Crítica | Viver é Fácil Com os Olhos Fechados

Na fila do cinema, lia-se num cartaz: “Viver é Fácil com os Olhos Fechados”. Hm, esse título não soa estranho. “Living is easy with eyes closed”… Strawberry Fields Forever. Será que tem algo a ver com os Beatles? Na mosca.

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Dirigido e roteirizado por David Trueba (Soldados de Salamina, 2002), o road movie gira em torno de Antonio San Roman (Javier Cámara), professor de inglês em uma rígida escola em Albaceta, cidade do interior da Espanha, que usa músicas dos Beatles para ensinar a língua aos alunos.

Baseado em um fato real, o filme conta a história de um professor espanhol fanático pelo Fab Four, que aproveitou que John Lennon estava em Almería, cidade do sul da Espanha, filmando “How I Won the War”, de Richard Lester (também diretor de Help!), e embarca numa viagem com dois jovens, a fim de conhecer de perto o beatle.

Belén (Natalia de Molina), jovem grávida fugida de uma casa onde futuramente daria seu filho a adoção, e Juanjo (Francesc Colomer), também fugido de casa pra escapar do pai autoritário. Os três se conhecem melhor, além de conhecer melhor a Espanha durante a ditadura de Francisco Franco (1936-1975).

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“Sempre precisamos gritar Help!”, diz o professor Javier. Com um roteiro incrível, o diálogo tem uma fluência especial e as interpretações de Cámara, Molina e Colomer são impecáveis e de uma sensibilidade única. A fotografia do filme é viva e a química entre o experiente Javier e os jovens atores é inegável.

Daniel Vilar fez um trabalho esplêndido na direção de fotografia, onde o espectador perde o olhar nas paisagens de Almería. Outro ponto alto é a caracterização da época: os anos 60 estão muito bem representados no longa: o rádio, o cinema e a TV caminham de mãos dadas.

Sensível e ímpar, como o cinema europeu faz questão de se mostrar sem dificuldade alguma, Viver é Fácil com os Olhos Fechados levou sete prêmios Goya (o Oscar espanhol) em 2013, incluindo Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro Original.

Crítica Literária | O Bebê de Rosemary

10743341_974410015918002_340593429_nAdaptação de livros pro cinema é coisa séria. Claro que é recomendável ler o livro antes de ver o filme, mas sabemos que nem sempre é possível.

Existe aquele tipo de adaptação com mudanças e inserção de detalhes não disponíveis nas páginas: que podem ou não funcionar. O importante é não perder a essência.

E também aquela adaptação rara, que nem devemos chamar exatamente de adaptação: é como ler o próprio roteiro do filme, de tão fiel que o roteiro é às páginas. A ordem dos acontecimentos, inclusive ler os diálogos com a voz dos atores. Esse é o caso do livro de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, fielmente adaptado por Roman Polanski (o segundo filme da Trilogia do Apartamento) em 1969.

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Antes  do começo, só um leve adendo sobre o final. Calma, nada de entregar o ouro assim tão fácil. O final do livro é mais detalhado que no filme, como é de se supor. O longa deixa a entender que será exatamente como no livro mas, pro cinema, essa tática de “deixar no ar”, funciona muito melhor. Aí reside a competência de uma boa adaptação. A fidelidade às páginas do livro dá um prazer a mais, ainda mais quando você assiste ao filme primeiro. É um post que é impossível separar o “livro” e o “filme”.

Agora sim, sobre a obra de Ira Levin. Publicado em 1967, o Bebê de Rosemary nos apresenta os recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse, que alugam um apartamento em um antigo prédio em Nova York, o Bramford, um edifício sombrio no estilo vitoriano com um extenso histórico de crimes e acontecimentos sobrenaturais, inclusive um número elevado de suicídios. Hutch, um senhor de idade amigo de Rosemary, tenta alertá-los sobre a reputação do edifício, mas a excitação de Rosemary não permite que ela enxergue com clareza e sim apenas como pessimismo por parte do amigo.

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Guy é ator de teatro e faz alguns comerciais, que é onde o dinheiro está, de fato. Por ele ser protestante, Rosemary foi renegada por sua família (católica) ao se casar com Guy. A ironia disso tudo: Rosemary renegada pela família porque se casou com um protestante. E logo com ela foi acontecer isso. Familiares no churrasco dizendo: eu avisei, oh ok.

Na lavanderia, Rosemary conhece Terry Gionoffrio, uma mulher que vivia na sarjeta e foi acolhida pelos Castevets, Minnie e Roman, seus vizinhos. Ela fala de um amuleto da sorte, uma pequena bola de prata com raiz de tannis. O cheiro é acre e forte, “precisa de tempo pra se acostumar”, diz Terry. Muito agradecida aos Castevets, estava determinada a dar um rumo à sua vida. Mas digamos que a bússola quebrou no meio do caminho. Terry se jogou do sétimo andar, deixando todos perplexos, inclusive Rosemary. Por que ela se jogou? “Que amuleto furado é esse?”, pensou Ro.

