Notícia inesperada

Uma calma noite de quarta-feira se desenrolava na casa da família Figueiredo durante o jantar. A tranqüilidade não perdurou por muito tempo. Catarina, a filha de 16 anos, tinha uma confissão a fazer.

– Pai, mãe: estou grávida.

Subitamente, o pai engasgou-se e disse:

– Como… assim, grávida?

– Sei que o senhor não vai entender, mas peço que deixe-me explicar o que aconteceu – defendeu-se a filha. – Gosto muito dessa pessoa que gerou este filho em mim. Porém, para minha infelicidade, o pouco caso que ele fez quando recebeu a notícia foi frustrante para mim. Confiei-lhe meu amor, minha vida, e ele não soube corresponder à confiança.

A mãe fixou-lhe um olhar penetrante, o qual ela jamais esqueceria, e disse:

– Agora, por teu descuido, serás mãe solteira e também mal vista pela sociedade. Foste infantil a ponto de acreditar que um homem sem nenhum escrúpulo lhe daria valor. Terás que arcar com as conseqüências.

A filha, chocada, respondeu:

– Sim, arcarei. Não os incomodarei em nada. Quanto a ser mal vista pela sociedade, não vejo motivos para preocupar-me. Afinal a vida é minha, não presto contas a ninguém.

O pai, chateado com a frieza da mulher, disse:

– Você não deve ser tão radical. A menina errou, e quer consertar o que fez. A criança não tem culpa pelo fato de que virá ao mundo. O que devemos fazer é criá-la com muito amor e dedicação.

– Estou tão atordoada com o que aconteceu, e muito irritada também – disse a mãe. – Claro que a criança não tem culpa nenhuma. Mas quero que fique claro: de mim não receberás nenhuma ajuda. Não a ajudarei no seu erro. Afinal, a criança é uma obrigação que você tem que arcar.

– Sim, mamãe. Se essa é a sua palavra final, conformo-me desde já. Com licença.

Catarina deixou a mesa com a cabeça erguida. Trancou-se em seu quarto e chorou muito.

Pouco tempo depois, os pais foram para a cama. A mãe deitou-se sem nenhum remorso, lúcida de como tinha agido.

Na manhã de quinta, quando o sol ainda nem tinha aparecido no horizonte, Catarina fecha a porta de seu quarto silenciosamente, deixando um bilhete na escada enquanto desce silenciosamente até a cozinha. Dá uma olhada na casa antes de se retirar pela porta dos fundos.

Horas mais tarde, a mãe acorda meio aérea e, ao descer as escadas, depara-se com um papel jogado. Sem saber do que se trata, o pega e lê a primeira linha: “Mãe: antes de tudo, quero que saiba de uma coisa”. Lendo a primeira linha, pareceu-lhe que sua vida materna passou inteira pelos seus olhos. Desde o nascimento de Catarina, lembrando nostalgicamente a felicidade de ter uma filha em seus braços e também relembrando os aniversários em família. Percebia agora como agiu injustamente, deixando seus instintos falarem mais alto. Com apenas a primeira linha do bilhete cravada em sua mente, não conseguiu ler o resto. Estava tão fora de si e tão decepcionada com o acontecido que desmaiou, rolando escada abaixo. O pai, que roncava na cama, ouviu o barulho. Assustado, levantou-se rapidamente. Abriu a porta do quarto, e de vista pra sala de estar, viu a esposa caída. Desceu rapidamente as escadas para socorrê-la. Estava sangrando muito, não sabia se corria para um hospital ou se daria tempo de socorrer a esposa. Perdido em seus pensamentos, se dá conta de um papel que está preso na mão direita da esposa salpicado com sangue. Abre o papel e lê, trêmulo:

“Mãe: antes de tudo, quero que saiba de uma coisa:

Não lhe guardo rancor. Entendo o porquê ter agido desta maneira. Sei que não gostaria de ver-me passando por uma situação vergonhosa como esta. Pai, agradeço-lhe pela compreensão e por fazer de tudo para que eu não me sentisse mal. Obrigada por mostrar-se paciente com a situação, fazendo de tudo para ajudar-me. Espero que entendam o que me levou a sair desta casa. Com amor, Catarina.”

Não se conformava com a fuga da filha e agora tudo ficava claro: entendia claramente a queda da mulher na escada. Sabia que tinha ficado atordoada e conseqüentemente, levando a um (tardio) arrependimento. A tragédia já estava concretizada: viu que a esposa apresentava um estado crítico, sangrando muito. Levou-a para o hospital, em prantos. Alguns minutos depois, os médicos dão a notícia de seu falecimento. Agora sim a desgraça do pai de família estava completa.

Dias depois, Catarina volta para a casa com um semblante contente, como se fosse dizer algo ao seu pai. O encontra sentado na sala de estar, chorando.

– O que aconteceu, pai?

– Sua mãe. Após ler o bilhete mal explicado que você deixou, atordoada, caiu da escada e faleceu na quinta-feira, logo após sua saída desta casa.

Catarina não sabia o que falar. O baque foi tão profundo que esqueceu o que ia dizer. Ao abraçar o pai para consolá-lo, ele lhe empurra contra a parede com toda a força. A compreensão que tinha pela filha se esvaiu rapidamente:

– Estava disposto a lhe ajudar, porém, mais uma vez, não agiu com maturidade. Ao invés de enfrentar a situação, fugiu deixando um maldito bilhete que ocasionou esta tragédia. Como teve a capacidade de voltar para esta casa? Percebeu que não saberia viver lá fora sem recursos e agora volta sem nenhuma consideração? Você foi a causadora da tragédia, podia ter evitado isso, porém não o fez. Sinto informá-la que a única coisa que sinto no momento por você é desgosto. A vontade que sinto agora é de morrer. Porque viver com essa tragédia ofuscando minha felicidade é impossível. Vou-me embora para a Europa. Deveria deixá-la na rua depois do que fez, porém minha consciência não permite. Você mesmo disse que arcaria com as conseqüências, não? Pois então. Deixo-lhe esta casa para poder criar esta criança e uma boa quantia em dinheiro. Espero que tenha compreendido.

Catarina, fragilizada, não falou mais nada. Nada mais podia fazer.

Dias depois, tentando esquecer o que se ocorreu nos dias anteriores, o pai embarca rumo a Paris.

Duas semanas depois, a polícia contata o pai de Catarina em Paris:

– Senhor, precisamos que volte para sua casa o mais rápido possível.

– Por quê?

– Não dá pra explicar por telefone. É sobre Catarina.

Forçado, o pai volta ao país. De longe, avista carros de polícia cercados por toda a casa. Vai à procura do policial que lhe diz:

– Senhor, é difícil o que tenho pra dizer. Ainda mais sabendo da tragédia que se desenrolou há quase um mês. Sua filha foi encontrada morta em sua casa ontem, enforcamento. Provavelmente suicídio, encontramos as digitais dela na corda.

Ficou desconcertado. Logo pensou no filho em que ela esperava. Por mais que tentasse falar, nenhum som saiu de sua boca. O policial disse que levou Catarina ao hospital para ter provas mais concretas sobre a gravidez da jovem. O policial pegou o exame para mostrar a ele.

– Aqui na autópsia diz que Catarina não esperava filho nenhum.

– Como assim?

– É o que diz o exame.

O homem ficou sem o que falar. O policial o chamou para terminar de contar o acontecido sobre a filha, mas tudo estava claro pra ele. Triste e com sentimento de culpa e frustração, saiu da casa sem olhar pra trás, rumo ao aeroporto. Mal sabia que o avião cairia apenas duas horas depois.

 

Felippe Alves

10 de janeiro de 2008

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Sobre Felippe Alves

Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

Uma resposta para “Notícia inesperada

  1. Amanda Gomes

    Só tenho uma coisa a comentar…

    O.O

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Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

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