Crítica Literária | O Bebê de Rosemary

10743341_974410015918002_340593429_nAdaptação de livros pro cinema é coisa séria. Claro que é recomendável ler o livro antes de ver o filme, mas sabemos que nem sempre é possível.

Existe aquele tipo de adaptação com mudanças e inserção de detalhes não disponíveis nas páginas: que podem ou não funcionar. O importante é não perder a essência.

E também aquela adaptação rara, que nem devemos chamar exatamente de adaptação: é como ler o próprio roteiro do filme, de tão fiel que o roteiro é às páginas. A ordem dos acontecimentos, inclusive ler os diálogos com a voz dos atores. Esse é o caso do livro de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, fielmente adaptado por Roman Polanski (o segundo filme da Trilogia do Apartamento) em 1969.

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Antes  do começo, só um leve adendo sobre o final. Calma, nada de entregar o ouro assim tão fácil. O final do livro é mais detalhado que no filme, como é de se supor. O longa deixa a entender que será exatamente como no livro mas, pro cinema, essa tática de “deixar no ar”, funciona muito melhor. Aí reside a competência de uma boa adaptação. A fidelidade às páginas do livro dá um prazer a mais, ainda mais quando você assiste ao filme primeiro. É um post que é impossível separar o “livro” e o “filme”.

Agora sim, sobre a obra de Ira Levin. Publicado em 1967, o Bebê de Rosemary nos apresenta os recém-casados Rosemary e Guy Woodhouse, que alugam um apartamento em um antigo prédio em Nova York, o Bramford, um edifício sombrio no estilo vitoriano com um extenso histórico de crimes e acontecimentos sobrenaturais, inclusive um número elevado de suicídios. Hutch, um senhor de idade amigo de Rosemary, tenta alertá-los sobre a reputação do edifício, mas a excitação de Rosemary não permite que ela enxergue com clareza e sim apenas como pessimismo por parte do amigo.

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Guy é ator de teatro e faz alguns comerciais, que é onde o dinheiro está, de fato. Por ele ser protestante, Rosemary foi renegada por sua família (católica) ao se casar com Guy. A ironia disso tudo: Rosemary renegada pela família porque se casou com um protestante. E logo com ela foi acontecer isso. Familiares no churrasco dizendo: eu avisei, oh ok.

Na lavanderia, Rosemary conhece Terry Gionoffrio, uma mulher que vivia na sarjeta e foi acolhida pelos Castevets, Minnie e Roman, seus vizinhos. Ela fala de um amuleto da sorte, uma pequena bola de prata com raiz de tannis. O cheiro é acre e forte, “precisa de tempo pra se acostumar”, diz Terry. Muito agradecida aos Castevets, estava determinada a dar um rumo à sua vida. Mas digamos que a bússola quebrou no meio do caminho. Terry se jogou do sétimo andar, deixando todos perplexos, inclusive Rosemary. Por que ela se jogou? “Que amuleto furado é esse?”, pensou Ro.

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Com isso, o casal Woodhouse conhece mais a fundo Minnie e Roman, que ajuda o casal a organizar a nova vida. O amuleto de Terry passa a ser de Rosemary. Guy se torna muito próximo do simpático casal, mas aí coisas estranhas passam a acontecer depois dessa guinada na amizade entre eles. Enquanto isso, Rosemary queria engravidar, mas Guy não se mostrava ansioso, frustrando-a.

Cabisbaixo por ter perdido um papel importante de uma peça para Donald Baumgart, subitamente ele recebe uma ligação informando que este ator tinha ficado cego misteriosamente. Bah, mas que chato conseguir o papel desta forma, não é mesmo? O que estava indo mal, de repente entra nos eixos: sucesso profissional, propostas de emprego, incluindo um seriado com a Warner Bros, hmmm, nada mal. Rosemary nota uma mudança no comportamento de Guy: preocupação com a carreira, o egocentrismo tomando conta.

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Depois de uma pequena crise, o casal Woodhouse se acerta e finalmente resolve engravidar. Eis que Guy se mostra a vontade com a idéia de ser pai, o que reanima Rosemary. Depois de uma suspeita sobremesa, Rosemary tem um pesadelo com um ritual de magia negra envolvendo os Castevets e Laura-Louise (a vizinha), todos nus, onde ela é a oferenda. Cópula com a besta. Ou uma representação dela. Tudo ao som dos excêntricos cânticos que ela costuma ouvir toda noite de Minnie e Roman. As incertezas ganham força. Em quem confiar? A famosa linha tênue entre a realidade e a fantasia e a circunstância de como engravidou. Guy supostamente abusou dela enquanto dormia, porque “não quis esperar” pra ser pai. De novo: desde quando brotou esse interesse dele em ser pai? Outra questão a ser analisada. Quando tem certeza de que está grávida, Rosemary fica radiante. E os Castevets passam a ter um cuidado especial com ela. Sucos e bolos especiais, além de um novo obstetra, Dr Sapirstein, amigo dos Castevets.

