Crítica | Viver é Fácil Com os Olhos Fechados

Na fila do cinema, lia-se num cartaz: “Viver é Fácil com os Olhos Fechados”. Hm, esse título não soa estranho. “Living is easy with eyes closed”… Strawberry Fields Forever. Será que tem algo a ver com os Beatles? Na mosca.

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Dirigido e roteirizado por David Trueba (Soldados de Salamina, 2002), o road movie gira em torno de Antonio San Roman (Javier Cámara), professor de inglês em uma rígida escola em Albaceta, cidade do interior da Espanha, que usa músicas dos Beatles para ensinar a língua aos alunos.

Baseado em um fato real, o filme conta a história de um professor espanhol fanático pelo Fab Four, que aproveitou que John Lennon estava em Almería, cidade do sul da Espanha, filmando “How I Won the War”, de Richard Lester (também diretor de Help!), e embarca numa viagem com dois jovens, a fim de conhecer de perto o beatle.

Belén (Natalia de Molina), jovem grávida fugida de uma casa onde futuramente daria seu filho a adoção, e Juanjo (Francesc Colomer), também fugido de casa pra escapar do pai autoritário. Os três se conhecem melhor, além de conhecer melhor a Espanha durante a ditadura de Francisco Franco (1936-1975).

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“Sempre precisamos gritar Help!”, diz o professor Javier. Com um roteiro incrível, o diálogo tem uma fluência especial e as interpretações de Cámara, Molina e Colomer são impecáveis e de uma sensibilidade única. A fotografia do filme é viva e a química entre o experiente Javier e os jovens atores é inegável.

Daniel Vilar fez um trabalho esplêndido na direção de fotografia, onde o espectador perde o olhar nas paisagens de Almería. Outro ponto alto é a caracterização da época: os anos 60 estão muito bem representados no longa: o rádio, o cinema e a TV caminham de mãos dadas.

Sensível e ímpar, como o cinema europeu faz questão de se mostrar sem dificuldade alguma, Viver é Fácil com os Olhos Fechados levou sete prêmios Goya (o Oscar espanhol) em 2013, incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.

Crítica Literária | Misery: Louca Obsessão

Acho que desde Fahrenheit 451 de Ray Bradbury que não temos uma crítica literária aqui no Blog do Alves. E o livro a quebrar esse hiato será um do Stephen King, MISERY: LOUCA OBSESSÃO, publicado em 1987 e reeditado este ano pela Suma de Letras. Vamos lá, sem delongas, porque tô ansioso pra começar a falar.

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A história começa com um acidente de carro numa nevasca no inverno de 1987 envolvendo Paul Sheldon, o famoso escritor de livros de suspense. Mas calma: será suspense mesmo? Misery, a série de livros criada por ele, nos parece, a primeira vista, mais melosa e florida do que suspense. Suspense (e terror) é o que ele vai passar nas mãos de sua salvadora, Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que se intitula sua “Fã Número 1”. Até deu o nome da heroína à sua ~~porquinha~~ de estimação. Ela cuida dele com a maior dedicação possível, o alimenta por intravenosa, etc.

Sob a desculpa da forte neve que cai lá fora, ela diz que não pode levá-lo a um hospital, nem ligar pra sua agente (linhas de telefone com defeito, aham sei). Aparentemente, Annie se mostra tranquila cuidando dele, sem novidades. Até ela descobrir que sua querida e favorita personagem, Misery Chastain, morre no final do último livro publicado. Aí a gentileza acaba e o inferno começa.

Sheldon ganhou muito dinheiro com a série de livros da Misery, mas não ia muito com a cara dela. Quando ela morreu no parto nas páginas finais do último romance, O Filho de Misery, milhões choraram e ele também: de rir. “Finalmente, a vaca tonta bateu as botas”. Ele tinha escrito um novo romance contemporâneo sobre um ladrão de carros, com uma linguagem das ruas mesmo, enfim, um extremo do estilo que tinha colocado seu nome no topo da lista dos best sellers.

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Sobre o inferno: ele acaba de começar. E Paul Sheldon sabia que não sairia dele por tão cedo. Ele duvidava muito que Annie não ligou pra sua agente por causa da nevasca. Óbvio que isso seria a última coisa que ela faria. Se livrar da companhia de seu adorado Paul Sheldon, seu escritor favorito no mundo inteiro? Já no começo da trama, ela obriga seu hóspede a tomar o Novril (analgésico) com água suja. E não, não tem a opção de tomar a seco, como das primeiras vezes. Algo como “castigo da mamãe”: dói mais em mim do que em você, querido. Quando fica depressiva, Annie se mutila sem dó. E resta torcer pra que não desconte o mau humor no pobre do escritor inválido. Mas claro que isso não vai acontecer, não é mesmo?

