A pastilha

4 de julho de 1974. Uma e vinte cinco da tarde. Aniversário da independência dos Estados Unidos. Maureen discutia com os pais na sala de estar:

– Vocês são impressionantes mesmo! Acham normal me prender numa redoma. Eu tenho uma vida, sabiam? Por que simplesmente não me esquecem um pouco?

Sua mãe respondeu:

– Você tem apenas 16 anos. Acha o que, que é dona do seu nariz e que pode fazer o que bem entender? Eu já estou cansada dos seus tiques. Por que você não é como seu irmão? Ele está sempre ocupando a mente com aulas de artes e cinema. Está sempre pensando no futuro. Se eu te deixar mais solta, você foge das suas obrigações e isso eu não vou tolerar. Não vou mesmo.

O pai deixou registrada a sua reclamação diante do comportamento da filha:

– Ou você se cadastra na escola de arte amanhã cedo ou pode esquecer shopping e saídas com suas amigas do colégio. É isso.

– Vão se foder! – disse e saiu de casa em direção à praça, batendo a porta com toda a sua força.

A mãe de Maureen achou esta a frase mais sensata que a filha falou e resolveu seguir literalmente o conselho da filha. Mas isso é assunto pra outro texto, pra outra ocasião. Finalmente reinava a paz naquela casa. Pelo menos momentânea. Maureen precisava de ar, de paz. Precisava ir à praça pra pensar no que ia fazer da vida.

Ironicamente, naquele aniversário de independência de sua pátria, depois de ter brigado com seus pais, Maureen mal sabia que estava igualdade fadada à sua. Estava tão absorvida em seus pensamentos que nem viu um belo rapaz sentar ao seu lado. Seu nome era Richard. Descrever exatamente como foi o diálogo deles neste conto seria cansativo e muito dramático. Vamos poupar vocês, leitores, desta parte. Começaram a conversar. Uma coisa eu digo: foi amor à primeira vista. Naquela época, amor à primeira vista era uma coisa fácil e um tanto previsível. Quando menos perceberam, estavam falando de suas vidas problemáticas e aspirações profissionais, além de trocarem telefones.

Maureen estava com o dia salvo, sem sombra de dúvida. Já nem se lembrava mais da discussão com os pais naquele mesmo dia. Richard combinou de voltar no mesmo banco, daquela mesma praça no dia seguinte. Ao abrir a porta de casa, Maureen deu de cara com o seu pai, todo desgrenhado. Parecia que tinha sido atacado por um cachorro. Ou no caso, por uma cachorra. E então ele disse:

– Espero que se cadastre na escola de artes amanhã cedinho, ouviu Maureen?

– Sim, tanto faz – disse com a maior tranquilidade do mundo.

Maureen acordou cedo e foi direto para a praça. Ao chegar, viu que Richard já estava sentando, esperando por ela. Ele a cumprimentou com um forte abraço e ofereceu-lhe uma pastilha. Ao ver a tristeza no rosto de Maureen, ele a intimou:

– Vamos sair daqui?

– Perdão, como disse? – ela perguntou, confusa.

– Digo, não do país. Vamos mudar de cidade. Ohio já deu o que tinha que dar. Vamos fazer nossas vidas juntas em outro lugar, longe de tudo e de todos, onde eu não possa ver você assim tão triste.

Oh não. O dramalhão mexicano. Sai dessa.

– O que pretende fazer?

– Vamos para Nova York. Nossa beleza e inteligência vai inundar a Big Apple. Arranjaremos um emprego e vamos arrumar nossa vida.

Quinze minutos conversando e planejando suas vidas juntos, a pastilha de Maureen (pasmem!) ainda não tinha se dissolvido. A emoção de estar perto daquele homem que havia salvado seu dia infernal com a família foi tanta que ela até ficou roxa. Inicialmente, Richard pensou que ela estava roxa de felicidade. Mas só alguns segundos depois ele percebeu que Maureen estava se engasgando com a pastilha. Oh não, a pastilha assassina. Por que fui dar esta pastilha a ela? Sem saber o que fazer, totalmente por instinto, Richard a beijou longa e profundamente (na boca, é claro, em que século estamos, for God’ sake?) e, milagrosamente, a pastilha desentalou-se da garganta de Maureen. Naquele momento, Richard percebeu. Percebeu o verdadeiro motivo. E foi o que bastou para perceber que aquele salvamento não era por acaso. Adeus casa dos pais, olá vida nova com a pessoa amada.

Com a chegada daquele promissor casal, a cidade de Nova York nunca mais foi a mesma. Criaram um seriado de televisão que atingiu o pico de audiência logo nas três primeiras semanas e teve seu contrato renovado por mais 25 anos. Com suas vidas pessoais e profissionais consolidadas, Maureen e Richard não podiam estar melhores. Isso até Maureen descobrir que ele a traía com a assistente de iluminação. O fato é: de que diabos serviu aquela pastilha? Reflitam.

Felippe Alves

Anúncios

Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

4 Respostas para “A pastilha

  1. Tássio Broza

    Que post mais surreal. Essas suas histórias são doidas.

    REFLITAO no final!
    PQP porra, todo aquele dramalhão, aquela história toda, aquelas descrições TODAS pra um final surreal de “oh a pastilha engasgou, te salvei com um beijo vamos embora pro mundo das fadas e sermos felizes na televisão e aí depois voltamos a realidade e eu te traio com o assistente de iluminação todos chora”

    Sério, de onde vem essas idéias absurdas? =P

    Abs

  2. Tássio Broza

    HAHAHAHA se mire no meu exemplo, rapaz: Faço desenhos com o carinha se dando bem nas cenas. O que é contrário de mim na vida real =P

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

What we´re gonna do right here is go back

março 2011
S T Q Q S S D
« fev   abr »
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  

Latest Tweets

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

%d blogueiros gostam disto: