Literatura | Crítica “Laranja Mecânica”

“A tentativa de impor ao homem, uma criatura evoluída e capaz de atitudes doces, que escorra suculento pelos lábios barbados de Deus (ou Bog) no fim, afirmo a tentativa de impor leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta escada”

(Definição do termo “Laranja Mecânica”, página 24. Editora Aleph, 10ª reimpressão)

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Como começar a falar de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess? Quando um livro é especial e tão grandioso, chega ser difícil achar logo de cara as palavras introdutórias certas. É preciso segurança para falar de uma narrativa dessa linhagem (li-nha-gem, menino ignorante). Sim, porque pra falar de crítico (oh, que alcunha) para admirador não está me custando… Maldita tenuidade.

Junto com 1984, de George Orwell e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, este livro teve grande influência na literatura de ficção científica do século XX. E por ser ficção científica seria necessário algo a mais. Algo que fizesse que as pessoas acreditassem mais facilmente no enredo da história. Então, Burgess criou uma linguagem própria para os personagens, para as gangues: o nadsat. O nadsat é uma mistura do idioma russo com o inglês popular, que faz uso de uma gíria rimada e o falar dos ciganos. No começo, os termos causam estranhamento. Depois de alguns capítulos, o leitor se familiariza com a linguagem e a leitura, viciante e hipnótica, flui.

O título vem de uma expressão anglo-saxã: “as queer as a clockwork orange” (“tão bizarro quanto uma laranja mecânica”). Mas o que é exatamente uma Laranja Mecânica? É uma laranja de ferro? Não. Os caroços dela não passam de parafusos? Tampouco. O termo “clockwork” faz alusão a alguma coisa mecânica e manipulada, algo programável. Já “orange” tem semelhança com a palavra “orangutan” (um macaco alaranjado), logo, um animal. A intenção do título é se referir ao Alex, protagonista, narrador e amante da violência, sobre o fato dele deixar de ser um “animal” e tornar-se “mecanicamente” bondoso por uma técnica suspeita do governo (que vocês verão no decorrer do texto), a fim de exterminar o crime, tornando o jovem apto para viver em sociedade e programado apenas para fazer o bem.

Publicado em 1962, Laranja Mecânica não é apenas um livro transgressor e muito a frente do seu tempo, como também tem seu enredo muito próximo da realidade. Provavelmente seja esse o fator que o difere dos demais livros e que o coloque no pedestal que ele merece. Agora, por que ele é próximo da realidade? Quer algo mais real e tão presente na vida do ser humano do que a violência? Duvido muito que o termo violência se encaixe na descrição deste romance. Os atos narrados pelo protagonista ultrapassam o significado da palavra violência. Ultraviolência se encaixa melhor. Aquela que causa prazer, excitação, arrepio. E o mais interessante disso é que não é sangue barato, violência tapa buraco. Não basta ser violento. Tem que ser elegante. Burgess ambienta Laranja Mecânica numa Inglaterra futurista inexistente, onde a violência juvenil se tornou insuportável e a única forma de erradicá-la foi a intervenção do governo com técnicas de condicionamento de conduta, de comportamento. O drugui (amigo) Alex, protagonista e narrador, tem três prazeres dos quais não abre mão (ainda). São eles: a ultraviolência, o sexo e a música clássica.

Sarcástico, malvado e inescrupuloso, Alex DeLarge mora com seus pais e inventa desculpas para não ir pra escola. Já se meteu em encrencas e foi “resgatado” por P.R. Deltoid, seu conselheiro pós-correcional. É um boêmio. Está sempre em companhia de seus três druguis: George, Pete e Tosko (Dim, no idioma original). Autoritário, quer manter seu posto de líder do grupo, o que causa irritação nos demais. O point deles é Lactobar Korova, um lugar onde são servidos copos de moloko (leite) com velocet e sintemesc (ambos traduzidos como “droga alucinógena”) e etc. A vida dele se resume em perturbar a paz dos cidadãos trabalhadores, além das belas devotchkas (garotas). Durante um ataque, depois de um desentendimento, Alex é traído por seus druguis e não consegue fugir do local do crime. É sentenciado a 14 anos de cadeia. Então ele tem a oportunidade de participar de uma experiência desenvolvida para eliminar tendências criminosas. Essa experiência é tão dolorosa quanto a ultraviolência praticada por ele: o tratamento Ludovico.