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O obstetra diz a ela para não se comunicar com amigas e nem falar sobre gravidez com elas ou ler livros sobre o assunto, alegando que cada gravidez é diferente uma da outra. Rosemary tem desejos estranhos como carne crua e perde peso durante a gravidez (e o corte icônico de Vidal Sassoon só acentuou ainda mais isso), aumentando a preocupação de Hutch e das amigas. Gravidez onde a mulher perde ao invés de ganhar peso? Sem contar nas dores constantes e o medo de perder o bebê. Além de tudo isso, a paranóia.

Sim, a paranóia. Rosemary passa a desconfiar dessa amizade tão forte de Guy com os Castevets. Percebe que ele não olha mais pra ela como antigamente, como se tivesse uma repulsa por ela. Esconde algo no ombro, uma marca, com um band-aid cor da pele. A cegueira do ator que concorria a vaga com Guy. A morte de Hutch. Segredos sobre o passado do pai de Roman vão aparecendo também. Adrian Marcato, um bruxo, foi morto na porta do Bramford. Acontecimentos bizarros deixam Ro encasquetada. Desconfia que o marido tenha se envolvido em algum tipo de magia negra. Pacto com o diabo para obter sucesso? Uma criança. É esse o preço? E wow, informações demais. Rosemary precisa ser rápida pra sair desse complô maligno. A vida de seu bebê, Andy ou Jenny, depende disso. Seja ele de Guy ou de alguma outra entidade superior. O pesadelo de olhos abertos de Rosemary faz com que ela desconfie de todos a sua volta, menos de seu bebê. Todos nós esperamos que Rosemary se vingue dos vizinhos intrometidos, inclusive do marido. Mas será que seu instinto maternal permitirá isso?

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Uma singela análise: Rosemary é submissa e confia muito em Guy.  Foi assim que Polanski trabalhou na posição da mulher como refém da sociedade machista. Uma mulher obediente ao marido esforçado e aspirante a fama. Uma família que exala perfeição pelos poros, o que não deixa de ser uma crítica à sociedade norte americana, a vida de aparências e o conservadorismo clichê. Quando um casal homossexual é citado no livro (são vizinhos de Rosemary e Guy) é possível perceber um tom na voz do narrador no seguinte parágrafo, quando se trata das pessoas do edifício:

“Nem sombra, contudo, das Irmãs Trench (comiam criancinhas, literalmente), nem de Adrian Marcato (o bruxo mor, um dos pioneiros da magia negra) e Keith Kennedy, Pearl Ames (seus seguidores), ou seus atuais equivalentes, Dubin e DeVore eram homossexuais, e todos os demais pareciam gente absolutamente comum”

É claramente perceptível que eles não são citados como gente comum e sim junto com as irmãs canibais e com o líder da magia negra. Atuais equivalentes. Gente diferenciada? A visão que os Castevets tem de religião também é digna de nota: indústria do entretenimento. Quando o Papa visita a cidade, eles dizem: “figurinos, rituais…é assim em qualquer religião, não só no catolicismo” e “o quanto que gastam em jóias, minha nossa”.

Assim como o filme O Exorcista, o Bebê de Rosemary tem um background macabro de acontecimentos no histórico de produção do filme. Um ano depois do lançamento do “Bebê”, Sharon Tate, mulher de Polanski, foi assassinada pela seita de Charles Manson, que por sua vez culpou o Álbum Branco dos Beatles sobre cometer as atrocidades. Vale ressaltar também o fato de John Lennon ter sido assassinado em frente ao Edifício Dakota em Nova York, local onde morava.

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O Bebê de Rosemary não utiliza artifícios como sangue e gore. É um terror psicológico de alto nível justamente pela sua natureza realista (pode acontecer com qualquer um, até comigo, que suco de couve é esse, mãe?), pela reflexão da existência de sociedades secretas. Há muito tempo que bruxas não são mais representadas com nariz pontudo e sem atrativos. São todos trabalhados na elegância e na inteligência, além de estarem ligados a pessoas importantes como grandes pensadores ou filósofos.

O longa foi um dos precursores de filmes como O Exorcista e A Profecia. Mia Farrow está estupenda como Rosemary. John Cassavettes faz Guy e Ruth Gordon está divina como Minnie Castevet, papel que lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Assista abaixo ao trailer do filme:

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Pra finalizar, a trilha de Krzysztof Komeda captura cada momento do longa brilhantemente. Seja os momentos felizes em família como os de tensão, os cânticos dos representantes da seita e, claro, a paranóia sem limite de Rosemary. Por exemplo, esta composição do filme soa como uma agradável música ambiente de um dentista sádico prestes a te estribuchar:

Livro e filme magistrais. Não tem como falar “o livro é melhor”, porque a adaptação é tão fiel que não é possível colocar um acima do outro. De verdade. Não vai se arrepender. Desconfie daquele seu vizinho prestativo e bonzinho. Dica de amigo.​

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Crítica Literária | Misery: Louca Obsessão

Acho que desde Fahrenheit 451 de Ray Bradbury que não temos uma crítica literária aqui no Blog do Alves. E o livro a quebrar esse hiato será um do Stephen King, MISERY: LOUCA OBSESSÃO, publicado em 1987 e reeditado este ano pela Suma de Letras. Vamos lá, sem delongas, porque tô ansioso pra começar a falar.

