MDNA: Realmente viciante como o nome sugere?

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MDNA¹, duodécimo disco de Madonna, é extremamente pessoal. Madonna é sempre pessoal, mas um álbum nunca foi tão aberto quanto este. Um disco pós divórcio (do segundo casamento, com o diretor de cinema escocês Guy Ritchie), comercial (detalhe, afinal ela precisa concorrer com as mesmas artimanhas de ~cantoras~ da atualidade) e, acima de tudo, cheio de autoreferências. Sim, autoreferências. A própria Madonna se revisita, como uma retrospectiva das três décadas de sua carreira.

O álbum consegue soar, ao mesmo tempo de forma original, como o Erotica (Gang Bang lembra a temática de Thief of Hearts), Ray of Light (I’m A Sinner tem uma parte no instrumental que lembra muito a música Ray of Light) e Confessions on a Dance Floor (essa vibe electro/house do disco nos remete a um Confessions mais moderno – quando digo mais moderno, digo que foge da Disco Music 70’s a la Donna Summer).

O MDNA apela pra dramaticidade, coisa que muitas gurias que esfregam suas vulvas nos videoclipes não tem. Uma mistura de revolta, de alegria, de “foda-se”, de diversão. Mesmo que não seja o álbum da década ou o melhor de sua carreira (até porque ele não tem essa pretensão), fica claro que rainha só tem uma. E não me refiro a da Inglaterra.

Madonna não gosta de se repetir, ela mesma já disse isso várias vezes. Porém, pelo bem dos velhos tempos, ela resolveu recrutar o velho amigo de guerra William Orbit. O produtor do Ray of Light acaba trazendo elementos do aclamado disco de 1998 e o resultado é extremamente satisfatório: as guitarras especiais, os sintetizadores, os “bleeps” e etc são marca registrada dele e que só enriquecem a obra. Claro que Madonna gosta do novo, da sonoridade fresca e moderna. Aí que ela chamou o DJ francês Martin Solveig (pra quem não conhece ele, ouça REJECTION e HELLO: vale muito a pena!)

Algumas faixas utilizam o recurso do autotune. Geralmente seria de se reclamar, mas como sabemos como é a voz da Madonna sem esse recurso (vide Evita), esse detalhe passa desapercebido (hello, disco comercial, 2012, abraços). E pode ser facilmente perdoado com a qualidade vocal das faixas Love Spent e Falling Free (melhor performance vocálica do álbum EVER). Soa como Mer Girl, de Ray of Light.

Quanto às faixas detalhadas, vamos analisá-las brevemente. Girl Gone Wild, segundo single, como eu já havia dito, é bem genérica. A primeira ouvida, você pensa: “é boa, mas pro nível Madonna…”. Mas depois de sair o clipe, a temática do álbum, você acaba percebendo que a escolha foi sábia. Inclusive pela introdução com “Act of Contrition”, de uma garota arrependida e que não consegue se livrar do pecado. Confessional. Alguém aqui lembrou da vibe Like A Prayer? *arrepios* Gang Bang *pausa pra respirar* Só uma coisa: INSANNA. Uma das músicas mais originais do disco. Dubstep com vocais graves e revoltados. Um duelo entre o bem e o mal. Madonna compôs essa música com Kill Bill na cabeça, certeza. Tanto que ela declarou na entrevista no programa do Jimmy Fallon que quer que Quentin Tarantino dirija esse vídeo. A vibe do diretor é perfeitamente notável na canção. Única. Sem mais. I’m Addicted soa como Daft Punk, a linha de baixo é maravilhosa. A música é como um vulcão prestes a explodir. Turn Up The Radio é bem comercial e tem tudo pra ser um hit. Mais uma vez Solveig acerta a mão. A introdução é a cara dele, detalhe: é grudenta como chiclete. Give Me All Your Luvin’ nem tem o que falar, né? Cansados de saber. Primeiro single, retrô, 80’s feelings, Martin captou a essência cheerleader de uma forma que… sem comentários. Some Girls é bem europop e o autotune come solto. É uma boa faixa, mas nada de tão especial. Superstar é a faixa mais doce do disco. Quando eu digo “doce”, digo doce num nível Cherish, Love Profusion e até Miles Away. Os backing vocals são de Lola Leon (filha da M). A introdução lembra muito “Hello” do Solveig. A letra faz uma singela homenagem aos astros do cinema como Marlon Brandon, Bruce Lee, John Travolta e James Dean. Agora pára tudo! I Dont Give A é muito particular. Madonna conta seu cotidiano em forma de rap (não víamos um desde American Life em 2003, hein!). Seu casamento, a correria diária, o quanto se esforçou pra manter tudo nos trinques e pra quem reclama, ela não dá a mínima. “Tentei ser uma boa garota, uma boa esposa, me diminuí, tentei me tornar tudo o que você esperava de mim e, se falhei, não dou a mínima”. Nicki Minaj tem uma participação até agradável, mas o melhor está por vir: o final da música conta com um coral crescente a la Tim Burton. Lindo, clássico. De chorar. I’m Sinner tem a produção do Orbit, tem um arranjo bacana com guitarras elétricas e é uma mistura da faixa Ray of Light com Amazing, do álbum “Music”, de 2000. Love Spent abre com banjo (banjo numa faixa dance é bem incomum, huh?) e segue com um instrumental que lembra videogames: é como se você estivesse numa fase do Mario Bros. Curiosidade pros ouvidos espertos: no começo e no meio da música, podemos ouvir elementos subliminaríssimos de Hung Up. Só os fortes entenderão. Sim, amigos: o final do álbum está chegando. Masterpiece faz parte da trilha do filme dirigido por M, “W.E: Romance do Século” e levou o Globo de Ouro de Melhor Canção Original, para a ira de Sir Elton John (risos histéricos). Trata-se de uma comparação da pessoa amada com uma obra de arte exposta num museu. Profundo. Vocais crus e a produção impecável de Mr Orbit. Ah, como ansiava por uma balada da Madonna. Suave, introspectiva. As finalizações de discos da Madonna são sempre reflexivas. Depois de uma rave, vem a reflexão. Sempre. Falling Free encerra, melancolicamente, o disco com os “bleeps” de Orbit, um arranjo lindo de cordas, solo de piano e o vocal mais trabalhado do disco. Madonna sabe cantar. Sinceras saudações para os haters que jogam a desculpa do autotune no ventilador.