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Com isso, o casal Woodhouse conhece mais a fundo Minnie e Roman, que ajuda o casal a organizar a nova vida. O amuleto de Terry passa a ser de Rosemary. Guy se torna muito próximo do simpático casal, mas aí coisas estranhas passam a acontecer depois dessa guinada na amizade entre eles. Enquanto isso, Rosemary queria engravidar, mas Guy não se mostrava ansioso, frustrando-a.

Cabisbaixo por ter perdido um papel importante de uma peça para Donald Baumgart, subitamente ele recebe uma ligação informando que este ator tinha ficado cego misteriosamente. Bah, mas que chato conseguir o papel desta forma, não é mesmo? O que estava indo mal, de repente entra nos eixos: sucesso profissional, propostas de emprego, incluindo um seriado com a Warner Bros, hmmm, nada mal. Rosemary nota uma mudança no comportamento de Guy: preocupação com a carreira, o egocentrismo tomando conta.

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Depois de uma pequena crise, o casal Woodhouse se acerta e finalmente resolve engravidar. Eis que Guy se mostra a vontade com a idéia de ser pai, o que reanima Rosemary. Depois de uma suspeita sobremesa, Rosemary tem um pesadelo com um ritual de magia negra envolvendo os Castevets e Laura-Louise (a vizinha), todos nus, onde ela é a oferenda. Cópula com a besta. Ou uma representação dela. Tudo ao som dos excêntricos cânticos que ela costuma ouvir toda noite de Minnie e Roman. As incertezas ganham força. Em quem confiar? A famosa linha tênue entre a realidade e a fantasia e a circunstância de como engravidou. Guy supostamente abusou dela enquanto dormia, porque “não quis esperar” pra ser pai. De novo: desde quando brotou esse interesse dele em ser pai? Outra questão a ser analisada. Quando tem certeza de que está grávida, Rosemary fica radiante. E os Castevets passam a ter um cuidado especial com ela. Sucos e bolos especiais, além de um novo obstetra, Dr Sapirstein, amigo dos Castevets.

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O obstetra diz a ela para não se comunicar com amigas e nem falar sobre gravidez com elas ou ler livros sobre o assunto, alegando que cada gravidez é diferente uma da outra. Rosemary tem desejos estranhos como carne crua e perde peso durante a gravidez (e o corte icônico de Vidal Sassoon só acentuou ainda mais isso), aumentando a preocupação de Hutch e das amigas. Gravidez onde a mulher perde ao invés de ganhar peso? Sem contar nas dores constantes e o medo de perder o bebê. Além de tudo isso, a paranóia.

Sim, a paranóia. Rosemary passa a desconfiar dessa amizade tão forte de Guy com os Castevets. Percebe que ele não olha mais pra ela como antigamente, como se tivesse uma repulsa por ela. Esconde algo no ombro, uma marca, com um band-aid cor da pele. A cegueira do ator que concorria a vaga com Guy. A morte de Hutch. Segredos sobre o passado do pai de Roman vão aparecendo também. Adrian Marcato, um bruxo, foi morto na porta do Bramford. Acontecimentos bizarros deixam Ro encasquetada. Desconfia que o marido tenha se envolvido em algum tipo de magia negra. Pacto com o diabo para obter sucesso? Uma criança. É esse o preço? E wow, informações demais. Rosemary precisa ser rápida pra sair desse complô maligno. A vida de seu bebê, Andy ou Jenny, depende disso. Seja ele de Guy ou de alguma outra entidade superior. O pesadelo de olhos abertos de Rosemary faz com que ela desconfie de todos a sua volta, menos de seu bebê. Todos nós esperamos que Rosemary se vingue dos vizinhos intrometidos, inclusive do marido. Mas será que seu instinto maternal permitirá isso?

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Uma singela análise: Rosemary é submissa e confia muito em Guy.  Foi assim que Polanski trabalhou na posição da mulher como refém da sociedade machista. Uma mulher obediente ao marido esforçado e aspirante a fama. Uma família que exala perfeição pelos poros, o que não deixa de ser uma crítica à sociedade norte americana, a vida de aparências e o conservadorismo clichê. Quando um casal homossexual é citado no livro (são vizinhos de Rosemary e Guy) é possível perceber um tom na voz do narrador no seguinte parágrafo, quando se trata das pessoas do edifício:

“Nem sombra, contudo, das Irmãs Trench (comiam criancinhas, literalmente), nem de Adrian Marcato (o bruxo mor, um dos pioneiros da magia negra) e Keith Kennedy, Pearl Ames (seus seguidores), ou seus atuais equivalentes, Dubin e DeVore eram homossexuais, e todos os demais pareciam gente absolutamente comum”

É claramente perceptível que eles não são citados como gente comum e sim junto com as irmãs canibais e com o líder da magia negra. Atuais equivalentes. Gente diferenciada? A visão que os Castevets tem de religião também é digna de nota: indústria do entretenimento. Quando o Papa visita a cidade, eles dizem: “figurinos, rituais…é assim em qualquer religião, não só no catolicismo” e “o quanto que gastam em jóias, minha nossa”.

