O Lado Bom da Vida: Mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá

O indivíduo se recusa a ir ao cinema, apenas porque está disposto a assistir ao “filme da própria vida”. Engraçado que a vida dele nem é lá tão interessante assim. Mas ainda assim, ele tenta ver o lado bom de tudo. Por mais que tenha que se esforçar pra isso.

Escrito por Matthew Quick, “O Lado Bom da Vida”, conta a história de Pat Peoples, professor  do ensino médio, acredita que sua vida é um filme e Deus é o produtor por trás. Depois de ter passado 4 anos numa instituição psiquiátrica (tempo o qual ele se refere como “apenas alguns meses”), se prepara física e emocionalmente para se reconciliar com sua esposa Nikki, depois do “tempo separados”: ele flagrou sua mulher com outro homem e se descontrolou.

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O título original é Silver Linings Playbook. A expressão Silver Lining se refere ao contorno ilumunado das nuvens quando encobrem o sol, dando a entender que mesmo numa situação ruim, algo pode soar positivo. Logo, a tradução livre do livro (e do filme, como verão a seguir) faz completo sentido e foi muito bem traduzida para o português. Não vou me ater muito à sinopse e já vou partir logo pros detalhes, porque eu não me aguento. Comentário pessoal: li o livro compulsivamente em um dia.

Voltando à história… Diagnosticado com um transtorno bipolar, Pat volta a morar com os pais e tenta recuperar sua sanidade e mudar completamente seu jeito de ser drasticamente – tudo pelo bem de sua tarefa e sua obsessão por enxergar seu “final feliz”. Ele se recusa a enxergar qualquer coisa além do seu final feliz.  Pat está completamente cego pela idéia de que Nikki vai voltar a amá-lo algum dia e passa a ler todos os  livros que ela passa na aula de Literatura para os alunos.

O pai de Pat o trata com completa indiferença e não sabe lidar com o fato de o filho ser um “doente mental” – é assim que ele se refere ao filho. Não abertamente, claro. Mas deixa subentendido. Os amigos o tratam diferente e a esposa se recusa a vê-lo e evita comentar o que realmente aconteceu. Pat quase matou o amante da mulher de pancadas e depois do diagnóstico dele foi criada uma ordem de restrição judicial, na qual ele teria que ficar a pelo menos 150 metros de distância da ex-mulher, com a qual ele ainda sonhava em se reatar.

A música Songbird do Kenny G atormenta Pat ao extremo, porque foi a música que tocou em seu casamento e foi a música que estava tocando enquanto sua mulher estava na banheira com outro. E ele não aguenta os “acordes sensuais do sintetizador” mesclado ao solo de saxofone. O medo quase infantil que ele tem do saxofonista soa um tanto engraçado. Aliás, depois do “incidente”, Pat se mostra cada vez mais infantil, o que o torna cativante: a inocência com a qual age.

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Como Pat lida com essa ilusão e com a indiferença do pai? Se tornando uma pessoa extremamente sensível e fazer coisas boas que, antes, ele não tinha o hábito de fazer. “Estou praticando ser gentil ao invés de ter razão”, diz ele.  Mas é bem como dizem: é preciso passar por experiências desagradáveis pra aprender a analisar melhor a vida. Como uma retrospectiva ambulante. A vida inteira passa por nossos olhos, como numa fita de vídeo. Como na morte, imagino. Oh ok, foco. Viciado em exercícios físicos (ele corre vestindo um saco preto de lixo que, segundo ele, serve pra ajudar a suar e, automaticamente, emagrecer), Pat está obcecado por seu final feliz. Entretanto, mal sabe ele que a vida tem um jeito engraçado de mudar completamente o ritmo sem alterar a felicidade no final.

