Crítica Literária | O Bebê de Rosemary

10743341_974410015918002_340593429_nAdaptação de livros pro cinema é coisa séria. Claro que é recomendável ler o livro antes de ver o filme, mas sabemos que nem sempre é possível.

Existe aquele tipo de adaptação com mudanças e inserção de detalhes não disponíveis nas páginas: que podem ou não funcionar. O importante é não perder a essência.

E também aquela adaptação rara, que nem devemos chamar exatamente de adaptação: é como ler o próprio roteiro do filme, de tão fiel que o roteiro é às páginas. A ordem dos acontecimentos, inclusive ler os diálogos com a voz dos atores. Esse é o caso do livro de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, fielmente adaptado por Roman Polanski (o segundo filme da Trilogia do Apartamento) em 1969.

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Antes  do começo, só um leve adendo sobre o final. Calma, nada de entregar o ouro assim tão fácil. O final do livro é mais detalhado que no filme, como é de se supor. O longa deixa a entender que será exatamente como no livro mas, pro cinema, essa tática de “deixar no ar”, funciona muito melhor. Aí reside a competência de uma boa adaptação. A fidelidade às páginas do livro dá um prazer a mais, ainda mais quando você assiste ao filme primeiro. É um post que é impossível separar o “livro” e o “filme”.

Agora sim, sobre a obra de Ira Levin. Publicado em 1967, o Bebê de Rosemary nos apresenta os recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse, que alugam um apartamento em um antigo prédio em Nova York, o Bramford, um edifício sombrio no estilo vitoriano com um extenso histórico de crimes e acontecimentos sobrenaturais, inclusive um número elevado de suicídios. Hutch, um senhor de idade amigo de Rosemary, tenta alertá-los sobre a reputação do edifício, mas a excitação de Rosemary não permite que ela enxergue com clareza e sim apenas como pessimismo por parte do amigo.

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Guy é ator de teatro e faz alguns comerciais, que é onde o dinheiro está, de fato. Por ele ser protestante, Rosemary foi renegada por sua família (católica) ao se casar com Guy. A ironia disso tudo: Rosemary renegada pela família porque se casou com um protestante. E logo com ela foi acontecer isso. Familiares no churrasco dizendo: eu avisei, oh ok.

Na lavanderia, Rosemary conhece Terry Gionoffrio, uma mulher que vivia na sarjeta e foi acolhida pelos Castevets, Minnie e Roman, seus vizinhos. Ela fala de um amuleto da sorte, uma pequena bola de prata com raiz de tannis. O cheiro é acre e forte, “precisa de tempo pra se acostumar”, diz Terry. Muito agradecida aos Castevets, estava determinada a dar um rumo à sua vida. Mas digamos que a bússola quebrou no meio do caminho. Terry se jogou do sétimo andar, deixando todos perplexos, inclusive Rosemary. Por que ela se jogou? “Que amuleto furado é esse?”, pensou Ro.

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Com isso, o casal Woodhouse conhece mais a fundo Minnie e Roman, que ajuda o casal a organizar a nova vida. O amuleto de Terry passa a ser de Rosemary. Guy se torna muito próximo do simpático casal, mas aí coisas estranhas passam a acontecer depois dessa guinada na amizade entre eles. Enquanto isso, Rosemary queria engravidar, mas Guy não se mostrava ansioso, frustrando-a.

Cabisbaixo por ter perdido um papel importante de uma peça para Donald Baumgart, subitamente ele recebe uma ligação informando que este ator tinha ficado cego misteriosamente. Bah, mas que chato conseguir o papel desta forma, não é mesmo? O que estava indo mal, de repente entra nos eixos: sucesso profissional, propostas de emprego, incluindo um seriado com a Warner Bros, hmmm, nada mal. Rosemary nota uma mudança no comportamento de Guy: preocupação com a carreira, o egocentrismo tomando conta.

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Depois de uma pequena crise, o casal Woodhouse se acerta e finalmente resolve engravidar. Eis que Guy se mostra a vontade com a idéia de ser pai, o que reanima Rosemary. Depois de uma suspeita sobremesa, Rosemary tem um pesadelo com um ritual de magia negra envolvendo os Castevets e Laura-Louise (a vizinha), todos nus, onde ela é a oferenda. Cópula com a besta. Ou uma representação dela. Tudo ao som dos excêntricos cânticos que ela costuma ouvir toda noite de Minnie e Roman. As incertezas ganham força. Em quem confiar? A famosa linha tênue entre a realidade e a fantasia e a circunstância de como engravidou. Guy supostamente abusou dela enquanto dormia, porque “não quis esperar” pra ser pai. De novo: desde quando brotou esse interesse dele em ser pai? Outra questão a ser analisada. Quando tem certeza de que está grávida, Rosemary fica radiante. E os Castevets passam a ter um cuidado especial com ela. Sucos e bolos especiais, além de um novo obstetra, Dr Sapirstein, amigo dos Castevets.