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A história começa com um acidente de carro numa nevasca no inverno de 1987 envolvendo Paul Sheldon, o famoso escritor de livros de suspense. Mas calma: será suspense mesmo? Misery, a série de livros criada por ele, nos parece, a primeira vista, mais melosa e florida do que suspense. Suspense (e terror) é o que ele vai passar nas mãos de sua salvadora, Annie Wilkes, uma ex-enfermeira que se intitula sua “Fã Número 1”. Até deu o nome da heroína à sua ~~porquinha~~ de estimação. Ela cuida dele com a maior dedicação possível, o alimenta por intravenosa, etc.

Sob a desculpa da forte neve que cai lá fora, ela diz que não pode levá-lo a um hospital, nem ligar pra sua agente (linhas de telefone com defeito, aham sei). Aparentemente, Annie se mostra tranquila cuidando dele, sem novidades. Até ela descobrir que sua querida e favorita personagem, Misery Chastain, morre no final do último livro publicado. Aí a gentileza acaba e o inferno começa.

Sheldon ganhou muito dinheiro com a série de livros da Misery, mas não ia muito com a cara dela. Quando ela morreu no parto nas páginas finais do último romance, O Filho de Misery, milhões choraram e ele também: de rir. “Finalmente, a vaca tonta bateu as botas”. Ele tinha escrito um novo romance contemporâneo sobre um ladrão de carros, com uma linguagem das ruas mesmo, enfim, um extremo do estilo que tinha colocado seu nome no topo da lista dos best sellers.

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Sobre o inferno: ele acaba de começar. E Paul Sheldon sabia que não sairia dele por tão cedo. Ele duvidava muito que Annie não ligou pra sua agente por causa da nevasca. Óbvio que isso seria a última coisa que ela faria. Se livrar da companhia de seu adorado Paul Sheldon, seu escritor favorito no mundo inteiro? Já no começo da trama, ela obriga seu hóspede a tomar o Novril (analgésico) com água suja. E não, não tem a opção de tomar a seco, como das primeiras vezes. Algo como “castigo da mamãe”: dói mais em mim do que em você, querido. Quando fica depressiva, Annie se mutila sem dó. E resta torcer pra que não desconte o mau humor no pobre do escritor inválido. Mas claro que isso não vai acontecer, não é mesmo?

Annie se dizia movida por Deus, alegando que colocaria Paul Sheldon nos eixos e daria uma segunda chance a ele. Uma chance de consertar o terrível erro de matar sua heróina. Uma churrasqueira, fluído acendedor e um fósforo. “Vamos, queime esse lixo. É pro seu bem, Paul. Sabemos que essa é sua única cópia, porque você não se leva a sério”. Assim: curta e grossa (grossa mesmo, oh ok, sem referências ao tamanho da nossa Anniezinha). Adeus “Carros Velozes”, o universo do ladrão de carros Tony Bonasaro. E olá, Misery. Sim, ela o obriga a ressuscitar Misery Chastain. “O Retorno de Misery” será escrito. Por bem ou por mal.

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Quando Annie descobre que Paul andou saindo do quarto (uma vez pra pegar remédios e alguns alimentos na despensa e a outra pra bisbilhotar suas Doces Lembranças, o que verão a seguir), usou a história dos caçadores de diamantes como exemplo. Matar não era viável: tinham que garantir que eles não fugiriam. Daí o pé decepado. No filme, apenas quebrar as duas pernas funcionou melhor. (Sim, há diferenças do livro pro filme, também a seguir).

Sobre as Doces Lembranças: Annie mantém um caderno com recortes de jornal com obituários e êxitos em sua carreira de enfermeira. Mas não é só isso. Paul descobre todas as mortes em que ela se envolveu, incluindo crianças recém nascidas, além de mortes mais antigas, como uma colega de faculdade: o gato da colega comeu veneno, subiu até a escada, onde sua dona, provavelmente bêbada, tropeça nele. Annie, religiosa fanática, não aceitava o temperamento da colega. Aliás, esse comportamento religioso se mostra no decorrer do livro e do filme. Não aceitar palavrões, por exemplo, chega a ser irritante. É a partir dos palavrões que o lado psicótico dela começa a tomar forma. Ainda antes de ela descobrir a morte de sua heroína. Religião: um elemento que nos lembra Carrie, não é mesmo? Hoho.