Assim como o filme O Exorcista, o Bebê de Rosemary tem um background macabro de acontecimentos no histórico de produção do filme. Um ano depois do lançamento do “Bebê”, Sharon Tate, mulher de Polanski, foi assassinada pela seita de Charles Manson, que por sua vez culpou o Álbum Branco dos Beatles sobre cometer as atrocidades. Vale ressaltar também o fato de John Lennon ter sido assassinado em frente ao Edifício Dakota em Nova York, local onde morava.

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O Bebê de Rosemary não utiliza artifícios como sangue e gore. É um terror psicológico de alto nível justamente pela sua natureza realista (pode acontecer com qualquer um, até comigo, que suco de couve é esse, mãe?), pela reflexão da existência de sociedades secretas. Há muito tempo que bruxas não são mais representadas com nariz pontudo e sem atrativos. São todos trabalhados na elegância e na inteligência, além de estarem ligados a pessoas importantes como grandes pensadores ou filósofos.

O longa foi um dos precursores de filmes como O Exorcista e A Profecia. Mia Farrow está estupenda como Rosemary. John Cassavettes faz Guy e Ruth Gordon está divina como Minnie Castevet, papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Assista abaixo ao trailer do filme:

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Pra finalizar, a trilha de Krzysztof Komeda captura cada momento do longa brilhantemente. Seja os momentos felizes em família como os de tensão, os cânticos dos representantes da seita e, claro, a paranóia sem limite de Rosemary. Por exemplo, esta composição do filme soa como uma agradável música ambiente de um dentista sádico prestes a te estribuchar:

Livro e filme magistrais. Não tem como falar “o livro é melhor”, porque a adaptação é tão fiel que não é possível colocar um acima do outro. De verdade. Não vai se arrepender. Desconfie daquele seu vizinho prestativo e bonzinho. Dica de amigo.​

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Cinema | Crítica Instantânea | Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (The Way He Looks)

(pra ouvir lendo o texto: THERE’S TOO MUCH LOVE, Belle and Sebastian) http://youtu.be/FXAbar6PzRA

PS.: Antes conseguia inserir os vídeos pelo Live Writer, mas agora o thumbnail não quer aparecer. Mas o link está aí, obrigado, de nada.

Sem delongas, porque eu tava há tempos querendo falar sobre esse filme que começou como um curta metragem. Dirigido por Daniel Ribeiro e protagonizado por Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme incrível. Repito, incrível. Tanto o curta como o longa. Se complementam. O curta soa como um trailer, ao meu ver. Há mudanças sutis no percorrer, mas a essência é a mesma. Trata um tema sério com leveza e doçura.

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Leonardo (Lobo), um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca do seu lugar, de sua independência. Saber lidar com suas limitações e a super proteção da mãe são coisas necessárias de seu cronograma. Sua inseparável melhor amiga, Giovana (Amorim) se decepciona ao saber da vontade dele de fazer um intercâmbio, com o intuito de se libertar desses fatores do seu cronograma chato. Pequenas brigas com os pais acontecem aqui e ali, mas no geral, a convivência é pacífica. O pai é bem mais compreensivo que a mãe, entende que ele é jovem, quer lidar com o mundo afora e ter novas experiências e tal. Mas quer que o filho saia de casa pelos motivos certos. Com a chegada de um novo aluno na classe, Gabriel (Audi), Léo é despertado por sentimentos até então desconhecidos e sua forma de “ver” o mundo é completamente modificada.

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Que trilha. Ai ai, que trilha sonora. Músicas como Spiegel im Spiegel (que tocou em bastante filme já, por sinal), Modern Love (Bowie, rei das trilhas, tendência), as peças clássicas de Schubert (já vista em Barry Lyndon), Tchaikovsky, Bach, entre outros só acentuam a sensibilidade do filme. Músicas que cresci ouvindo e, sem dúvida, me relacionei bastante. E, por último mas não menos importante, a música chave do filme: There’s too much Love, Belle and Sebastian, se encaixou como uma luva. Até o título em inglês foi muito bem sacado: The Way He Looks. Tanto que tive que dar destaque a ele no título da postagem.

O bullying mostrado no filme acontece sempre mesmo. Natural da idade certas idiotices. É realmente interessante que o preconceito dos colegas de classe era mais por Léo ser cego que homossexual, principalmente nos dias de hoje onde a homofobia e a ignorância não tem limites. Não estou dizendo que não teve piadinhas com esse cunho durante o filme, teve, mas o fato de ele ser cego ocasionou bem mais gracinhas. Outro ponto: não sexualizar demais o assunto, como outros filmes (não estou criticando, é só um ponto que faz HEQVS ser único e sensível).