Annie se dizia movida por Deus, alegando que colocaria Paul Sheldon nos eixos e daria uma segunda chance a ele. Uma chance de consertar o terrível erro de matar sua heróina. Uma churrasqueira, fluído acendedor e um fósforo. “Vamos, queime esse lixo. É pro seu bem, Paul. Sabemos que essa é sua única cópia, porque você não se leva a sério”. Assim: curta e grossa (grossa mesmo, oh ok, sem referências ao tamanho da nossa Anniezinha). Adeus “Carros Velozes”, o universo do ladrão de carros Tony Bonasaro. E olá, Misery. Sim, ela o obriga a ressuscitar Misery Chastain. “O Retorno de Misery” será escrito. Por bem ou por mal.

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Quando Annie descobre que Paul andou saindo do quarto (uma vez pra pegar remédios e alguns alimentos na despensa e a outra pra bisbilhotar suas Doces Lembranças, o que verão a seguir), usou a história dos caçadores de diamantes como exemplo. Matar não era viável: tinham que garantir que eles não fugiriam. Daí o pé decepado. No filme, apenas quebrar as duas pernas funcionou melhor. (Sim, há diferenças do livro pro filme, também a seguir).

Sobre as Doces Lembranças: Annie mantém um caderno com recortes de jornal com obituários e êxitos em sua carreira de enfermeira. Mas não é só isso. Paul descobre todas as mortes em que ela se envolveu, incluindo crianças recém nascidas, além de mortes mais antigas, como uma colega de faculdade: o gato da colega comeu veneno, subiu até a escada, onde sua dona, provavelmente bêbada, tropeça nele. Annie, religiosa fanática, não aceitava o temperamento da colega. Aliás, esse comportamento religioso se mostra no decorrer do livro e do filme. Não aceitar palavrões, por exemplo, chega a ser irritante. É a partir dos palavrões que o lado psicótico dela começa a tomar forma. Ainda antes de ela descobrir a morte de sua heroína. Religião: um elemento que nos lembra Carrie, não é mesmo? Hoho.

A trama de Misery é eletrizante, mesmo com dois personagens, o livro fica praticamente colado nas mãos. Adaptado pro cinema em 1990 pelo diretor Rob Reiner, contou com a brilhante atuação de Kathy Bates no papel da nossa querida Annie Wilkes. Eis a reação da Annie das telas ao saber que a Annie das páginas de King é bem mais barra pesada do que ela:

10406891_969453159747021_2031378018868768431_nExistem algumas diferenças do livro pro filme que devem ser levadas em conta. Mais personagens foram adicionados, para dar mais liga na telona. Xerife local, Buster, e sua sarcástica esposa, Virgínia. No livro, aparecem policiais em Silver Creek para investigar, mas que não vivem o suficiente pra contar a história. Annie não dorme em serviço. “Faça algum barulho, Paul, e eu mato você. E depois me mato”. Bem, outros policiais locais vão aparecendo e…enfim, só lendo mesmo. Se eu falar mais, estraga a brincadeira.

Sobre a escrita do Stephen King: um lance que já havia reparado em Carrie, por exemplo, é o uso dos parênteses que indicam o pensamento do oprimido. A paranóia é uma personagem principal dos livros de King. Parênteses esses que funcionam como um flashback. A metalinguagem é primorosa também: escrever um livro dentro do outro, refletindo até na diagramação (os Ns escritos a mão, já que a máquina de escrever Royal comprada por Annie tinha a letra N faltando – bem, a letra E e a letra T amb m cairão no d corr r da trama e oh ok parei.

King é um sacana: criou uma personagem mala adorada por gordinhas carentes comedoras de pasta de amendoim e odiada pelo seu criador. Aplausos pra ele. Nem Sheldon aguentava mais Misery. A série de livros é por demais melosa. Somos obrigados a ler o processo de criação do “Retorno de Misery” e bem, confesso que não é o melhor momento do livro. A não ser que o leitor goste de histórias melosas. Sinto que pedras virão ao meu encontro depois dessa declaração, mas é o que é: a maldade de Annie para com Paul que rege as 326 páginas de Misery: Louca Obsessão. A brilhante ironia de tudo isso reside no fato da série Misery ser odiada por Sheldon. Mas foi com Misery Chastain que ele chegou onde chegou, financeiramente falando.

É, Paul. Você foi salvo da morte. Para entrar no inferno. Se você vai sair dele, bem…só lendo pra saber. Um thriller psicológico pra ninguém botar defeito.

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PS.: Sobre o uso do remédio fictício, Novril, King teria afirmado ser uma metáfora sobre a sua própria dependência das drogas e ao modo como, na época, a família dele o teria ajudado a resolver o problema.

Teatro | Crítica Instantânea | RITA LEE MORA AO LADO: toque a campainha…

…e espere ela atender. Ela vai te atender.

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Devido ao sucesso de público, a adaptação teatral do livro “Rita Lee Mora ao Lado – Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock”, do escritor e músico Henrique Bartsch, a peça Rita Lee Mora ao Lado foi prorrogada até 23 de novembro. Pouco mais de um mês. Corre que dá tempo.