A trama de Misery é eletrizante, mesmo com dois personagens, o livro fica praticamente colado nas mãos. Adaptado pro cinema em 1990 pelo diretor Rob Reiner, contou com a brilhante atuação de Kathy Bates no papel da nossa querida Annie Wilkes. Eis a reação da Annie das telas ao saber que a Annie das páginas de King é bem mais barra pesada do que ela:

10406891_969453159747021_2031378018868768431_nExistem algumas diferenças do livro pro filme que devem ser levadas em conta. Mais personagens foram adicionados, para dar mais liga na telona. Xerife local, Buster, e sua sarcástica esposa, Virgínia. No livro, aparecem policiais em Silver Creek para investigar, mas que não vivem o suficiente pra contar a história. Annie não dorme em serviço. “Faça algum barulho, Paul, e eu mato você. E depois me mato”. Bem, outros policiais locais vão aparecendo e…enfim, só lendo mesmo. Se eu falar mais, estraga a brincadeira.

Sobre a escrita do Stephen King: um lance que já havia reparado em Carrie, por exemplo, é o uso dos parênteses que indicam o pensamento do oprimido. A paranóia é uma personagem principal dos livros de King. Parênteses esses que funcionam como um flashback. A metalinguagem é primorosa também: escrever um livro dentro do outro, refletindo até na diagramação (os Ns escritos a mão, já que a máquina de escrever Royal comprada por Annie tinha a letra N faltando – bem, a letra E e a letra T amb m cairão no d corr r da trama e oh ok parei.

King é um sacana: criou uma personagem mala adorada por gordinhas carentes comedoras de pasta de amendoim e odiada pelo seu criador. Aplausos pra ele. Nem Sheldon aguentava mais Misery. A série de livros é por demais melosa. Somos obrigados a ler o processo de criação do “Retorno de Misery” e bem, confesso que não é o melhor momento do livro. A não ser que o leitor goste de histórias melosas. Sinto que pedras virão ao meu encontro depois dessa declaração, mas é o que é: a maldade de Annie para com Paul que rege as 326 páginas de Misery: Louca Obsessão. A brilhante ironia de tudo isso reside no fato da série Misery ser odiada por Sheldon. Mas foi com Misery Chastain que ele chegou onde chegou, financeiramente falando.

É, Paul. Você foi salvo da morte. Para entrar no inferno. Se você vai sair dele, bem…só lendo pra saber. Um thriller psicológico pra ninguém botar defeito.

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PS.: Sobre o uso do remédio fictício, Novril, King teria afirmado ser uma metáfora sobre a sua própria dependência das drogas e ao modo como, na época, a família dele o teria ajudado a resolver o problema.

Teatro | Crítica Instantânea | RITA LEE MORA AO LADO: toque a campainha…

…e espere ela atender. Ela vai te atender.

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Devido ao sucesso de público, a adaptação teatral do livro “Rita Lee Mora ao Lado – Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock”, do escritor e músico Henrique Bartsch, a peça Rita Lee Mora ao Lado foi prorrogada até 23 de novembro. Pouco mais de um mês. Corre que dá tempo.

Dizer que a Mel Lisboa interpreta Rita Lee no palco do Teatro das Artes no Shopping Eldorado soa modesto. E como a personagem interpretada por ela, a ninfeta Anita da minissérie global, já dizia que “a modéstia é para os medíocres”, é mais cabível dizer aqui que ela DÁ VIDA a Rainha do Rock brasileiro de uma forma esplendorosa.

Mel disse em várias entrevistas que não é cantora. É uma atriz que canta. Ela sempre foi muito insegura com sua voz e ainda faz aulas de canto e fono. O treino constante claramente está fazendo muito bem. Não só mostra que é afinada como pegou cada trejeito vocal – cada respiração específica – da Rita. Voz é algo muito pessoal, é a identidade de cada pessoa, mas é possível, em uma faixa ou outra, dizer: “opa, a Rita Lee passou por aqui”.

Engraçado, porque Mel quase chegou a desistir do papel. Afinal, é uma responsabilidade imensa dar vida a um dos maiores ícones da música nacional. Ler, ouvir, estudar Rita oito dias por semana, 28 horas por dia: foi assim intensa a preparação de Mel para o papel. E o resultado ficou realmente digno. No final de agosto, a peça saiu de cartaz, desiludindo muitos fãs que perderam. Mas o sucesso foi tão estrondoso que a peça voltou aos palcos até 23 de novembro no Teatro das Artes no Shopping Eldorado em São Paulo.

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Sobre a produção. A idéia surgiu há 4 anos, quando o diretor Marcio Macena leu o livro de Bartsch. Na peça, a trajetória de Rita é contada desde a infância até os dias de hoje por Barbara Farniente, interpretada por Carol Portes (pra quem não conhece, interpreta a Carol, amiga da Natália Klein na sitcom Adorável Psicose, transmitida pelo Multishow). Barbara foi vizinha de Rita e acompanhou de perto a vida da família da cantora. Detalhe: a mãe de Barbara era apaixonada pelo pai de Rita. Essa perspectiva sob a ótica da Barbara foi idéia da própria Rita. A peça não tem compromisso histórico ou cronológico, dando assim mais liberdade em relação aos fatos e a escolha das músicas. Por exemplo, aos 13 anos de idade, ao fazer xixi no sapato de um dos colegas na escola, Rita se faz de perplexa enquanto os amigos cantam “Erva Venenosa”. E as expressões faciais de Mel? Outro primor a parte. As caretas debochadas são o charme a parte.