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Os atores: Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim: a química dos três, a amizade deles. Dá gosto de ver a leveza das cenas, as risadas, as brigas e como logo de cara Gabriel se deu bem com os dois que, aparentemente, eram os menos populares da turma, ao invés de se juntar com os mais populares e irritantes. Ele tinha tudo pra se juntar aos populares: beleza, carisma e etc, só pra constar. A forma como o longa se desenrola, as sensações (por um lado convicta, pelo outro nem tanto), a convivência, o companheirismo de Gabriel e Léo, nada soa exagerado ou forçado. É tudo tão natural, saca?

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O final, bem, como era de se esperar mesmo. O que se falou sobre esse filme, o hype todo em cima dele: não foi a toa. Sensibilidade, doçura, REALIDADE. Não só do Léo, mas como de muita gente. E é uma pena que o preconceito impere. No filme, impera de modo mais moderado, mas não exclui o fato de na vida real ser ainda pior a aceitação. Um filme pra ser passado nas escolas, SIM. De respeito.

É capaz que ainda esteja em cartaz. Até semana passada tinha horários disponíveis, só pra constar. Deixo aqui com vocês o curta metragem, cujo título original é EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO, que é uma ótima introdução ao longa. Como eu disse logo no começo da crítica: se complementam. Assim como os carismáticos personagens. Bem, não consegui inserir o vídeo com thumbnail e tudo, mas pode clicar aqui http://youtu.be/1Wav5KjBHbI

Tranquilo, não é vírus. Aqui é um blog de família, obrigado, de nada.

FAHRENHEIT 451 | Análise Literária e Cinematográfica

(Não se incomodem com o uso do discurso indireto-livre neste post. É natural o blogueiro entrar na pele da personagem. Isso acontece quando ele menos espera. Sejam pacientes. Ou simplesmente caiam fora antes de começar a ler.)

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Queimar era um prazer. Excitante. Ninguém podia com o fogo. O crepitar das chamas era equivalente a um grande teatro, onde cada nota ecoava como uma grande orquestra sinfônica. Todos paravam pra ver o fogo: quem por ali passava e, claro, o responsável por ele. A água podia apagá-lo, mas não podia apagar sua essência, seu brilho da memória dos mortais. Assim como os livros. É justamente aí que reside a analogia dessa história que será contada. Hoje em dia, certas pessoas pessoas dizem que “livro” seria um bom elogio. “Oh, você está tão ‘livro’ hoje”. Bem, justamente nas páginas deste romance em questão, existiram, de fato, as “Pessoas-Livro”. Bem, essa parte ainda será contada. Tudo ao seu tempo.

Como pôdem ter visto no título da postagem, trata-se do romance visionário (você vai entender o porquê de ele ser visionário mais pra frente) de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, publicado em 1953. “Por que o número 451, o que ele significa?”, perguntou Clarisse McClellan. É a temperatura que as folhas dos livros atingem ao serem queimadas. Este romance de ficção científica trata-se de uma distopia: termo que pode ser usado como um fingimento pra falar do futuro quando, na verdade, nada mais é que uma crítica ferrenha ao passado e o presente.

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Imaginem um lugar onde os livros ameaçam totalmente um sistema. Um sistema totalitário onde a leitura é terminantemente proibida. Um lugar onde balanços e bancos de praça deveriam ser destruídos, porque só de pensar em pessoas sentadas conversando, devaneando, era inadmissível. As pessoas paravam de ler por conta própria, por medo de sofrerem repressão do governo: “vamos, leia o livro:  não tem nada de interessante nele, mas sabemos que a curiosidade pra saber o que contém nele te corrói”. Literalmente. O querosene e as chamas que o digam. Aquela “falsa liberdade”. Liberdade que o homem jamais poderia suportar.

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Guy Montag, o protagonista, é um bombeiro que passa por uma séria crise existencial e percebe que vive uma vida de mentira ao lado da esposa Mildred, que passa o dia na frente da TV com seus “parentes” televisivos ou com fones de ouvido, isolada do mundo real. Todos nessa época em questão chamavam uns aos outros de “primos”, claro, pra forjar certa cortesia e interesse pelos demais. Clarice McClellan, uma jovem “pensante”, diferente de todos os outros (exceto os próprios tios), reflete sobre o mundo e o que tem nele, diferente de todos, ela olha as pessoas nos olhos e gosta quando os outros demonstram o mesmo interesse que ela.

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Depois que Guy a conhece, ele fica ainda mais fascinado pelos livros, livros que ele mantinham escondidos por anos até da esposa. Ironicamente, durante e depois da reflexão toda, o bombeiro recebe uma proposta de promoção no emprego do Capitão Beatty, chefe da equipe, inquisidor-mor. Abomina os livros mas, por outro lado, sabe cada citação de cor. Sabe muito bem o que deseja destruir. Faber, um ex-professor que trabalhava numa editora antes da proibição dos livros, se torna uma espécie de esperança ao bombeiro e o ajuda na missão de se rebelar contra a ditadura em que é obrigado a viver, lutando pela preservação da memória, pelos pensamentos. Numa das missões, Montag e Beatty passaram na casa de uma mulher que se recusou a sair de dentro de sua imensa biblioteca particular. Depois de terem espalhado todo o querosene, a própria acendeu um fósforo e se perdeu dentre as chamas. Ela conhecia a lei. Só se recusou a seguí-la a risca.

