora. Agora.
– Ah é? E quem me garante que você não vai me vender como escravo sexual na Europa?
– Como se você tivesse o perigón para se tornar es…

WAAAAAT

Ele pára e pensa no que ia dizendo sem parecer suspeito. Ele continuou:

– Enfim, o que quero dizer é que sua voz é única atualmente, ainda mais neste cenário musical tão repetitivo quanto este em que vivemos.

– Ok, ok. Posso me desligar do mundo com meu fone de ouvido, mas não sou cego. Não é de hoje que eu vejo você sair desiludido da sala do big boss, sem ninguém pra apresentar. Estou disposto a ajudar você. Eu aceito que você me assessore, eu assino o contrato que for. 

– Sério? Faria isso?

– Sim, mas não faço isso por mim. Sei do meu talento e que, mais cedo ou mais tarde, um empresário me acharia *lixa* Você é um cara de sorte que, coincidentemente, estava na hora certa e no lugar certo. Em suma, aceito o trato. Mas com uma condição.

– Qual?

– De que não vai me vender como escravo sexual na Europa.

– Fechado.

E foi assim que Lüc conseguiu seu contrato na gravadora e conquistou o mundo com sua poderosa voz.

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Mesmo contra sua vontade, ele aperfeiçoou sua voz em aulas de canto (mesmo achando desnecessário, lixa) e ficou bem melhor, arrancando ainda mais elogios da crítica especializada.

PS.: Como seria fácil se o talento sincero se mesclasse com esse tipo de sorte, néam?

 

A pastilha

4 de julho de 1974. Uma e vinte cinco da tarde. Aniversário da independência dos Estados Unidos. Maureen discutia com os pais na sala de estar:

– Vocês são impressionantes mesmo! Acham normal me prender numa redoma. Eu tenho uma vida, sabiam? Por que simplesmente não me esquecem um pouco?

Sua mãe respondeu:

– Você tem apenas 16 anos. Acha o que, que é dona do seu nariz e que pode fazer o que bem entender? Eu já estou cansada dos seus tiques. Por que você não é como seu irmão? Ele está sempre ocupando a mente com aulas de artes e cinema. Está sempre pensando no futuro. Se eu te deixar mais solta, você foge das suas obrigações e isso eu não vou tolerar. Não vou mesmo.

O pai deixou registrada a sua reclamação diante do comportamento da filha:

– Ou você se cadastra na escola de arte amanhã cedo ou pode esquecer shopping e saídas com suas amigas do colégio. É isso.

– Vão se foder! – disse e saiu de casa em direção à praça, batendo a porta com toda a sua força.

A mãe de Maureen achou esta a frase mais sensata que a filha falou e resolveu seguir literalmente o conselho da filha. Mas isso é assunto pra outro texto, pra outra ocasião. Finalmente reinava a paz naquela casa. Pelo menos momentânea. Maureen precisava de ar, de paz. Precisava ir à praça pra pensar no que ia fazer da vida.

Ironicamente, naquele aniversário de independência de sua pátria, depois de ter brigado com seus pais, Maureen mal sabia que estava igualdade fadada à sua. Estava tão absorvida em seus pensamentos que nem viu um belo rapaz sentar ao seu lado. Seu nome era Richard. Descrever exatamente como foi o diálogo deles neste conto seria cansativo e muito dramático. Vamos poupar vocês, leitores, desta parte. Começaram a conversar. Uma coisa eu digo: foi amor à primeira vista. Naquela época, amor à primeira vista era uma coisa fácil e um tanto previsível. Quando menos perceberam, estavam falando de suas vidas problemáticas e aspirações profissionais, além de trocarem telefones.

Maureen estava com o dia salvo, sem sombra de dúvida. Já nem se lembrava mais da discussão com os pais naquele mesmo dia. Richard combinou de voltar no mesmo banco, daquela mesma praça no dia seguinte. Ao abrir a porta de casa, Maureen deu de cara com o seu pai, todo desgrenhado. Parecia que tinha sido atacado por um cachorro. Ou no caso, por uma cachorra. E então ele disse:

– Espero que se cadastre na escola de artes amanhã cedinho, ouviu Maureen?

– Sim, tanto faz – disse com a maior tranquilidade do mundo.

Maureen acordou cedo e foi direto para a praça. Ao chegar, viu que Richard já estava sentando, esperando por ela. Ele a cumprimentou com um forte abraço e ofereceu-lhe uma pastilha. Ao ver a tristeza no rosto de Maureen, ele a intimou:

– Vamos sair daqui?

