Crítica Literária | Misery: Louca Obsessão

Acho que desde Fahrenheit 451 de Ray Bradbury que não temos uma crítica literária aqui no Blog do Alves. E o livro a quebrar esse hiato será um do Stephen King, MISERY: LOUCA OBSESSÃO, publicado em 1987 e reeditado este ano pela Suma de Letras. Vamos lá, sem delongas, porque tô ansioso pra começar a falar.

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A história começa com um acidente de carro numa nevasca no inverno de 1987 envolvendo Paul Sheldon, o famoso escritor de livros de suspense. Mas calma: será suspense mesmo? Misery, a série de livros criada por ele, nos parece, a primeira vista, mais melosa e florida do que suspense. Suspense (e terror) é o que ele vai passar nas mãos de sua salvadora, Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que se intitula sua “Fã Número 1”. Até deu o nome da heroína à sua ~~porquinha~~ de estimação. Ela cuida dele com a maior dedicação possível, o alimenta por intravenosa, etc.

Sob a desculpa da forte neve que cai lá fora, ela diz que não pode levá-lo a um hospital, nem ligar pra sua agente (linhas de telefone com defeito, aham sei). Aparentemente, Annie se mostra tranquila cuidando dele, sem novidades. Até ela descobrir que sua querida e favorita personagem, Misery Chastain, morre no final do último livro publicado. Aí a gentileza acaba e o inferno começa.

Sheldon ganhou muito dinheiro com a série de livros da Misery, mas não ia muito com a cara dela. Quando ela morreu no parto nas páginas finais do último romance, O Filho de Misery, milhões choraram e ele também: de rir. “Finalmente, a vaca tonta bateu as botas”. Ele tinha escrito um novo romance contemporâneo sobre um ladrão de carros, com uma linguagem das ruas mesmo, enfim, um extremo do estilo que tinha colocado seu nome no topo da lista dos best sellers.

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Sobre o inferno: ele acaba de começar. E Paul Sheldon sabia que não sairia dele por tão cedo. Ele duvidava muito que Annie não ligou pra sua agente por causa da nevasca. Óbvio que isso seria a última coisa que ela faria. Se livrar da companhia de seu adorado Paul Sheldon, seu escritor favorito no mundo inteiro? Já no começo da trama, ela obriga seu hóspede a tomar o Novril (analgésico) com água suja. E não, não tem a opção de tomar a seco, como das primeiras vezes. Algo como “castigo da mamãe”: dói mais em mim do que em você, querido. Quando fica depressiva, Annie se mutila sem dó. E resta torcer pra que não desconte o mau humor no pobre do escritor inválido. Mas claro que isso não vai acontecer, não é mesmo?

Annie se dizia movida por Deus, alegando que colocaria Paul Sheldon nos eixos e daria uma segunda chance a ele. Uma chance de consertar o terrível erro de matar sua heróina. Uma churrasqueira, fluído acendedor e um fósforo. “Vamos, queime esse lixo. É pro seu bem, Paul. Sabemos que essa é sua única cópia, porque você não se leva a sério”. Assim: curta e grossa (grossa mesmo, oh ok, sem referências ao tamanho da nossa Anniezinha). Adeus “Carros Velozes”, o universo do ladrão de carros Tony Bonasaro. E olá, Misery. Sim, ela o obriga a ressuscitar Misery Chastain. “O Retorno de Misery” será escrito. Por bem ou por mal.

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Quando Annie descobre que Paul andou saindo do quarto (uma vez pra pegar remédios e alguns alimentos na despensa e a outra pra bisbilhotar suas Doces Lembranças, o que verão a seguir), usou a história dos caçadores de diamantes como exemplo. Matar não era viável: tinham que garantir que eles não fugiriam. Daí o pé decepado. No filme, apenas quebrar as duas pernas funcionou melhor. (Sim, há diferenças do livro pro filme, também a seguir).

Sobre as Doces Lembranças: Annie mantém um caderno com recortes de jornal com obituários e êxitos em sua carreira de enfermeira. Mas não é só isso. Paul descobre todas as mortes em que ela se envolveu, incluindo crianças recém nascidas, além de mortes mais antigas, como uma colega de faculdade: o gato da colega comeu veneno, subiu até a escada, onde sua dona, provavelmente bêbada, tropeça nele. Annie, religiosa fanática, não aceitava o temperamento da colega. Aliás, esse comportamento religioso se mostra no decorrer do livro e do filme. Não aceitar palavrões, por exemplo, chega a ser irritante. É a partir dos palavrões que o lado psicótico dela começa a tomar forma. Ainda antes de ela descobrir a morte de sua heroína. Religião: um elemento que nos lembra Carrie, não é mesmo? Hoho.

A trama de Misery é eletrizante, mesmo com dois personagens, o livro fica praticamente colado nas mãos. Adaptado pro cinema em 1990 pelo diretor Rob Reiner, contou com a brilhante atuação de Kathy Bates no papel da nossa querida Annie Wilkes. Eis a reação da Annie das telas ao saber que a Annie das páginas de King é bem mais barra pesada do que ela:

10406891_969453159747021_2031378018868768431_nExistem algumas diferenças do livro pro filme que devem ser levadas em conta. Mais personagens foram adicionados, para dar mais liga na telona. Xerife local, Buster, e sua sarcástica esposa, Virgínia. No livro, aparecem policiais em Silver Creek para investigar, mas que não vivem o suficiente pra contar a história. Annie não dorme em serviço. “Faça algum barulho, Paul, e eu mato você. E depois me mato”. Bem, outros policiais locais vão aparecendo e…enfim, só lendo mesmo. Se eu falar mais, estraga a brincadeira.

Sobre a escrita do Stephen King: um lance que já havia reparado em Carrie, por exemplo, é o uso dos parênteses que indicam o pensamento do oprimido. A paranóia é uma personagem principal dos livros de King. Parênteses esses que funcionam como um flashback. A metalinguagem é primorosa também: escrever um livro dentro do outro, refletindo até na diagramação (os Ns escritos a mão, já que a máquina de escrever Royal comprada por Annie tinha a letra N faltando – bem, a letra E e a letra T amb m cairão no d corr r da trama e oh ok parei.

King é um sacana: criou uma personagem mala adorada por gordinhas carentes comedoras de pasta de amendoim e odiada pelo seu criador. Aplausos pra ele. Nem Sheldon aguentava mais Misery. A série de livros é por demais melosa. Somos obrigados a ler o processo de criação do “Retorno de Misery” e bem, confesso que não é o melhor momento do livro. A não ser que o leitor goste de histórias melosas. Sinto que pedras virão ao meu encontro depois dessa declaração, mas é o que é: a maldade de Annie para com Paul que rege as 326 páginas de Misery: Louca Obsessão. A brilhante ironia de tudo isso reside no fato da série Misery ser odiada por Sheldon. Mas foi com Misery Chastain que ele chegou onde chegou, financeiramente falando.

É, Paul. Você foi salvo da morte. Para entrar no inferno. Se você vai sair dele, bem…só lendo pra saber. Um thriller psicológico pra ninguém botar defeito.

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Misery

PS.: Sobre o uso do remédio fictício, Novril, King teria afirmado ser uma metáfora sobre a sua própria dependência das drogas e ao modo como, na época, a família dele o teria ajudado a resolver o problema.

Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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