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Antigamente, os bombeiros apagavam incêndios. Hoje, eles começam um. Porque é viável pra eles. É viável pro sistema. Sistema que prega a igualdade, igualdade essa ameaçada pelos livros. Mas o que tem de tão ameaçador neles? A resposta já está presente na própria pergunta. Vejamos, “Ética”, de Aristóteles. Qualquer um que tenha lido, vai se achar um passo a frente do outro. E bem, não é isso que o governo quer. A única forma de atingir a felicidade é: todos devem ser iguais.

Essa era a desculpa de Beatty para a exterminação dos livros: trazer felicidade ao mundo, superar o preconceito. O intuito era se livrar de tudo aquilo que incomodava, que os forçava a pensar. Mas até onde isso seria positivo? A mulher de Montag não se lembrava de como conheceu o marido ou o que fazia em tal dia…Detalhes importantes sobre a vida eram esquecidos graças a vida vazia, onde a conversa e as lembranças não tinham poder algum. “Comprei um presente pra você pra comemorar…bem, esqueci o que exatamente, mas espero que goste”. Reflitam. Veja bem, ele não queria exterminar a comunicação em si: só queria evitar que aquilo se tornasse profundo demais. Profundo. Saber demais se tratava do ego inflado, da prepotência.

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Exemplos. Um livro sobre câncer de pulmão…”Os fumantes estão preocupados, para tranquiliza-los, nós queimamos o livro”. Na escola, sempre tinham raiva daquele que sabia de tudo, daquele que sabia de todas as respostas das perguntas. Era sempre o tirado pra Cristo pelos demais alunos. Saber mais era, automaticamente, o inferno que o indivíduo teria que suportar pelo resto da vida, de acordo com Beatty. Os escritores eram sempre cheios de si com suas teorias e filosofias baratas que, no final de tudo, eram sempre as mesmas. Um livro é uma arma carregada na casa do vizinho. A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas. Não deixe a melancolia infestar nosso mundo de felicidade.

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Beatty estranha o comportamento de Montag e desconfia que ele esteja escondendo alguns livros que rouba durante as missões. Eis que, logo depois de Guy pedir demissão do corpo de bombeiros, o capitão pede que ele se junte a todos pela última vez. Guy fica sem palavras quando percebe que o carro para em frente a sua própria casa. A máscara caiu. Assim como seus livros de cada esconderijo. No livro, uma denúncia anônima. No filme, adaptado com louvor por François Truffaut em 1966, sua mulher Linda (no livro ela se chama Mildred), o denuncia, pois não suportava mais a casa, o ambiente.

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Linda representava o povo: o medo daquilo que ela desconhecia, daquilo contido nos livros. Quando ela tocava um livro sem querer, ela se assustava, como se estivesse tocando num rato morto. Sempre se teme aquilo que não é familiar. Sobre o final de Beatty: fascinante. E pode-se dizer que ele provocou o próprio desfecho. E por vontade própria. Curioso. Tanto no livro, como no filme, é o mesmo final. Sem mais detalhes.

Sobre as “Pessoas-Livro”. Os rebeldes que conseguiam fugir se refugiavam em florestas próximas a linhas de trem e memorizavam o conteúdo dos livros pra quando o regime passasse. Daí o nome “Pessoas-Livro”. A frase “você está tão ‘livro’ hoje” nunca fez tanto sentido. Logo depois de acabar de ler um livro, queimavam-no. Claro, logo depois de memorizá-lo. Você até pode destruir o livro físico, mas não pode apagá-lo de vez da memória de cada um deles.

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No prefácio do livro da 2ª edição do Fahrenheit 451 publicada em 2012, Freud, ao saber que seus livros estavam sendo queimados em praça pública pelos nazistas em 1933, disse: “Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, se contentam em queimar meus livros”. Assim como os discos dos Beatles queimados por religiosos fanáticos depois da polêmica (e mal interpretada) frase de John Lennon: Os Beatles são mais populares que Cristo. Ringo Starr disse: “Ah, não tem problema: eles vão comprar tudo de novo mesmo”. O título da obra de Salvador Dali, Persistência da Memória, se encaixa perfeitamente aqui: essa era a única forma de salvar os  livros: armazenando-os num lugar onde ninguém poderia tirar.