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O repertório conta com 40 canções performadas ao vivo, incluindo Agora Só Falta Você (que abre o espetáculo lindamente), Lança Perfume, Baila Comigo, Mania de Você, Ovelha Negra, Esse Tal de Roque Enrow (essas duas últimas do disco Fruto Proibido, meu preferido dela) e também hits dos Mutantes como Hey Boy, Top Top e Panis et Circenses. Astros e estrelas da nossa música como Elis Regina, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor, João Gilberto, Gal Costa, Tim Maia e Ney Matogrosso (interpretado pelo Fabiano Augusto, cuja presença de palco e performance vocal são óbvias) também fazem parte do espetáculo em diferentes épocas da vida de Rita, interpretados por atores extremamente competentes, em especial a atriz que faz a Hebe Camargo (Débora Reis) – que imitação bárbara. De chorar de rir.

Quando Barstch propôs a biografia à Rita, ela se negou dizendo que era somente pra “gente morta”. Daí ele a convenceu da proposta diferente das biografias convencionais e então ela deu sinal pra ele continuar. Lançada em 2006, a biografia foi um marco para os padrões biográficos. Infelizmente, Henrique faleceu em dezembro de 2011 em decorrência de uma parada cardíaca. Mas onde quer que ele esteja, ele com certeza está orgulhoso da recepção do público da adaptação do seu livro para os palcos.

Sem mais delongas, RITA LEE MORA AO LADO é uma peça válida tanto pra quem é fã veterano quanto pra quem quer conhecer mais o vasto repertório de Rita. Seja nos Mutantes, com Tutti Frutti, com Roberto de Carvalho ou sozinha, as canções icônicas marcaram gerações e vão fazer você cantar junto. Confira o trailer da peça no link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=m9R5QfhkWjc

RITA LEE MORA AO LADO

Teatro das Artes – Shopping Eldorado

Av Rebouças, 3970 – Terceiro Piso.

Valores: De R$ 60 a R$ 100

Fotos do espetáculos tiradas por mim (ó, grande coisa)

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E ah, surpresa mesmo foi ter conseguido parabenizar a Mel pessoalmente pela peça. Atenciosa, educada e simpática. Além de talentosa e linda, vamos combinar:

Mel

E com Fabiano Augusto (Ney Matogrosso): performance vocal e presença de palco IMPECÁVEIS.

Fabiano

Cena inspirada em Fahrenheit 451

 

- Que medicamentos sua mulher toma?
- Só um momento.
- Encadernados, vermelhos, 500mg…
- São só sedativos inofensivos. Ela provavelmente misturou outra coisa perigosa por cima que não deu liga.
- Só um momento, vou verificar

Ele vai até a esposa desacordada na cama e pergunta:
- O que você tomou por cima dos comprimidos usuais, querida?

 

*risos da platéia*
*livremente inspirado de uma cena de Fahrenheit 451*

Cinema | Crítica Instantânea | Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (The Way He Looks)

(pra ouvir lendo o texto: THERE’S TOO MUCH LOVE, Belle and Sebastian) http://youtu.be/FXAbar6PzRA

PS.: Antes conseguia inserir os vídeos pelo Live Writer, mas agora o thumbnail não quer aparecer. Mas o link está aí, obrigado, de nada.

Sem delongas, porque eu tava há tempos querendo falar sobre esse filme que começou como um curta metragem. Dirigido por Daniel Ribeiro e protagonizado por Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um filme incrível. Repito, incrível. Tanto o curta como o longa. Se complementam. O curta soa como um trailer, ao meu ver. Há mudanças sutis no percorrer, mas a essência é a mesma. Trata um tema sério com leveza e doçura.

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Leonardo (Lobo), um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca do seu lugar, de sua independência. Saber lidar com suas limitações e a super proteção da mãe são coisas necessárias de seu cronograma. Sua inseparável melhor amiga, Giovana (Amorim) se decepciona ao saber da vontade dele de fazer um intercâmbio, com o intuito de se libertar desses fatores do seu cronograma chato. Pequenas brigas com os pais acontecem aqui e ali, mas no geral, a convivência é pacífica. O pai é bem mais compreensivo que a mãe, entende que ele é jovem, quer lidar com o mundo afora e ter novas experiências e tal. Mas quer que o filho saia de casa pelos motivos certos. Com a chegada de um novo aluno na classe, Gabriel (Audi), Léo é despertado por sentimentos até então desconhecidos e sua forma de “ver” o mundo é completamente modificada.