Um dos melhores momentos é o surto dele ao perceber que Nikki passa livros com finais deprimentes às crianças na escola em que leciona. Ele fica doente de raiva ao ler “Adeus às armas” de Hemingway. Mas o motivo pelo qual ele faz isso – se interessar pelo que Nikki gosta – é “derramar sabedoria” e jogar na cara das pessoas que o chamavam de “iletrado”, o estereotipando, já que ele sempre prezou por seu corpo e por ser forte. Outro surto ótimo é quando o vídeo do casamento dele com Nikki some e ele acorda a vizinhança inteira, aos berros, como se estivesse morrendo de dor no pâncreas. Oh wait. Estou falando do filme. Enfim, foco [2].

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Aliás, o livro demonstra bem sua força. Coloca a força física dele em evidência, devido a malhação e a academia particular. Torcedor fanático do Eagles – assim como seu pai e seu irmão Jake – tenta tornar esse fator em comum em algo positivo para se aproximar do pai. Em vão. No final, ele acaba falando com o filho quando dá vontade. Então ele aproveita isso. “Ser gentil é melhor que ter razão”, lembra? Pois é.

Quando achamos que a história não poderia ficar mais interessante, PLU: aparece Tiffany na vida de Pat. Tiff é irmã da mulher de seu amigo, Ronnie. Jovem depressiva que ficou viúva muito cedo e foi demitida do trabalho por transar com todo mundo do setor (“fiquei carente depois que Tommy morreu”), passa a seguir Pat em suas corridas diárias e estudá-lo detalhadamente, o que o assusta a princípio. Ele chega a dizer que seria melhor que ela se mantesse longe dele, mas não é o que acontece.

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A “loucura” de ambos é o que os tornam cada vez mais unidos, apesar de umas briguinhas aqui e ali. Não, não soa como comédia romântica. É bem mais do que isso. Sabem por quê? Porque não são enxergados como pombinhos e sim como um casal problemático julgado aos olhos de todos ao redor. Casal que se completa. Tiff promete ser a mensageira entre Pat e Nikki, já que a justiça proibiu eles de se encostarem. Só que Tiff, em troca desse favor, o convence a participar de um concurso de dança com ela. Até Pat descobrir que quem envia as cartas pra ele era… SPOILER DETECTED. Calar-me-ei.

A relação de Pat com seu irmão, Jake, é boa e amigável. Ele acaba descobrindo que seu irmão casou enquanto ele esteve no “lugar ruim” e sua mãe escondia vários detalhes de coisas que ocorreram que, aos poucos, ele foi descobrindo. Cliff Patel, psicólogo de Pat, vive testando sua índole, perguntando se ele transou com Tiffany, o que o irritava de verdade e ele sempre respondia: “sou casado” *mostra aliança* E o relacionamento dele com o terapeuta se torna ainda mais engraçado quando eles se descobrem torcedores fanáticos do Eagles. Aliás, tem partes no livro onde só se fala: “voem Eagles, vai Eagles”… é futebol que não acaba mais. Argh. Mas isso não torna o livro menos interessante, pelo contrário. A história de Pat Peoples é muito rica. Mas ok, sem mais detalhes. Vamos às pequenas diferenças entre o livro e o filme.

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O livro de Matthew Quick foi adaptado para as telonas sob a direção de David O Russell e chegou ao Brasil este ano. Com Bradley Cooper (Se Beber Não Case) como Pat, Jennifer Lawrence (Jogos Vorazes) como Tiffany, Robert De Niro (Taxi Driver) como Patrizio, pai de Pat e Jackie Weaver como Dolores, mãe de Pat. Em sua essência, o livro não difere tanto do filme, mas alguns detalhes ricos, infelizmente, se perdem (como é de se esperar). No livro, Pat soa um pouco conformado apesar de tudo. Mal de lembra das coisas e  pergunta coisas sobre o passado e presente, as quais os pais tentam omitir dele sem sucesso. No filme ele é mais intenso, mais ativo nas atitudes, por assim dizer. Tiffany mal abre a boca no livro: é mais depressiva a la Funérea do que o previsto. No filme, ela o persegue o tempo todo e fala bastante. Afinal, ela percebe que não pode viver sem Pat. Danny, o amigo de Pat, aparece mais no filme do que no livro. Acho que é pra suprir a falta de enredo de Jack, que no livro aparece bem mais.