Atualmente, claro, a leitura não é proibida. E muito menos valorizada. A população atual, por que não?, adoraria viver neste lugar, onde o superficial e a imagem eram mais importantes que qualquer coisa. Como viver com alguém repreendendo pensamentos ou tentando bloqueá-los? O sistema quer cada vez mais pessoas desinteressadas (lê-se burras) para que possa dominá-las apenas com diversão. “Mantenham-nas se divertindo, mantenham-nas sempre em movimento”. Se pararmos pra pensar, isso não é diferente da nossa realidade. Daí o motivo de Fahrenheit 451 ser considerado um romance visionário. Ele se passa numa época não muito distante da nossa. E o pior de tudo: os livros não precisam virar cinza pra provar isso tudo. Pra provar o atraso mental.

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O filme dirigido por Truffaut é bem fiel ao livro, apesar de sutis mudanças no decorrer de algumas cenas em relação às páginas. De mudanças sérias, as únicas são a ausência do Sabujo – o cão de caça mecânico farejador – e do velho sábio Faber, ex-professor. Não vou dar mais detalhes, pois é importante que você leia e assista pra comparar. Como eu sempre digo, nada de estragar surpresas. E ah, por último, mas não menos importante: a trilha sonora é de ninguém menos do que BERNARD HERRMANN. Sim, os violinos freneticamente friccionados dele também se encaixaram como uma luva no longa.

Outro questionamento interessante: de onde vem o sangue? Vejam bem, quando Linda (Mildred) é encontrada desacordada por Montag em seu apartamento por ter tomado comprimidos supostamente pra insônia, ao invés de chegar um médico, vem dois enfermeiros e substituem o sangue dela e ela fica nova em folha. A pele fica alvíssima e Linda fica radiante e no outro dia ela nem lembra que desmaiou. De onde vem o sangue? Será um simples banco de sangue? Ou será sangue daquele que desobedeceu a lei? É tão fácil assim substituir todo o sangue do corpo de uma pessoa? Uma pessoa tem cerca de 5 ou 6 litros de sangue, só pra constar.

Apesar de algumas linhas desses parágrafos parecerem spoilers, acreditem, elas não são completas. Pra buscar as respostas com exatidão, leia Fahrenheit 451.

PS.: A cena dos livros sendo folheados pelo vento e queimados em seguida é dolorosa, mas não deixa de ser poética. Truffaut acertou em cheio. Poesia visual. Além de diversas obras conhecidas serem citadas. Uma verdadeira (e singela) aula de literatura.

Confira a ficha técnica do filme no Filmow http://filmow.com/fahrenheit-451-t4999/

Obrigado, de nada.

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Cinema | Crítica Instantânea : Her

Her, dirigido e roteirizado por Spike Jonze, é uma ótima pedida e grande merecedor das indicações ao Oscar 2014: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora, Melhor Canção Original (“The Moon Song”, de Karen O) e Melhor Design de Produção.

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Mas independente das premiações – que nem sempre são justas – nossa, que filme digno. Não só pela fotografia, que é linda (o jogo de cores no escritório do protagonista), as paisagens, os passeios e tudo o mais, mas pela beleza da Scarlett Johanson ser tão presente, mesmo não estando em corpo e carne no filme (oh ok).

Her trata-se de um filme cujo assunto é uma variante do universo digital e suas reflexões e como a tecnologia influi fortemente no ser humano. No caso de Theodore, personagem de Joaquin Phoenix, escritor, recém separado da mulher, instala um novo sistema operacional que possui inteligência artificial que entende sua personalidade e necessidades a cada resposta, assim traçando seu perfil. Nada de teclado, mouse. Voz e movimentos corporais.

O computador e o celular, sempre ligados ao fone de ouvido, interagem com ele sob uma voz sussurante e rouca de Samantha, voz de Scarlett Johanson. Claro que não demora muito até ele se apaixonar perdidamente por ela. Bem, e ela por ele. Ela o entende como ninguém. Seu passado, seu presente. Ela realmente consegue sentir o que ele sente. O pensamento de Samantha em relação ao mundo dos humanos muda completamente e ela fica fascinada e, como ela mesmo diz, ela evolui com toda e qualquer situação que ela venha a passar.

Mas…ela é um sistema operacional. Desde quando ela tem sentimentos? Engraçado que, no decorrer do filme, de tanto conviver com o Theodore, ela acaba adquirindo manias dele, como de suspirar, por exemplo. Mas desde quando ela precisa de oxigênio? Outra questão: ela é exclusivamente dele? A interação entre eles vão ficando cada vez mais forte e quando ele descobre que não é “exclusivo”, a coisa muda de figura. Como ela irá dizer isso tranquilamente ao amado humano? Vai ficando cada vez mais difícil suportar um relacionamento sem se tocarem, sem o mundo físico. Não, uma alternativa curiosa sugerida pelo inteligente Sistema Operacional não deu lá muito certo.

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Até onde chega a capacidade de “duas pessoas” (no caso, uma só apaixonada pelo computador) que se amam perceberem se seu relacionamento é real ou, no caso, apenas uma programação. Algo completamente utópico um sistema operacional inteligente captar com precisão as preferências de uma pessoa e, automaticamente, aceitar seus defeitos sem pestanejar. O até então feliz escritor colocou fé nesse romance justamente por ser fácil demais, por se encaixar perfeitamente nos gostos dele? É raro o sistema operacional discordar dele em algo, vamos combinar. O filme também critica (de forma poética, claro) o mundo virtual, que cada vez mais separa o ser humano um do outro, assim privando-o de sentimentos reais.