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Que trilha. Ai ai, que trilha sonora. Músicas como Spiegel im Spiegel (que tocou em bastante filme já, por sinal), Modern Love (Bowie, rei das trilhas, tendência), as peças clássicas de Schubert (já vista em Barry Lyndon), Tchaikovsky, Bach, entre outros só acentuam a sensibilidade do filme. Músicas que cresci ouvindo e, sem dúvida, me relacionei bastante. E, por último mas não menos importante, a música chave do filme: There’s too much Love, Belle and Sebastian, se encaixou como uma luva. Até o título em inglês foi muito bem sacado: The Way He Looks. Tanto que tive que dar destaque a ele no título da postagem.

O bullying mostrado no filme acontece sempre mesmo. Natural da idade certas idiotices. É realmente interessante que o preconceito dos colegas de classe era mais por Léo ser cego que homossexual, principalmente nos dias de hoje onde a homofobia e a ignorância não tem limites. Não estou dizendo que não teve piadinhas com esse cunho durante o filme, teve, mas o fato de ele ser cego ocasionou bem mais gracinhas. Outro ponto: não sexualizar demais o assunto, como outros filmes (não estou criticando, é só um ponto que faz HEQVS ser único e sensível).

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Os atores: Daniel Audi, Ghilherme Lobo e Tess Amorim: a química dos três, a amizade deles. Dá gosto de ver a leveza das cenas, as risadas, as brigas e como logo de cara Gabriel se deu bem com os dois que, aparentemente, eram os menos populares da turma, ao invés de se juntar com os mais populares e irritantes. Ele tinha tudo pra se juntar aos populares: beleza, carisma e etc, só pra constar. A forma como o longa se desenrola, as sensações (por um lado convicta, pelo outro nem tanto), a convivência, o companheirismo de Gabriel e Léo, nada soa exagerado ou forçado. É tudo tão natural, saca?

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O final, bem, como era de se esperar mesmo. O que se falou sobre esse filme, o hype todo em cima dele: não foi a toa. Sensibilidade, doçura, REALIDADE. Não só do Léo, mas como de muita gente. E é uma pena que o preconceito impere. No filme, impera de modo mais moderado, mas não exclui o fato de na vida real ser ainda pior a aceitação. Um filme pra ser passado nas escolas, SIM. De respeito.

É capaz que ainda esteja em cartaz. Até semana passada tinha horários disponíveis, só pra constar. Deixo aqui com vocês o curta metragem, cujo título original é EU NÃO QUERO VOLTAR SOZINHO, que é uma ótima introdução ao longa. Como eu disse logo no começo da crítica: se complementam. Assim como os carismáticos personagens. Bem, não consegui inserir o vídeo com thumbnail e tudo, mas pode clicar aqui http://youtu.be/1Wav5KjBHbI

Tranquilo, não é vírus. Aqui é um blog de família, obrigado, de nada.

"Ah, Donna. Não gosto desse desenho. Vamos trocar de canal, vai"

fantastico mundo de bob

Laura Palmer achou ofensivo e mandou trocar de canal

Ausência de Movimento

Ainda escuro, ele saiu de uma festa/reunião. Entrou num prédio público aparentemente com o intuito de ir ao banheiro. A porta entreaberta, viu uma cena visceral, stripped down, que o fez recuar. Ao sair do misterioso prédio, num intervalo de tempo que não chegou nem a um minuto, constatou que o céu clareou.

Aquelas ruas cinzas e tristes indicavam uma segunda de manhã. Uma biblioteca abandonada sempre sintonizada no mesmo canal. Teriam os livros se recusado a entrar em extinção? Aqueles corredores não viam alma alguma há muito, a não ser a do velho senhor responsável.

Ao longo de uma década, a mesma pessoa era a responsável por um surrado carrinho de pipoca. Ausência de movimento. A temida rotina assustava aquele jovem há mais de dez anos.

FAHRENHEIT 451 | Análise Literária e Cinematográfica

(Não se incomodem com o uso do discurso indireto-livre neste post. É natural o blogueiro entrar na pele da personagem. Isso acontece quando ele menos espera. Sejam pacientes. Ou simplesmente caiam fora antes de começar a ler.)

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Queimar era um prazer. Excitante. Ninguém podia com o fogo. O crepitar das chamas era equivalente a um grande teatro, onde cada nota ecoava como uma grande orquestra sinfônica. Todos paravam pra ver o fogo: quem por ali passava e, claro, o responsável por ele. A água podia apagá-lo, mas não podia apagar sua essência, seu brilho da memória dos mortais. Assim como os livros. É justamente aí que reside a analogia dessa história que será contada. Hoje em dia, certas pessoas pessoas dizem que “livro” seria um bom elogio. “Oh, você está tão ‘livro’ hoje”. Bem, justamente nas páginas deste romance em questão, existiram, de fato, as “Pessoas-Livro”. Bem, essa parte ainda será contada. Tudo ao seu tempo.

Como pôdem ter visto no título da postagem, trata-se do romance visionário (você vai entender o porquê de ele ser visionário mais pra frente) de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, publicado em 1953. “Por que o número 451, o que ele significa?”, perguntou Clarisse McClellan. É a temperatura que as folhas dos livros atingem ao serem queimadas. Este romance de ficção científica trata-se de uma distopia: termo que pode ser usado como um fingimento pra falar do futuro quando, na verdade, nada mais é que uma crítica ferrenha ao passado e o presente.