No livro, na cena do “concurso” de dança (sim, entre aspas porque na verdade nem chega a ser um concurso, diferente do filme), há uma magia bem detalhada e a música tocada é Total Eclipse of the Heart. Os passos de dança são precisos – saltos, giros, equilíbrio (devido à habilidade de Tiffany com a dança moderna). Diferente do filme, que é outra música e os passos, apesar de bem feitos, não tem a precisão profissional que as páginas indicam.  No livro, o pai é intensamente distante de Pat e nem fala com ele. Só fala com ele ao ser chantageado pela mulher. Já no começo do filme, ele interage melhor com o filho e fala bem mais com ele. E quanto a ordem de restrição judicial de Nikki…? Balela. Afinal, o que ela fazia no concurso de dança? E o medo que ela sentia dele? Sumiu do nada? Apesar das diferenças e da rapidez com que certas coisas, caminham, o filme é digno de ser assistido muitas e muitas vezes.

Indicado a oito Oscars – Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante (De Niro), Melhor Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Melhor Edição e Roteiro Adaptado – O Lado Bom da Vida só levou uma estatueta pra casa: a de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence, que está perfeita no papel. Ela realmente convence no papel da jovem viúva problemática e temperamental. A emoção foi tanta que ela até caiu, hahahaha! Merecido.

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Obrigada, senhor, por este Oscar. Amém!

Com esta indicação de Melhor Ator, Bradley Cooper deixou pra trás o estereótipo de “ator das comédias românticas” e se mostrou excelente nesse papel, que é tão sério em sua carreira. Não foi dessa vez que ele levou, mas tenho certeza que ele vai interpretar mais papéis deste nível. E com o nível altíssimo das produções concorrentes este ano, era meio óbvio que ele não ia levar. Uma pena.

O filme não seguiu o livro a risca, o que é um pouco triste. Porém, não impediu que o filme fosse divertido e inteligente, apesar dos clichês hollywoodianos que tendem a aparecer no final de longas do estilo. Pode ser que uma nova vertente tenha sido criada com O Lado Bom da Vida: comédia romântica que não foca no amor e em risadas o tempo todo e sim nos problemas psicológicos dos protagonistas, onde eles podem se explorar melhor e, a partir daí, criar situações inusitadas e, o melhor, que cativem o público.

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Filme ótimo. Livro melhor ainda. E é justamente como o título original propõe: mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá.

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

5 Respostas para “O Lado Bom da Vida: Mesmo encoberto pelas nuvens, o sol continua lá

  1. Sensacional Felippe. Não li o livro, mas amei o filme. Todos os atores mandaram muito bem, mas o Bradley Cooper está apenas IMPECÁVEL!!! O melhor papel dele até o momento. Como você colocou muito bem: ” …deixou pra trás o estereótipo de “ator das comédias românticas” e se mostrou excelente nesse papel, que é tão sério em sua carreira.”

    Só uma observação: That I Wiould be good da Alanis é A CARA desse filme!

    Abs

    • Sim, eu gostava do trabalho dele, mas não via nada demais. Depois desse filme, o meu respeito mudou e muito. Até “Se Beber Não Case” eu vou assistir com outros olhos agora (q) HUAUHAHUAHUAHUAHUA

      MELHOR PAPEL. Ponto final. Incrível.

      Sim, é muito a cara do filme! Deu até vontade de ouvir!

  2. Bem, o filme é bom, mas estou profundamente decepcionado por ele não ser fiel ao livro. estava muito entusiasmado para assistir o filme, mas depois que o assisti não sente o mesmo de quando li o livro mais é uma boa obra. então recomendo para quem não leu o livro ainda leia e não irá se arrepender.

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Felippe Alves


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