MDNA é rápido como um raio de luz (tu rum dum tss). Assim, tem seus momentos house/electropop na primeira parte. Give Me All Your Luvin’, com seu viciante instrumental retrô 80’s, destoa completamente do restante do disco, visto que as primeiras músicas tem um ar electro/house fortíssimo. Mesmo destoando, ela encontra seu lugar ao sol dentre as outras. Se destaca e é uma faixa especial. Isso é um fato.

A primeira ouvida, você faz uma ~poker face~ pro álbum, por ter faixas bem distintas umas das outras. Você pisca e quando vê, já tá na faixa 10/11. E daí, VAPPO: volta pra primeira faixa de novo. Respondendo à pergunta do título: é realmente viciante? Cara, pergunta retórica. Vá ouvir o disco e diga por você mesmo. E quando eu digo isso só pode soar positivo. Acredite.

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Faixas bônus

Pra quem comprou a edição deluxe com um CD extra, tem cinco faixas extras: Beautiful Killer tem uma vibe anos 80 com uma sonoridade moderna. É interessante. Há quem diga que preferia esta no lugar de Masterpiece na versão standard. NÃO! Deixem Masterpiece onde está, putos. I Fucked Up, diferente das demais faixas onde ela culpa o ex-marido pelos problemas, ela assume ter a culpa em alguns momentos. Os vocais estão bem nus, sem autotune por aqui, amiguinhos. Falando em ausência de autotune, a música a seguir não é nem um pouco polida. E encarem isso como um elogio. B-Day Song parece um flashback dos anos 60 e é basicamente uma música comemorativa de aniversário. A letra é boba (claro, é música de aniversário), mas o instrumental é viciante: ótima bateria e o baixo é bem bacana. A faixa é tão crua que parece que nem foi mixada. É muito boa, sério. Os backing vocals da MIA dão o charme. NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA NA GONNA SING MY SONG TONIGHT. Tirar do repeat, como faz? A gente escuta essa música esperando os NA-NA-NA-NAS ansiosamente e eles só aparecem detalhados no final da canção (no teaser de lançamento do álbum, do making of, tem muito mais NA-NA-NA-NAS – o que não é o caso da música finalizada). Best Friend é mais uma música baseada no relacionamento com o ex-marido. O instrumental da música lembra MUITO o de “Pluto” da Björk. E por último, um remix de Give Me All Your Luvin’ feito pela dupla farofeira LMFAO. É, realmente acaba em Best Friend, amigos.

 

¹ MDNA faz alusão a droga MDMA, também conhecida como Ecstasy1

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

2 Respostas para “MDNA: Realmente viciante como o nome sugere?

  1. Felipe

    Adorei seu post! Qualquer pessoa que não saiba absolutamente nada sobre vc, já descobre que vc é fã #1 dela só de ler esse texto!

    Tô super ansioso para ouvir essa Gang Bang, viu… Mas como eu já previa, a sua crítica tbm não me deixou esperançoso de que eu estaria prestes a ouvir uma obra mágica. Eu não gostei de saber que é mais um álbum comercial, eu esperava mais dela, algo inovador, exclusivo, novidade, ousadia tipo Stripped ou Back to Basics (apesar de eu não ir com a cara dela, admito que esses dois álbuns MITARAM na época).

    Mas mesmo sabendo que vou achar bem comum o CD, sei que vou gostar! s2

    Anyways, ainda não deu tempo de passar em nenhuma loja pra retirar minha cópia, mas fiquei besta de saber que em 1 dia o álbum vendeu mais de 40.000! :-O Poder define!

    Acho que vou ~baixar~ pra poder matar a vontade enqnto eu não compro! hehers

    • Sim, mitaram e passaram uma outra imagem (ainda mais o B2B). Sabe como é… algumas vezes o “comercial” pode mitar. Só por ela estar se revisitando, já vale. Claro que não terá nunca álbuns como os anteriores, mas este é bem agradável (apesar de ter uma ou duas músicas que parecem ter sido feitas pra finalizar o espaço no álbum). As 10 músicas restantes são perfeitas. Não tem a magnitude de um Like a Prayer ou um Erotica da vida, mas dá conta. É bem melhor que muitas canções ~moderninhas~ que temos por aí hoje. Numa época comercial como essa, nada como um álbum comercial. Mas neste caso, álbum comercial pode soar positivo.

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Felippe Alves


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