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O obstetra diz a ela para não se comunicar com amigas e nem falar sobre gravidez com elas ou ler livros sobre o assunto, alegando que cada gravidez é diferente uma da outra. Rosemary tem desejos estranhos como carne crua e perde peso durante a gravidez (e o corte icônico de Vidal Sassoon só acentuou ainda mais isso), aumentando a preocupação de Hutch e das amigas. Gravidez onde a mulher perde ao invés de ganhar peso? Sem contar nas dores constantes e o medo de perder o bebê. Além de tudo isso, a paranóia.

Sim, a paranóia. Rosemary passa a desconfiar dessa amizade tão forte de Guy com os Castevets. Percebe que ele não olha mais pra ela como antigamente, como se tivesse uma repulsa por ela. Esconde algo no ombro, uma marca, com um band-aid cor da pele. A cegueira do ator que concorria a vaga com Guy. A morte de Hutch. Segredos sobre o passado do pai de Roman vão aparecendo também. Adrian Marcato, um bruxo, foi morto na porta do Bramford. Acontecimentos bizarros deixam Ro encasquetada. Desconfia que o marido tenha se envolvido em algum tipo de magia negra. Pacto com o diabo para obter sucesso? Uma criança. É esse o preço? E wow, informações demais. Rosemary precisa ser rápida pra sair desse complô maligno. A vida de seu bebê, Andy ou Jenny, depende disso. Seja ele de Guy ou de alguma outra entidade superior. O pesadelo de olhos abertos de Rosemary faz com que ela desconfie de todos a sua volta, menos de seu bebê. Todos nós esperamos que Rosemary se vingue dos vizinhos intrometidos, inclusive do marido. Mas será que seu instinto maternal permitirá isso?

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Uma singela análise: Rosemary é submissa e confia muito em Guy.  Foi assim que Polanski trabalhou na posição da mulher como refém da sociedade machista. Uma mulher obediente ao marido esforçado e aspirante a fama. Uma família que exala perfeição pelos poros, o que não deixa de ser uma crítica à sociedade norte americana, a vida de aparências e o conservadorismo clichê. Quando um casal homossexual é citado no livro (são vizinhos de Rosemary e Guy) é possível perceber um tom na voz do narrador no seguinte parágrafo, quando se trata das pessoas do edifício:

“Nem sombra, contudo, das Irmãs Trench (comiam criancinhas, literalmente), nem de Adrian Marcato (o bruxo mor, um dos pioneiros da magia negra) e Keith Kennedy, Pearl Ames (seus seguidores), ou seus atuais equivalentes, Dubin e DeVore eram homossexuais, e todos os demais pareciam gente absolutamente comum”

É claramente perceptível que eles não são citados como gente comum e sim junto com as irmãs canibais e com o líder da magia negra. Atuais equivalentes. Gente diferenciada? A visão que os Castevets tem de religião também é digna de nota: indústria do entretenimento. Quando o Papa visita a cidade, eles dizem: “figurinos, rituais…é assim em qualquer religião, não só no catolicismo” e “o quanto que gastam em jóias, minha nossa”.

Assim como o filme O Exorcista, o Bebê de Rosemary tem um background macabro de acontecimentos no histórico de produção do filme. Um ano depois do lançamento do “Bebê”, Sharon Tate, mulher de Polanski, foi assassinada pela seita de Charles Manson, que por sua vez culpou o Álbum Branco dos Beatles sobre cometer as atrocidades. Vale ressaltar também o fato de John Lennon ter sido assassinado em frente ao Edifício Dakota em Nova York, local onde morava.

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O Bebê de Rosemary não utiliza artifícios como sangue e gore. É um terror psicológico de alto nível justamente pela sua natureza realista (pode acontecer com qualquer um, até comigo, que suco de couve é esse, mãe?), pela reflexão da existência de sociedades secretas. Há muito tempo que bruxas não são mais representadas com nariz pontudo e sem atrativos. São todos trabalhados na elegância e na inteligência, além de estarem ligados a pessoas importantes como grandes pensadores ou filósofos.

O longa foi um dos precursores de filmes como O Exorcista e A Profecia. Mia Farrow está estupenda como Rosemary. John Cassavettes faz Guy e Ruth Gordon está divina como Minnie Castevet, papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Assista abaixo ao trailer do filme:

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Pra finalizar, a trilha de Krzysztof Komeda captura cada momento do longa brilhantemente. Seja os momentos felizes em família como os de tensão, os cânticos dos representantes da seita e, claro, a paranóia sem limite de Rosemary. Por exemplo, esta composição do filme soa como uma agradável música ambiente de um dentista sádico prestes a te estribuchar:

Livro e filme magistrais. Não tem como falar “o livro é melhor”, porque a adaptação é tão fiel que não é possível colocar um acima do outro. De verdade. Não vai se arrepender. Desconfie daquele seu vizinho prestativo e bonzinho. Dica de amigo.​

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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