– Perdão, como disse? – ela perguntou, confusa.

– Digo, não do país. Vamos mudar de cidade. Ohio já deu o que tinha que dar. Vamos fazer nossas vidas juntas em outro lugar, longe de tudo e de todos, onde eu não possa ver você assim tão triste.

Oh não. O dramalhão mexicano. Sai dessa.

– O que pretende fazer?

– Vamos para Nova York. Nossa beleza e inteligência vai inundar a Big Apple. Arranjaremos um emprego e vamos arrumar nossa vida.

Quinze minutos conversando e planejando suas vidas juntos, a pastilha de Maureen (pasmem!) ainda não tinha se dissolvido. A emoção de estar perto daquele homem que havia salvado seu dia infernal com a família foi tanta que ela até ficou roxa. Inicialmente, Richard pensou que ela estava roxa de felicidade. Mas só alguns segundos depois ele percebeu que Maureen estava se engasgando com a pastilha. Oh não, a pastilha assassina. Por que fui dar esta pastilha a ela? Sem saber o que fazer, totalmente por instinto, Richard a beijou longa e profundamente (na boca, é claro, em que século estamos, for God’ sake?) e, milagrosamente, a pastilha desentalou-se da garganta de Maureen. Naquele momento, Richard percebeu. Percebeu o verdadeiro motivo. E foi o que bastou para perceber que aquele salvamento não era por acaso. Adeus casa dos pais, olá vida nova com a pessoa amada.

Com a chegada daquele promissor casal, a cidade de Nova York nunca mais foi a mesma. Criaram um seriado de televisão que atingiu o pico de audiência logo nas três primeiras semanas e teve seu contrato renovado por mais 25 anos. Com suas vidas pessoais e profissionais consolidadas, Maureen e Richard não podiam estar melhores. Isso até Maureen descobrir que ele a traía com a assistente de iluminação. O fato é: de que diabos serviu aquela pastilha? Reflitam.

Felippe Alves

Finais inesperados – pt 2. A Boina Rubra

Once upon a time…

Ops, trocar de blog não dá. O All About Daydreaming está bem abandonado desde o show do Paul, mas enfim…

A história aqui é em português mesmo. Alguém aí se lembra da seção Finais Inesperados, onde este blogueiro que vos fala mudava completamente o destino dos personagens, acabando de vez com o "feliz pra sempre". Eu estava trabalhando num final inesperado pra Branca de Neve, vejam vocês. Quando a história estava na metade, o Live Writer teve um pane e perdeu os rascunhos. Todos. E este texto não estava salvo em outro lugar, logo… Mas enfim, eu trabalharei nesta no futuro, podem esperar. Hoje eu resolvi dar um final inesperado à uma famosa personagem, mas como o nome dela é um tanto batido, resolvi nomeá-la nesta história como…

 

A Boina Rubra

 

A vida de Linda nem sempre foi fácil. Como sempre foi vista com uma boina vermelha, as pessoas nunca a chamavam pelo nome e sim de "Boina Rubra". Ela detestava o apelido, mas não tinha jeito. Quanto mais reclamasse, pior ficava. Apenas com cinco anos de idade, foi abandonada pela mãe, que foi pra Londres com um velho rico. Logo depois, ela foi morar com a avó. Acontece que sua avó não era uma avó convencional que assava biscoitos e coisas do gênero. Dona Maria de Lurdes, que oficialmente mudou o seu nome pra Malu, tornou-se frequentadora assídua de baladas depois que seu marido faleceu de envenen… digo digo, de um enfarto fulminante. Ela percebeu que não adiantava de nada se lamentar pelo marido derramado (no sofá) e foi curtir a velhice da melhor forma possível. Ao completar 15 anos, Linda saiu da casa da avó e voltou para a casa de seus pais, pois queria privacidade. Ainda mais nessa idade. Ela visitava (ou ligava para) sua avó uma vez por semana para ver se precisava de alguma coisa, como toda boa neta consciente de seus deveres deve agir. Mas com a saúde invejável da Dona Malu (dona é o cacete, mano!) raramente precisava ir lá.

