Dostoiévski e seu “Duplo”

the double secret

Depois de um longo hiato sem postar nada… Calma, eu explico. Eu me enfurnei nos livros, filmes e leituras afins. Claro, por incrível que pareça, eu também tenho uma vida social.

Anyway, aqui vai o meu parecer em relação ao segundo romance de Fiódor Dostoiévski, O Duplo, publicado em 1846. Nele, começa o interesse do renomado escritor russo pelas profundezas da mente humana, assunto que ele também fez uso em suas seguintes obras, como O Idiota e Crime e Castigo (que eu ainda não li, mas pretendo: digo, eu comecei a ler Crime e Castigo na oitava série, mas era de uma editora chinfrim; pretendo comprar a edição da Editora 34, que traduz o russo fielmente e sem perda do sentido).

Os críticos torceram o nariz para a obra, devido ao fato do Dostô se enveredar pela análise psicológica e por fazer algo meio diferente do usual. Quando ele publicou o livro, ele já se interessava por questões mentais e a psiquiatria como um todo. Freud, por sinal, sempre elogiou o trabalho do escritor. O Duplo lida com o lado sombrio, com o dualismo do homem. Dostô escreveu o livro pensando nele próprio, visto que ele sofria de epilepsia. Ele colocou as dúvidas sobre sua personalidade no protagonista Golyadkin, o herói da história. Em termos, podemos falar que o livro tem elementos autobiográficos.

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O Duplo conta a história de Golyadkin, um conselheiro titular (o cargo não é lá grande coisa, diga-se de passagem), que tem sua identidade usurpada pelo seu próprio duplo, termo também conhecido por doppelganger (a representação do lado negativo da pessoa, que só quem tem consegue enxergar). Por ser solitário e cinzento, culpa a tudo e a todos por estar na posição em que se encontra. E pessoas solitárias tem tendência de fantasiar o impossível e criar diálogos interiores: a fragmentação de si mesmo, a bifurcação da consciência.

Golyadkin sonhava em fazer parte da nata da alta sociedade russa. Quando se vê com uma boa quantia em dinheiro, ele se ilude dizendo “com esta quantia, um homem pode ir longe”. Com os 750 rublos nas mãos, fica idiotizado e aluga a melhor carruagem e veste seu criado, Pietruchka, com a melhor roupa, e vai rumo à festa na casa dos Beriendêiev, nobreza define. Como se tivesse sido convidado, detalhe. Como ainda tinha algum tempo livre, ele passa (sem hora marcada) antes no consultório de seu médico, Crestian Ivánovitch, que lhe indica uma vida social (sim, que saísse da solidão e que se divertisse mais) e não ser “inimigo da garrafa”. O herói chega na festa e é barrado na entrada. Nisso, ele entra escondido e fica perambulando de um cômodo a outro, pisa no pé de um dos convidados, rasga o vestido de uma senhora sem querer e, como num impulso, tira Clara Olsúfievna (a filha da família) pra dançar. Todo desconcertado, erra os passos, a moça grita e é retirado da festa a força. Depois, sem a carruagem, ele fica andando pelas ruas de Petersburgo. Aí começa o pesadelo de olhos abertos. Ele avista um vulto no meio do mau tempo, fazendo o mesmo percurso que ele. Então ele descobre que esse vulto é o seu duplo, idêntico a ele, até no nome. Bem, só no nome e na aparência mesmo.

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Com a entrada do Senhor Golyadkin II na narrativa, o livro toma um novo rumo. O Golyadkin verdadeiro se contradiz em algumas coisas que julgava corretas. Apesar de tentar, acima de tudo, ser íntegro, sincero, fiel, os seus princípios éticos serão sua própria armadilha. Seu duplo vai usar as palavras dele contra ele e desmoralizá-lo perante as pessoas que vivem ao redor dele, a fim de ficar de vez no lugar dele: conquistar seu chefe, seus colegas de trabalho, ser reconhecido e galgar pouco a pouco pra alta sociedade. PS.: Desejos naturais do Senhor Golyadkin verdadeiro. Só que ele não sabe lidar com estes desejos. Seu duplo, traiçoeiro e ratazana, engana-o várias vezes e, por fim, acaba levando-o à loucura.

Uma cena interessante (juro, só mais essa) é quando o nosso herói entra numa lanchonete e pede um pastel. Ao pegar a conta pra pagar, percebe que não tem um pastel, mas onze! Seu duplo comeu 10 e quem teve que pagar a conta? “Nossa, que estranho! Estava com tanta fome que nem percebi”. E finalizava com a famosa frase: “Bem, não há de ser nada”. Uma característica do nosso herói: era muito conformista. O mundo psicológico dele caía ao redor e ele custava a acreditar. O otimismo de Golyadkin oscilava bastante. O interessante é que o livro termina exatamente como começou: o médico do protagonista, Crestian Ivánovitch, dando o diagnóstico final de Golyadkin. E que diagnóstico é esse? É insano. Sem mais.

O Duplo retrata, indubitavelmente, a alienação do homem. Mais uma vez realidade e fantasia mostram que não sabem viver em harmonia. Golyadkin, em russo, significa “completamente nu”, fazendo uma alusão a pobreza e falta de oportunidades. Uma obra rica em todos os sentidos. É um pontapé inicial pra quem deseja conhecer mais profundamente a obra deste admirável escritor.

Capa de "O Duplo" da Editora 34Ilustração da capa da edição da Editora 34

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

8 Respostas para “Dostoiévski e seu “Duplo”

  1. Evelyn Matos

    Belo texto, caríssimo. Nunca li esse do Dostô. E, depois de ter lido seu texto, fiquei curiosa. Abraços.

  2. Alves? Que grata surpresa o seu blog, o seu texto! Quero compartilhar no meu blog, Não acheo essa opção, dá pra me explicar ??? Rs… Abraço!

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Felippe Alves


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