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O Tratamento Ludovico consiste numa sessão de cinema com filmes grotescos e nojentos (cenas de estupro, mutilações corporais, etc). E ele não podia fechar os olhos, sendo molhados com colírio. Não tinha como virar o olho pro outro lado e etc. No começo era até agradável para o nosso herói. Tanto que era engraçado como as cores da vida real só pareciam bem mais reais quando reproduzidas numa tela. Sabe aquele papo da imagem e sua representação? Quando algo é captado por uma câmera, quando entra na “mira” de uma câmera, tudo o que está ao redor não tem mais importância. É como se aquela imagem tivesse sido propositalmente moldada para estar ali. Tudo culpa da representação. Representar é uma palavra que soa, naturalmente, falsa. E isso não é um defeito, muito pelo contrário. Para o Alex, fazer aquelas coisas horrorshow (emocionantes) era uma coisa. Era prazeroso estar naquele ambiente, ver o sangue jorrar. Agora videá-las no lugar de espectador era outra. Não só se sentia culpado, mas era doloroso e enjoativo assistir, devido às vitaminas do tratamento. Para piorar as coisas, colocaram Ludwig van Beethoven como trilha sonora. Por favor, me matem. Qualquer coisa menos utilizar Ludwig van nestes vídeos repugnantes. Ele só fazia música. Ele não tem culpa de nada. Música clássica, no caso usá-la daquela maneira negativa, era o elemento de punição para que o efeito final fosse certeiro.

Essa tática drástica impele, naturalmente, a sua cobaia para o bem. Assim, ela jamais será capaz de fazer algo maldoso novamente contra qualquer ser vivo. A questão de “condicionamento de marginais” é bem mais complicada do que parece. Essa técnica faz com que a vítima não tenha mais poder de decisão. É como transformasse a pessoa numa máquina de fazer o bem, e só. Presa aos atos socialmente aceitáveis, ao ser maltratada, não consegue se defender. No caso de Alex, coisas que antes proporcionavam prazer: a música clássica, a literatura, o ato sexual, a arte de maneira geral, agora são consideradas como fontes primais de dor. Covardia (pra não dizer heresia) sentir dor de cabeça e vontade de se suicidar ao ouvir Ludwig van, Mozart ou Handel. No final das contas, o pobre, humilde e agora inocente narrador era um homem livre. Que tipo de liberdade é essa, condicionada? Os questionamentos que ficam no ar: o que será da vida do novo (e restaurado) Alex? Como ele será recebido pelos velhos conhecidos dele? Será que realmente valeu a pena ter saído 12 anos antes da prisão?

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Laranja Mecânica foi magnanimamente adaptado para o cinema em 1971 pelo diretor Stanley Kubrick. Malcolm McDowell deu vida (e muito bem dada, pfvr mito) a Alex DeLarge. Apesar do livro ter sido brilhantemente escrito, o último capítulo do livro é um tanto otimista e acabaria por destoar por demais do restante da narrativa. Para quem assistiu o filme, perceberá que o longa terminou justamente onde deveria terminar. O livro tem uma estrutura de 3 partes com 7 capítulos cada uma. Burgess escolheu a divisão em 21 capítulos porque na cultura anglo americana, a idade adulta é atingida aos 21 anos. Para o protagonista Alex, a idade adulta chega 2 anos antes: aos 19. E essa mat… é melhor eu me calar. Spoiler alert!!!!

Apesar das diferenças entre o livro e o filme, Kubrick se manteve extremamente fiel ao livro. E acrescentou alguns detalhes não citados no livro. Ele conseguiu (e com êxito) manter a essência da narrativa e os poucos detalhes que ele acrescentou deram “o tom”, diga-se de passagem. No livro não é citado que Alex tem uma cobra de estimação (Basil). Kubrick apresentou a Basil no filme unicamente por causa do medo de cobras do Malcolm. No livro, P.R. Deltoid aparece apenas para demonstrar seu papel autoritário devido a sua profissão de conselheiro pós-correcional. No filme, ele é levemente sádico e parece ter interesse sexual no jovem Alex, o que fica claro durante a conversa que os dois tem no quarto dos pais de Alex quando ele apalpa os países baixos do garoto. Outro caso do livro: o escritor F. Alexander (não vou detalhar pra não estragar a surpresa, só vou contar o “causo” por cima) estava trabalhando num texto cujo título era “Laranja Mecânica”. No filme, o título do manuscrito não é visualizado, não aludindo ao título do filme.

That’s it. Laranja Mecânica. Leiam um dos maiores romances com uma pitada (NOT, com muito humor negro) do século XX e assistam ao filme. Comparem as demais diferenças. É fantástico. É satírico. É brilhante. O filme complementa bem o livro. Tão transgressor, tão a frente do seu tempo. Por mais violentos que os filmes atuais sejam, eles não são classudos e elegantes como este. A genialidade em torno dele excita. Assim como a trilha sonora: Beethoven, Purcell, Rossini, etc. Um marco. Obrigatório. Quem não ler, vai levar um toltchok e, de brinde, um chute nos yarbles. Sem mais.

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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