Numa agradável manhã de quinta-feira, decidiu visitar a avó para levar uma cesta com guloseimas para ela. Como Linda morava na Zona Leste e a avó na Zona Sul, ela precisava pegar o trem – isso quando não estava cheio, pois ela se recusava a se espremer até a morte com a ralé fedida num pequeno espaço. "Quem disse que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço?", dizia ela. "Newton só podia estar bêbado quando registrou essa teoria. Ele deveria ter um carro, aposto". Ao sair do trem, ela se esbarrou com um antigo amigo da escola meio louco da cabeça. Norberto tinha os gostos mais inusitados possíveis. Nunca foi muito de namorar, mas na puberdade desenvolveu um gosto sério por senhoras de idade. Sua Geriofilia não passava despercebida de jeito nenhum. Assim que viu Linda com a cesta na mão, parou subitamente e ficou olhando fixamente para ela. Logo ela falou:

– Argh, o que você quer? Nem vem com essa cara! Essa cesta é pra minha vó, digo digo… pra Malu. Desde que ela assinou seu contrato de ‘teenage forever’, eu não tenho mais avó e sim uma amiga piriguetchy de escola.

Ele logo respondeu:

– Como se eu quisesse essa cesta ridícula cheia de firulas. Eu quero a futura dona dessa cesta. E aí, como ela está?

– Ai, você não desistiu de paquerar minha avó. Pode esquecê-la. Ela não quer nada com você. Ela quer curtir a vida independente, indo em baladas e bebendo tequila – rebateu Linda.

Norberto se fingiu de desinteressado e disse:

– Tanto faz, eu nem queria aquela velha mesmo. Enfim, tenho que seguir meu rumo agora. Tenho certos “atalhos” pra pegar na vida, sabe como é. Vida dura, vida difícil, vida que martiriza, é. Até logo, Boina Rubra.

– Ora cale-se. Você sabe que meu nome é Linda.

Boina Rubra (ei, você também tá querendo levar um tabefe?) seguiu seu caminho para a casa de Malu com sua cesta. Com uma pulga atrás da orelha, suspeitou que Norberto estivesse indo para a casa de sua vó por um famoso “atalho”. Inconscientemente, ele havia dado uma mensagem subliminar a ela, uma dica de que estava indo paquerar a indefesa senh… digo, Malu. Linda que não era tonta nem nada, correu por outro atalho (sim, ela tinha uma carta na manga) e chegou primeiro à casa da sua avó.

Tocou a campainha e ninguém veio atender. “Será que Norberto chegou na frente?”, pensou ela. Alguns minutos depois, a descolada Malu aparece de roupão na porta toda produzida no make up pronta pra arrasar na night. PS.: Ainda era 3 da tarde.

– Ei, Malu. Como anda essa força aí? Então… eu vim aqui pra te avisar de uma coisa. Aquela banda que você adora, como é mesmo o nome… TILT AWAY, isso… está aqui na cidade fazendo um show surpresa na Praça da Desilusão. Corre lá!

– Ai, menina. Nem estou pronta ainda.

– Não importa, você não pode perder esta chance. Agora sai daqui – disse empurrando a avó porta a fora.

Linda se deitou na cama pra dar a impressão errada a Norberto. Exatamente um minuto depois, Norberto chegou à porta e disse:

– E aí, coroa! Vamos dar um rolê hoje à noite?

Ninguém respondeu. Linda fingiu estar dormindo e disse com voz de sono:

– Quem é?
– Norberto.
– Ah, pode entrar, meu filho.

Rapidamente Linda pulou da cama, deixando Norberto branco de susto.

– Ei, o que você tá fazendo aqui?

– Tô protegendo a minha avó de você. Você acha que eu não sei o que você vê naquele computador? Fique com seus sites geriátricos e nem pense em colocar suas patas taradas em cima da minha avó indefesa.

– Indefesa? Você se drogou? Ela tá louca pra retomar o tempo perdido, só você que não percebe.

– Ok, se você quiser pegar caxumba, é só falar.

– O que?

– Isso mesmo que você ouviu. Caxumba. Minha vó não está bem e eu sugiro que você a procure outro dia.

– Droga. Eu volto outro dia.

Nisso, ele saiu andando cabisbaixo. Linda finalmente conseguiu afastá-lo de Malu. Alguns minutos depois, chega a avó com cara de dúvida.

– Ué, não tinha show nenhum. Onde você ouviu falar?

Linda respondeu:

– Na verdade, não tinha show nenhum. Eu fiz isso pra despistar o Norberto, aquele meu amigo geriófilo. Ele tava querendo te perseguir a todo custo, mas eu não permiti que aquele safado encostasse em você.

A avó olhou com indignação:

– O que?

– Que foi? Eu te protegi daquele maluco.