Scarlett exala beleza com sua voz rouca sexy e misteriosa e a atuação de Joaquin Phoenix está digna do Oscar, porém, não foi indicado nessa categoria, por ironia do destino. O que é, de fato, um relacionamento? A tendência é justamente extinguir a interação humana, o corpo a corpo? É possível programar o nosso par perfeito? Sem mais delongas, vão ver HER. Já. Obrigado, de nada.

Cinema | Crítica Instantânea: Medianeras

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Bárbaro. Verdadeiro estudo sobre o cotidiano e como a internet diminuiu o contato humano e a vontade de viver. Além de ser uma boa aula de arquitetura e o melhor disso: usando a mesma pra explicar a verdadeira essência da pessoa que vive essa “cultura do inquilino”, como o próprio filme denomina.

O próprio título já diz: Medianera, aquela parte lisa e sem serventia dos edifícios, geralmente usada como propaganda. Soa como uma prisão e, então, somos obrigados a quebrar parte dela (um buraco ilegal) pra conseguirmos enxergar o que há muito não enxergamos.

Temo dizer que me enxerguei nesse filme. A mim, o vizinho, você aí sentado que tá lendo isso que eu tô escrevendo. É inevitável essa solidão que assola a tudo e a todos. Aquela velha e batida história de que “a internet te põe cara a cara com o mundo, mas te afasta da própria vida”.

Direção: Gustavo Taretto. 2011

Psicose | Romance de Robert Bloch será relançado no Brasil (!)

Não consigo falar. Alguém me traga meu saco de pão pra respirar.  Vai o que saiu na imprensa:

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50 anos indisponível, sabem o que isso significa? A Editora Dark Side, que é muito atenta, vai relançar o clássico livro que inspirou o clássico filme do Hitchcock. A obra estará disponível em 2 versões, a brochura normal (com a capa do ralo):

 Psycho (ed simples)

E a edição limitada-que-não-é-exatamente-limitada HARDCOVER (já encomendada, beajs) com fotos do filme (detalhe na tipografia oficial do filme):

Psycho (ed limitada)

Além de todo o suspense em torno do filme – não permitindo a entrada de pessoas nas sessões após os créditos iniciais do filme – Hitchcock adquiriu os direitos do Romance de Bloch e depois comprou todas as cópias do livro disponíveis no mercado. Logo, ninguém leria o final, para que ele conseguisse manter o desfecho da obra.

Isso é que é notícia boa, gente. Eu li a edição importada no começo do ano, pois ainda não tinha lido (uma vergonha).  Aposto que o lançamento tem a ver com o filme “Hitchcock”, com Anthony Hopkins (baseado no livro do Stephen Rebello, dos bastidores do filme) e, claro, com a transmissão da primeira temporada de BATES MOTEL (todos os episódios assistidos por sinal, mal posso esperar pela segunda temporada) no Universal Channel.

Agora é só esperar chegar e ler de novo. E de novo. E de novo. E oh ok, saí.

Ahhh, o blog QUINZE PRIMAVERAS ESCRITAS recebeu o press kit da Dark Side. Olha só, que irado:

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Isso é que é divulgação em grande estilo. A Dark Side, cuja temática é direcionada a livros de terror/suspense, tem várias coisas legais no catálogo, vale a pena conhecer mais a editora: http://www.darksidebooks.com.br/

Cinema | Crítica Instantânea: O Anjo Malvado

O Anjo Malvado (The Good Son, 1993) é, realmente, incrível. Por ter atores mirins como protagonistas, todo mundo acha que se trata de um filme lindo e mágico. Mas, pra minha satisfação, é o contrário. Não é por nada, mas as crianças realmente atuaram nesse filme – ainda mais que o núcleo adulto. As expressões frágeis e macabras, de Elijah Wood e Macaulay Culkin respectivamente, não deixam a desejar.

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O filme já começa dramático até o talo. Mark (Wood) presencia sua mãe falecer e seu pai, pra cuidar dos negócios, resolve mandá-lo pra casa de um tio por 3 semanas. Lá ele conhece Henry (Culkin), que parece um menino normal como todos da sua idade. Mas no decorrer da trama, ele vai se mostrando um garoto com um senso de humor maléfico e sem um pingo de escrúpulos.

Mark percebe sua verdadeira face e tenta alertar a família. Em vão. Com esses surtos de alerta, a família acaba enxergando ele como um “garoto difícil que acabou de perder a mãe e está confuso”. E Henry, como um bom psicopata que é, se aproveita disso tudo pra continuar “reinando” por aí. Como se o que ele fizesse realmente se restringisse a isso. Ele se faz de inofensivo, sob o ar de “só queria ajudar, vamos compreender que Mark é só um garoto perturbado e que precisa de ajuda”.