Dizer que a Mel Lisboa interpreta Rita Lee no palco do Teatro das Artes no Shopping Eldorado soa modesto. E como a personagem interpretada por ela, a ninfeta Anita da minissérie global, já dizia que “a modéstia é para os medíocres”, é mais cabível dizer aqui que ela DÁ VIDA a Rainha do Rock brasileiro de uma forma esplendorosa.

Mel disse em várias entrevistas que não é cantora. É uma atriz que canta. Ela sempre foi muito insegura com sua voz e ainda faz aulas de canto e fono. O treino constante claramente está fazendo muito bem. Não só mostra que é afinada como pegou cada trejeito vocal – cada respiração específica – da Rita. Voz é algo muito pessoal, é a identidade de cada pessoa, mas é possível, em uma faixa ou outra, dizer: “opa, a Rita Lee passou por aqui”.

Engraçado, porque Mel quase chegou a desistir do papel. Afinal, é uma responsabilidade imensa dar vida a um dos maiores ícones da música nacional. Ler, ouvir, estudar Rita oito dias por semana, 28 horas por dia: foi assim intensa a preparação de Mel para o papel. E o resultado ficou realmente digno. No final de agosto, a peça saiu de cartaz, desiludindo muitos fãs que perderam. Mas o sucesso foi tão estrondoso que a peça voltou aos palcos até 23 de novembro no Teatro das Artes no Shopping Eldorado em São Paulo.

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Sobre a produção. A idéia surgiu há 4 anos, quando o diretor Marcio Macena leu o livro de Bartsch. Na peça, a trajetória de Rita é contada desde a infância até os dias de hoje por Barbara Farniente, interpretada por Carol Portes (pra quem não conhece, interpreta a Carol, amiga da Natália Klein na sitcom Adorável Psicose, transmitida pelo Multishow). Barbara foi vizinha de Rita e acompanhou de perto a vida da família da cantora. Detalhe: a mãe de Barbara era apaixonada pelo pai de Rita. Essa perspectiva sob a ótica da Barbara foi idéia da própria Rita. A peça não tem compromisso histórico ou cronológico, dando assim mais liberdade em relação aos fatos e a escolha das músicas. Por exemplo, aos 13 anos de idade, ao fazer xixi no sapato de um dos colegas na escola, Rita se faz de perplexa enquanto os amigos cantam “Erva Venenosa”. E as expressões faciais de Mel? Outro primor a parte. As caretas debochadas são o charme a parte.

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O repertório conta com 40 canções performadas ao vivo, incluindo Agora Só Falta Você (que abre o espetáculo lindamente), Lança Perfume, Baila Comigo, Mania de Você, Ovelha Negra, Esse Tal de Roque Enrow (essas duas últimas do disco Fruto Proibido, meu preferido dela) e também hits dos Mutantes como Hey Boy, Top Top e Panis et Circenses. Astros e estrelas da nossa música como Elis Regina, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, João Gilberto, Gal Costa, Tim Maia e Ney Matogrosso (interpretado pelo Fabiano Augusto, cuja presença de palco e performance vocal são óbvias) também fazem parte do espetáculo em diferentes épocas da vida de Rita, interpretados por atores extremamente competentes, em especial a atriz que faz a Hebe Camargo (Débora Reis) – que imitação bárbara. De chorar de rir.

Quando Barstch propôs a biografia à Rita, ela se negou dizendo que era somente pra “gente morta”. Daí ele a convenceu da proposta diferente das biografias convencionais e então ela deu sinal pra ele continuar. Lançada em 2006, a biografia foi um marco para os padrões biográficos. Infelizmente, Henrique faleceu em dezembro de 2011 em decorrência de uma parada cardíaca. Mas onde quer que ele esteja, ele com certeza está orgulhoso da recepção do público da adaptação do seu livro para os palcos.

Sem mais delongas, RITA LEE MORA AO LADO é uma peça válida tanto pra quem é fã veterano quanto pra quem quer conhecer mais o vasto repertório de Rita. Seja nos Mutantes, com Tutti Frutti, com Roberto de Carvalho ou sozinha, as canções icônicas marcaram gerações e vão fazer você cantar junto. Confira o trailer da peça no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=m9R5QfhkWjc

RITA LEE MORA AO LADO

Teatro das Artes – Shopping Eldorado

Av Rebouças, 3970 – Terceiro Piso.

Valores: De R$ 60 a R$ 100

Fotos do espetáculos tiradas por mim (ó, grande coisa)

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E ah, surpresa mesmo foi ter conseguido parabenizar a Mel pessoalmente pela peça. Atenciosa, educada e simpática. Além de talentosa e linda, vamos combinar:

Mel

E com Fabiano Augusto (Ney Matogrosso): performance vocal e presença de palco IMPECÁVEIS.

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Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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