– Estou há meses tentando sair com aquele seu amigo e você  o impede de chegar até aqui? Isso não vai ficar assim. Vou te mandar pro colégio interno pra você pensar melhor no que fez.

E foi assim. Malu a matriculou num reformatório e Linda não sairia do colégio interno por tão cedo. Até os 21 anos, teria que pagar por ter tentado “salvar” a vida de sua avó. No fim, Norberto teve um encontro com Malu. Ambos se apaixonaram perdidamente um pelo outro e se casaram numa capela escondida em Campos do Jordão. Quanto a Linda… bem, não se sabe se ela saiu do colégio interno ou não.

O fim de uma era. O início de outra.

Twp. of Wellesley, Ontario - Friday Feb 22, 2008  -  Four Wellesley Township fire stations were needed to battle a blaze at Aaron Martin Harness Ltd. at 4445 Posey Line west of Wallenstien. The 6:30am fire consumed the business and nearby structures .  Robert Wilson, Record staff - see story by Brian Cladwell
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9:12:12 AM • 22/02/08 • Twp. of Wellesley19042

13:25. Era mais um dia comum para Rodrigo no trabalho. Acabara de voltar do almoço, um tanto animado por aquele dia ser um pouco diferente dos demais. Alguns bons minutos depois, seu chefe o chama na “sala fria”. Já havia sido antes, logo a tensão deixara de existir há muito. Chegando na sala, sentou-se. Sem mais delongas, o chefe disse:

– A rede comunicativa da empresa será mudada às pressas e precisamos substituir  você por alguém mais experiente.

O que era estranho, pois Rodrigo cobria a quantidade de trabalho por dia. Isso não soava convincente. Mas pra que lutar por alguma coisa quando se chega a esse ponto? O jeito era encarar os fatos e seguir, oras.

Mesmo assim, o subconsciente leu aquilo como: então quer dizer que não estarei mais trabalhando neste departamento, entendi. Mas claro, não foi isso. Ele estava fora, cortado, deixado de lado. Substituído.

A vida explodiu tudo na sua cara, não tornando possível – até aquele momento – todos os seus planos? Sim, mas ele encarou aquilo como um sinal. Um sinal de que algo melhor está por vir. E de que nada é pra sempre. A propósito, isso era um fato desde quando pisou no local. Voltando à realidade, o chefe:

– Então, não vai falar nada?

A conversa acabou com uma tentativa sem êxito de consolo do chefe para o recém desempregado.

“O mundo é seu” ou

você tem muito a ganhar lá fora” ou

“você achará algo que realmente se encaixará” e até mesmo:

as portas da casa estarão sempre abertas”

O único sentido que ele conseguiu decifrar nessa última frase foi o denotativo. Por motivos óbvios. Tão óbvio quanto o acidente da penicilina ou da gravidade. Sejamos realistas. Fim.

Naquele momento, nada importava. Só uma coisa importava: a emancipação. A volta ao topo. Ou, no caso, até a metade. O topo ele sabia que estaria por vir. Uma hora ou outra, viria.

Inocente ou culpado?

Já repararam que eu sou sempre o culpado de tudo? Inclusive de ter nascido. Só não me culparam da queda do muro de Berlim, porque eu nasci em 1990. Ou melhor… culparam.

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– Você é o culpado.

– Hein?

– Você é o culpado pela queda do muro de Berlim.

– Deve ter havido um engano. O muro foi derrubado em 1989, eu sou de 1990.

– Nós fizemos uma pesquisa e descobrimos que você se comunicou telepaticamente com uma das pessoas lá presentes.

– Que pessoa?

– Um homem.

– Que homem?

– Isso não vem ao caso. O que importa é que você derrubou e ponto final.

– Impossível. Em 1989 eu não era nem um feto. Eu fui "concebido" em janeiro de 1990, o que indica que eu seja de setembro. Concorda? Muitos meses depois da Guerra Fria.

– Sua explicação me soa até convincente. Mas eu quero te prender mesmo assim.

– E quem disse que eu sou inocente?

– Oi?

– Argh! Já chega de tanta inocência enrustida. Quem desconfiaria de um menino de quase 20 anos ter feito parte de momentos históricos? Ok, eu admito: eu tenho o poder de me comunicar com personagens históricos e influenciar a história de inúmeras maneiras. Detalhe: sem ter nascido ainda. O nascimento foi só uma consequência. Uma hora ou outra, eu ia acabar nascendo. Mas até lá, muahhhhh.

– Aham Felippe, senta lá.