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Mark acaba enxergando na tia (mãe de Henry) feições maternas e a partir daí Henry não esconde mais a sua verdadeira face. As cenas se desenrolam com uma naturalidade espantosa. Ele tenta matar a irmã Connie lançando-a no gelo fino da patinação. E ainda tem uma incógnita a ser desvendada. Sobre a morte do irmão pequeno, Richard. A verdade vai aparecendo e Henry se sente acuado pelas desconfianças. Aí que ele planeja matar a própria mãe (que, de acordo com ele agora, é a mãe de Mark – então, que diferença faz se ela morrer, não é mesmo?) Enfim, só mais quatro palavras: a cena do penhasco.

A crítica caiu em cima desse filme. Além de não engolir o Macaulay como uma criança malvada (com o excesso de bondade e comicidade com Esqueceram de Mim), acharam o filme “pesado” demais, se é que me entendem. O crítico Roger Ebert achou o filme inapropriado pra crianças.

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Mas porra, não tava na cara que o filme não era pra esse público? Só por causa de atores mirins nele. Mas também, quanto estereótipo… como se nunca tivesse tido filmes com essa temática “crianças do mal”. Ele teve a pachorra de descrever o filme como “horripilante, uma experiência desagradável”. Oras, é a verdade. Isso é real. Acontece. A arte imita a vida, qual o problema nisso tudo? Não sabe brincar não desce pro play, meu querido.

“Eis que a criança queridinha da América joga um boneco de uma ponte no meio de uma avenida, causando um acidente. Isso me assusta. Eu acho muita irresponsabilidade mostrar uma criança fazendo isso. Acho que se crianças virem esse filme, algumas delas vão imitar”

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Esse filme me aguça os sentidos de uma forma, mas de uma forma… E olha que mundo pequeno: o roteiro é de Ian McEwan, escritor britânico dos livros Jardim de Cimento, Sábado, Reparação, entre outros. E parando pra pensar, o universo das tramas dele realmente se batem. O estilo único de sua escrita. Nada é “lindo e mágico”. É real. Acho que por isso gosto tanto do trabalho dele.

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Cinema | Crítica Instantânea: Threesome: Três Formas de Amar

Como não ando mais escrevendo críticas detalhadas no blog, acabo fazendo críticas instantâneas no Facebook. Lidem com isso ou não. THREESOME passou certa vez no Intercine (aliás, nostalgia – era legal ver os filmes sendo votados e tal, mas dava uma raiva quando o que você torcia pra ganhar perdia) e dessa vez resolvi assistir de novo.

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Dirigido por Andrew Fleming, não acho que seja exatamente uma comédia romântica. Uma jovem de nome Alex (Lara Flynn Boyle) é encaminhada pr’um alojamento masculino da faculdade, por um erro de computador, e passa a dividir o quarto com Eddy (Josh Charles) e Stuart (Stephen Baldwin).

Eddy é o sensível/inteligente e Stuart é (no começo) repugnante, mas com o passar do tempo, você acaba se simpatizando por ele. A linda Alex é aspirante a atriz e logo se apaixona por Eddy que, por sua vez, não tem certeza de seus desejos (ou tem e está cego demais pra admitir). Um diferente triângulo amoroso onde nem tudo sai como o imaginado.

Vários filmes com o passar dos anos imitaram essa proposta “tripla” do Fleming, mas não lembro de nenhum tão intenso, engraçado e apaixonante quanto. A trilha também é demais: New Order, Duran Duran, Tears for Fears, blá blá blá..

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Sweet Norma | No! I Tell You No!

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– No! I tell you no! I won’t have you bringing some young girl in for supper! By candlelight, I suppose, in the cheap, erotic fashion of young men with cheap, erotic minds!

– Mother, please…!

– And then what? After supper? Music? Whispers?

– Mother, she’s just a stranger. She’s hungry, and it’s raining out!

– “Mother, she’s just a stranger”! As if men don’t desire strangers! As if… ohh, I refuse to speak of disgusting things, because they disgust me! You understand, boy? Go on, go tell her she’ll not be appeasing her ugly appetite with MY food… or my son! Or do I have tell her because you don’t have the guts! Huh, boy? You have the guts, boy?

– Shut up! Shut up!

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It’s sad when a mother has to speak the words that condemn her own son. I couldn’t allow them to believe I would commit murder. They’ll put him away now as I should have years ago. He was always bad and in the end he intended to tell them I killed those girls and that man, as if I could do anything but just sit and stare like one of his stuffed birds. Oh, they know I can’t even move a finger and I won’t. I’ll just sit here and be quiet just in case they do…. suspect me. They’re probably watching me. Well, let them. Let them see what kind of a person I am. I’m not even going to swat that fly. I hope they are watching… they’ll see. They’ll see and they’ll know, and they’ll say, ‘Why, she wouldn’t even harm a fly.’

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Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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