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Imaginem um lugar onde os livros ameaçam totalmente um sistema. Um sistema totalitário onde a leitura é terminantemente proibida. Um lugar onde balanços e bancos de praça deveriam ser destruídos, porque só de pensar em pessoas sentadas conversando, devaneando, era inadmissível. As pessoas paravam de ler por conta própria, por medo de sofrerem repressão do governo: “vamos, leia o livro:  não tem nada de interessante nele, mas sabemos que a curiosidade pra saber o que contém nele te corrói”. Literalmente. O querosene e as chamas que o digam. Aquela “falsa liberdade”. Liberdade que o homem jamais poderia suportar.

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Guy Montag, o protagonista, é um bombeiro que passa por uma séria crise existencial e percebe que vive uma vida de mentira ao lado da esposa Mildred, que passa o dia na frente da TV com seus “parentes” televisivos ou com fones de ouvido, isolada do mundo real. Todos nessa época em questão chamavam uns aos outros de “primos”, claro, pra forjar certa cortesia e interesse pelos demais. Clarice McClellan, uma jovem “pensante”, diferente de todos os outros (exceto os próprios tios), reflete sobre o mundo e o que tem nele, diferente de todos, ela olha as pessoas nos olhos e gosta quando os outros demonstram o mesmo interesse que ela.

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Depois que Guy a conhece, ele fica ainda mais fascinado pelos livros, livros que ele mantinham escondidos por anos até da esposa. Ironicamente, durante e depois da reflexão toda, o bombeiro recebe uma proposta de promoção no emprego do Capitão Beatty, chefe da equipe, inquisidor-mor. Abomina os livros mas, por outro lado, sabe cada citação de cor. Sabe muito bem o que deseja destruir. Faber, um ex-professor que trabalhava numa editora antes da proibição dos livros, se torna uma espécie de esperança ao bombeiro e o ajuda na missão de se rebelar contra a ditadura em que é obrigado a viver, lutando pela preservação da memória, pelos pensamentos. Numa das missões, Montag e Beatty passaram na casa de uma mulher que se recusou a sair de dentro de sua imensa biblioteca particular. Depois de terem espalhado todo o querosene, a própria acendeu um fósforo e se perdeu dentre as chamas. Ela conhecia a lei. Só se recusou a seguí-la a risca.

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Antigamente, os bombeiros apagavam incêndios. Hoje, eles começam um. Porque é viável pra eles. É viável pro sistema. Sistema que prega a igualdade, igualdade essa ameaçada pelos livros. Mas o que tem de tão ameaçador neles? A resposta já está presente na própria pergunta. Vejamos, “Ética”, de Aristóteles. Qualquer um que tenha lido, vai se achar um passo a frente do outro. E bem, não é isso que o governo quer. A única forma de atingir a felicidade é: todos devem ser iguais.

Essa era a desculpa de Beatty para a exterminação dos livros: trazer felicidade ao mundo, superar o preconceito. O intuito era se livrar de tudo aquilo que incomodava, que os forçava a pensar. Mas até onde isso seria positivo? A mulher de Montag não se lembrava de como conheceu o marido ou o que fazia em tal dia…Detalhes importantes sobre a vida eram esquecidos graças a vida vazia, onde a conversa e as lembranças não tinham poder algum. “Comprei um presente pra você pra comemorar…bem, esqueci o que exatamente, mas espero que goste”. Reflitam. Veja bem, ele não queria exterminar a comunicação em si: só queria evitar que aquilo se tornasse profundo demais. Profundo. Saber demais se tratava do ego inflado, da prepotência.

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Exemplos. Um livro sobre câncer de pulmão…”Os fumantes estão preocupados, para tranquiliza-los, nós queimamos o livro”. Na escola, sempre tinham raiva daquele que sabia de tudo, daquele que sabia de todas as respostas das perguntas. Era sempre o tirado pra Cristo pelos demais alunos. Saber mais era, automaticamente, o inferno que o indivíduo teria que suportar pelo resto da vida, de acordo com Beatty. Os escritores eram sempre cheios de si com suas teorias e filosofias baratas que, no final de tudo, eram sempre as mesmas. Um livro é uma arma carregada na casa do vizinho. A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas. Não deixe a melancolia infestar nosso mundo de felicidade.

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Beatty estranha o comportamento de Montag e desconfia que ele esteja escondendo alguns livros que rouba durante as missões. Eis que, logo depois de Guy pedir demissão do corpo de bombeiros, o capitão pede que ele se junte a todos pela última vez. Guy fica sem palavras quando percebe que o carro para em frente a sua própria casa. A máscara caiu. Assim como seus livros de cada esconderijo. No livro, uma denúncia anônima. No filme, adaptado com louvor por François Truffaut em 1966, sua mulher Linda (no livro ela se chama Mildred), o denuncia, pois não suportava mais a casa, o ambiente.