– Se não acredita, não me importo nem um pouco. O fato é que eu fui responsável pela queda do muro de Berlim, pelas duas Guerras Mundiais e pelo Holocausto. Quem você acha que manipulava Hitler? Ele era tão frouxo que não conseguia fazer mal a uma mosca. E tudo isso foi feito por quem? Uma pobre criança indefesa. Está bom ou quer mais?

– Não, é o bastante. Por favor, venham aqui. Prendam este insano na camisa de força. Ele não está bem, está delirando.

Felippe pensando: Inocente, eu? Até parece

*olhar malévolo*

Cada um dê o título que achar melhor aqui

Algumas pessoas sofrem por amor. Eustássio nunca sofreu. É o que ele diz. Pode parecer mentira, mas acredito que algumas pessoas não sofram mesmo. Os que sofrem não dão o braço a torcer. Ele pode não ter sofrido por amor, mas por N outras coisas. Doeu, doeu muito. Tanto que ele desejava não ser real. Ser um robô. Às vezes é ruim ser real. É ruim sentir emoções e tristezas – até alegrias, porque são frustrantes.

Às vezes nos sentimos tão frustrados, mas não admitimos. No caso de Eustássio, ele se gaba por não sofrer por amor, causando uma inveja em todo mundo, mas na verdade ele é um infeliz aspirante a tudo que ama que sofre sim. Mas por incrível que pareça, ele tem surtos felizes e começa a cantar alto absolutamente do nada. Acho que é pra manter as aparências. Isso não vai mudar a verdade. Vai ver ele acha que cantando vai conseguir se esquecer da realidade.

Será que ele vai conseguir ser pelo menos metade do que deseja?

O despertador gritou dizendo pra ele acordar pra vida. Será o despertador um prelúdio para o que está por vir? Terá Eustássio as lacunas de sua vida preenchidas? Espero que ele não tropece no próprio cadarço ou

se engasgue com a própria saliva ou

bata a cabeça no asfalto

antes de preenchê-las.

Quando o amor é grande…

 

… não tem remédio que resolva. A mulher é orgulhosa e o que ela mais sonha é que o homem ligue se arrastando. E quando isso acontece, ela sobe às colinas sem sair do lugar. Vide esse exemplo abaixo.

– Alô?
– Quem é? (sabendo quem é, mas adora se fazer de desentendida)
– É o Jorge.
– O que você quer?
– Só liguei pra desejar um ‘feliz 19 de julho pra você’

A tentativa de um recém-separado para se reconciliar com a amada é tão grande que, sem motivos especiais, ele arranja uma desculpa que, por mais tola que seja, ele espera que tenha repercussão.

É, amigão. Não teve. Ela pode estar solteira, comendo o pão que o diabo amassou, não fornica desde a separação e tudo o mais, mas mesmo assim se faz de forte e superada.

paola

Sabe por quê? Porque eu sou RYCA!

PS.: Eu sei que o bordão é da Carolina Ferraz, mas Paola é mais diva.

Uma Vingança Bem Salgada

Olivia era uma menina bem difícil de se lidar. Apesar de seu temperamento bipolar, ela desejava ter um relacionamento social melhor. Pessoas viviam zombando dela e ela tinha que lidar com isso de cabeça baixa, pois senão tudo piorava. Ela sempre ameaçava mudar de escola, mas a oportunidade sempre fugia. Porém, sua vida tinha alguns prós. Ela podia contar com dois grandes amigos: Miguel e Eduardo. Eles estavam ali pra ela sempre que precisasse de alguma coisa. Mas vocês sabem: o mundo não pára de girar. Agora vocês terão prova da bipolaridade de Olivia. Ela pode ser ingênua, sofrida, zombada, ter um inferno particular. O que vocês não sabem (ainda) é que ela tem o poder de transformar outras vidas em inferno também. Inclusive de melhores amigos. Sim, justamente de quem vocês estão pensando. Desde o jardim, Miguel e Eduardo sempre foram grandes amigos. Piqueniques, viradas de noite com videogames e muitas histórias pra contar. Sempre foram vistos juntos e, até então, todos os chamavam de dupla inseparável. Todos curtiam a amizade que eles tinham, eram como irmãos. Populares e inteligentes, tinham tudo o que precisavam para ter uma vida social interessante.

No dia seguinte, quando chegaram à escola, se depararam com todos rindo de suas caras. Sem entender o porquê das risadas, olharam para o lado e se depararam com cartazes onde se lia: Miguel e Eduardo: Amor eterno. Ficaram furiosos no início, mas depois passou. Queriam saber quem tinha feito aquela brincadeira de mau gosto. Depois de muitas risadas às suas custas, no final do dia escolar, Miguel encontrou um bilhete anônimo no seu ‘armário’, que dizia:

– Eu sei quem foi o autor da brincadeira dos cartazes. Alguém bem íntimo de vocês dois. Melhor dizendo, autora. Encontre-me no laboratório de áudio e vídeo amanhã às 9 da manhã. PS.: Já sabem por que eu deixei o bilhete no armário, néam? Hein? Hein? ALOKA BEES! Se joguem, pintosas!

Miguel não agüentava mais, agora já foi longe demais, não aguento mais. Amanhã mesmo, ele estava decidido a tirar isso a limpo.

Dia seguinte. Ele entrou no laboratório de áudio e vídeo. Um clique de controle remoto soou como a bomba atômica que atingiu Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945 no final da Segunda Guerra Mundial naquela sala silenciosa. O retroprojetor se ativou, como mágica, mostrando fotos (em má qualidade, porém bem visíveis – notou-se que eram fotos de celular) com alguém colando cartazes em uma parede. Com um zoom, o susto foi certeiro: Miguel viu o rosto de Olivia. Olivia, como pode ter sido ela? Por que ela fez isso comigo?

Saiu da sala arrasado pela traição, pela reputação duvidosa que sua amiga ocasionou. Naquele dia, mais tarde, contou ao amigo quem foi a responsável pela colagem dos cartazes.

– Eu deveria ter imaginado – disse Eduardo – deveria ter notado como ela ficou misteriosa nesses dias… Mas que vadia rameira. Ela sabia que isso tiraria nossa popularidade. Vamos agir como se nada tivesse acontecido e ver como ela se comporta. Uma semana. Se ela não mudar o comportamento dela em uma semana ou se não admitir o que fez, ela vai pagar caro. Ela vai sentir um gostinho especial da vingança. Entendeu? Gostinho. As oportunidades aparecem assim, plu.

Uma semana se passou. Olivia se manteve intacta, pura de culpa. Praticamente se imaginou num altar para tamanha santidade. Encontrou Miguel e Eduardo ao lado do armário. Cordialmente, perguntou como estavam suas vidas, as novidades e planeja programas com os melhores amigos.

– E aí, caras. O que faremos no final de semana? Estou querendo ir ao shopping comprar aquele videogame novo: ‘O Ataque Triplo das Baleias Dançantes’, sabe? Parece ser bem legal. Que tal?

– É, pode ser. Eu também tava querendo comprar uns jogos novos mesmo – respondeu Eduardo.

– Caras, eu estou morrendo de sede. Podem ir à cantina pra mim e me comprar um copo de guaraná?

– Claro que podemos. Um momento só. Espere aqui, está bem?

Os dois saíram em direção à cantina. Compraram o refrigerante e o tomaram. Mas como voltar em direção à Olivia sem a bebida refrescante dela? Foram no banheiro, urinaram no copo. Porém, não foi o suficiente pra enchê-lo. A solução foi mergulhar o copo em privadas sujas. Eles estavam determinados a fazê-la pagar pela palhaçada toda com o lance da sexualidade. Não que isso seja motivo de vergonha, mas para pessoas populares como eles, teve um impacto sim. Impacto o qual eles estavam dispostos a se vingar. E de uma maneira bem infantil. Alguns minutos depois, entregaram o copo à Olivia. Ela estava tão seca que nem sentiu cheiro de nada, só bebeu de um gole só. Alguns segundos depois, a ficha caiu. Resquícios da bebida foram cuspidos, mas já era tarde: 98% havia sido ingerida. Percebendo a vingança, ficou furiosa. Nessa hora, confessou tudo:

– Sim, eu queria acabar com a reputação de vocês mesmo. A chata e irritante sempre sou eu. Por que ninguém gostava de mim? Por que sempre eu era a zombada? Vocês acham que ninguém sabia das minhas colagens? Isso me ajudou a ganhar popularidade. Queria ser vista de um modo bagunceiro por zombar de pessoas como vocês. Funcionou até. Consegui fazer amizade com os baderneiros do fundão e agora eles não me olham mais como uma ramelona. Percebem o quanto é importante pra mim ser notada?

Ela amaldiçoou toda a árvore genealógica dos dois. Traduzindo: ela os deixou estéreis pro resto da vida. Miguel e Eduardo jamais transmitirão a nenhuma criatura o legado de suas misérias.

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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