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Linda representava o povo: o medo daquilo que ela desconhecia, daquilo contido nos livros. Quando ela tocava um livro sem querer, ela se assustava, como se estivesse tocando num rato morto. Sempre se teme aquilo que não é familiar. Sobre o final de Beatty: fascinante. E pode-se dizer que ele provocou o próprio desfecho. E por vontade própria. Curioso. Tanto no livro, como no filme, é o mesmo final. Sem mais detalhes.

Sobre as “Pessoas-Livro”. Os rebeldes que conseguiam fugir se refugiavam em florestas próximas a linhas de trem e memorizavam o conteúdo dos livros pra quando o regime passasse. Daí o nome “Pessoas-Livro”. A frase “você está tão ‘livro’ hoje” nunca fez tanto sentido. Logo depois de acabar de ler um livro, queimavam-no. Claro, logo depois de memorizá-lo. Você até pode destruir o livro físico, mas não pode apagá-lo de vez da memória de cada um deles.

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No prefácio do livro da 2ª edição do Fahrenheit 451 publicada em 2012, Freud, ao saber que seus livros estavam sendo queimados em praça pública pelos nazistas em 1933, disse: “Que progresso estamos fazendo. Na Idade Média, teriam queimado a mim; hoje em dia, se contentam em queimar meus livros”. Assim como os discos dos Beatles queimados por religiosos fanáticos depois da polêmica (e mal interpretada) frase de John Lennon: Os Beatles são mais populares que Cristo. Ringo Starr disse: “Ah, não tem problema: eles vão comprar tudo de novo mesmo”. O título da obra de Salvador Dali, Persistência da Memória, se encaixa perfeitamente aqui: essa era a única forma de salvar os  livros: armazenando-os num lugar onde ninguém poderia tirar.

Atualmente, claro, a leitura não é proibida. E muito menos valorizada. A população atual, por que não?, adoraria viver neste lugar, onde o superficial e a imagem eram mais importantes que qualquer coisa. Como viver com alguém repreendendo pensamentos ou tentando bloqueá-los? O sistema quer cada vez mais pessoas desinteressadas (lê-se burras) para que possa dominá-las apenas com diversão. “Mantenham-nas se divertindo, mantenham-nas sempre em movimento”. Se pararmos pra pensar, isso não é diferente da nossa realidade. Daí o motivo de Fahrenheit 451 ser considerado um romance visionário. Ele se passa numa época não muito distante da nossa. E o pior de tudo: os livros não precisam virar cinza pra provar isso tudo. Pra provar o atraso mental.

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O filme dirigido por Truffaut é bem fiel ao livro, apesar de sutis mudanças no decorrer de algumas cenas em relação às páginas. De mudanças sérias, as únicas são a ausência do Sabujo – o cão de caça mecânico farejador – e do velho sábio Faber, ex-professor. Não vou dar mais detalhes, pois é importante que você leia e assista pra comparar. Como eu sempre digo, nada de estragar surpresas. E ah, por último, mas não menos importante: a trilha sonora é de ninguém menos do que BERNARD HERRMANN. Sim, os violinos freneticamente friccionados dele também se encaixaram como uma luva no longa.

Outro questionamento interessante: de onde vem o sangue? Vejam bem, quando Linda (Mildred) é encontrada desacordada por Montag em seu apartamento por ter tomado comprimidos supostamente pra insônia, ao invés de chegar um médico, vem dois enfermeiros e substituem o sangue dela e ela fica nova em folha. A pele fica alvíssima e Linda fica radiante e no outro dia ela nem lembra que desmaiou. De onde vem o sangue? Será um simples banco de sangue? Ou será sangue daquele que desobedeceu a lei? É tão fácil assim substituir todo o sangue do corpo de uma pessoa? Uma pessoa tem cerca de 5 ou 6 litros de sangue, só pra constar.

Apesar de algumas linhas desses parágrafos parecerem spoilers, acreditem, elas não são completas. Pra buscar as respostas com exatidão, leia Fahrenheit 451.

PS.: A cena dos livros sendo folheados pelo vento e queimados em seguida é dolorosa, mas não deixa de ser poética. Truffaut acertou em cheio. Poesia visual. Além de diversas obras conhecidas serem citadas. Uma verdadeira (e singela) aula de literatura.

Confira a ficha técnica do filme no Filmow http://filmow.com/fahrenheit-451-t4999/

Obrigado, de nada.

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Sobre meus gastos com Livros, DVDs e CDs…

Não me arrependo de nada. Absolutamente nenhum centavo gasto nas livrarias. I’m Not Sorry. It’s HUMAN NATURE.

Sambando On The Dance Floor, bitches!

Felippe Alves


Jornalista, 20 e poucos anos, amante assíduo da arte e da música. Dono do próprio blog. Sem sucesso pra trabalhar na área. Tenho células suicidas (elas não me suportam e colocam substitutas no lugar). Não sei o que é real ou o que é fantasioso. E definitivamente não sei lidar com MUITAS coisas.

What we´re gonna do right here is go back

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